Desvantagens de se fazer um desfile, ainda que muito longe do formato convencional, dentro de um museu: é preciso adaptar a moda, bem como toda a logística que ela envolve, a um espaço concebido e organizado para mostrar arte. Não há figura sacra do século XIII que se possa chegar cinco centímetros para a direita, nem natureza morta que se possa deslocar para outra parede. Mas foi assim que Nuno Gama idealizou a apresentação da sua coleção primavera-verão 2019, sem arredar nada do sítio, aproveitado a natural disposição das peças no terceiro piso do Museu Nacional de Arte Antiga.

Neste caso em particular, a relação entre o pronto-a-vestir do criador português e o espólio do museu tem o seu nexo. Não só porque Nuno Gama montou praticamente um cavalete para desenhar esta coleção (deixou poucas cores de fora, tal como os quadros do museu das Janelas Verdes), mas porque é lá que estão os Painéis de São Vicente de Fora, obra maior da produção artística nacional, peças fulcrais no leque de inspirações do designer.

Alinhados, os 70 manequins de Nuno Gama, instantes antes de assumirem as suas posições dentro do museu © João Porfírio/Observador

“Não sei explicar muito bem, mas eles [os painéis] causam uma descarga enérgica genial quando aqui chego. Já os vi tantas vezes, já os namorei tantas vezes e continuo completamente… Há ali um enigma qualquer qualquer coisa que tenha de fazer e que ainda não descobri. Mas será para uma próxima coleção.Já o fiz e vou ter de voltar a fazer”, explica Nuno Gama durante a apresentação da coleção.

Os 70 manequins ocuparam 16 salas do museu. Em vez de um desfile convencional, o criador espalhou-os pelo terceiro piso do edifício. Assim ficaram, do lado de cá das baias de segurança, mas como se fossem, também eles, obras de arte expostas para os visitantes verem. Verem e não só, tocarem. “Isto foi uma coisa que sempre quis fazer. Queria que pudessem ver as coisas a 360 graus, que pudessem ver as peças, durante um desfile há muita informação, não há tempo”, continua o criador.

São os 25 anos da marca Nuno Gama, o aparato tinha de ser especial. O designer já é conhecido pela capacidade de montar espetáculo na passerelle. Já levou música (o que voltou a acontecer através de um guitarrista), folclore português, encenações, performances de palco e bandas a cavalo para o momento do desfile. Por um lado, mais contido, por outro, envolto numa atmosfera claramente especial, o desfile deste sábado superou as expectativas de quem aguardou numa fila apocalítica pela sua vez de entrar. Antes das portas abrirem, a biblioteca do museu foi um vestiário improvisado. Sacrificou-se o espaço pela beleza das estantes cheias de livros.

Mal subimos, a primeira visão foi um grupo de modelos, só de calções e meias, sentados no parapeito das escadas. Nenhum caiu, bem como ninguém partiu nada de valor. Uma verdadeira conquista, se pensarmos na enchente que invadiu o museu, muito superior ao número de visitantes expectável para um sábado, ao início da tarde. “Só nos jazigos é que não há riscos”, afirma António Filipe Pimentel, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, ao Observador. “Já andava com esta ideia há bastante tempo, até que nos cruzámos”, completa. A ideia foi de Nuno Gama, o museu abriu as portas, tendo sempre em conta que todos os cuidados são poucos. “A marcação dos manequins está feita com extremo cuidado, tudo foi ensaiado. Agora, há quatro ou seis olhos da equipa em cima de tudo, para que o público não confine exageradamente”, termina o diretor.

Nuno Gama, durante a apresentação deste sábado, no Museu Nacional de Arte Antiga © João Porfírio/Observador

A experiência compensou o risco, para o museu e para o próprio designer, que começou a escrever um capítulo diferente de um livro com 25 anos. “Consegui desligar-me da minha estrutura normal de uma coleção. Fui muito pelos meus clientes, quis dar resposta ao que eles querem. E isso acabou por reverter um bocadinho os estilos, os conteúdos, as formas”, afirma Nuno Gama. O que apresentou nas Janelas Verdes foi uma coleção plural, porém coesa. A alfaiataria, a camisaria, as longas túnicas (batinas apostólicas ou trajes árabes?) e as sungas, claro, redefiniram os subtemas das diferentes salas do museu.

Nuno Gama prepara-se para abrir uma nova loja, na Rua da Trindade, em pleno Chiado. Admite que o novo espaço irá reunir alfaiataria, pronto-a-vestir, perfumaria de luxo e barbearia, tal como já habitou a clientela do Príncipe Real.

O Observador este no desfile de Nuno Gama, neste segundo dia de ModaLisboa. Reunimos imagens dos melhores momentos, antes e durante a apresentação na fotogaleria.