O que acontece quando a criatividade sem filtros dos criadores emergentes se cruza com os desafios reais do mercado e da produção em Portugal? A partir de ateliers em crescimento, peças únicas confecionadas com deadstock e redes colaborativas entre pares, as coleções apresentadas através da plataforma Workstation na última edição da ModaLisboa querem o equilíbrio entre o conceptual, o artesanal e o comercial. Da revolução no quiet luxury da ARNDES, passando pela moda política de Çal Pfungst, ao fenómeno girlie de Francisca Nabinho, fazemos um ponto de situação sobre o trabalho dos jovens designers que estiveram na semana da moda da capital.
A tinturaria no jardim de Çal Pfungst e o streetwear unissexo de Bárbara Atanásio
Com Çal Pfungst, a operação de carewear, ou guarda-roupa com efeito placebo, é terapia que soma e segue. A proposta de proteção revela-se em dez coordenados, desde os materiais, nas fibras usadas, ao efeito de abraço emocional que cada peça permite enquanto abrigo. “Até tive uma altura em que andei a brincar com alumínio”, partilha o designer, inspirado pela Gaiola de Faraday, um experimento conduzido por Michael Faraday em 1836. Não nos esqueçamos ainda — nem a banda sonora do desfile, criada por Sara Negra, admite olvidos — que os sistemas de poder e de criação de amor e conexão estão sempre em cena. Escute bem, “senhor Presidente”, ouve-se: “Importa que histórias contam histórias; importa que pensamentos pensam pensamentos”, frisa-nos, citando a filósofa norte-americana Donna Haraway, para lembrar que a roupa é ferramenta política, e que as colaborações são relevantes — um dos pontos altos, até, dos desfiles Workstation, plataforma da ModaLisboa que tem incubado talentos emergentes, pós Sangue Novo.
Çal Pfungst
Com a coleção “Aloof” explora a distância, a proximidade e a delicada tensão do contacto com a pele. “Tenho sempre um motor conceptual, uma frase. Costumam chamar-me forever aloof, um lugar de vulnerabilidade, de procurar a piada quando preciso de falar de emoções. Como é que posso falar dessas coisas com a roupa?”, interpela-se Gonçalo. “Sou muito lógico depois, vou somando coisas. Distância, navegar, sailor, fiz uma camisa de marinheiro, da gola passei para a manga, etc.”. Entre a volumetria e o 3D, regressou a técnicas que aprecia como a flocagem, acabamento que aplica pequenas fibras sobre uma superfície com cola para criar um efeito visual e tátil semelhante ao veludo ou camurça. Menos ousados, mas nem por isso de impacto inferior, os acessórios rematam o conjunto de looks apresentados na montra Workstation.
Uma criação de Çal Pfungst
“Os chapéus foram a última coisa, a altas horas, ontem à noite”, confessa o designer, sobre o habitual ritmo frenético que assiste um evento desta natureza. Mas é no slow fashion que está o rumo de um trabalho desenvolvido a partir de Ferreira do Alentejo, onde mantém o atelier — e onde se prepara para assinar as fardas da Sociedade Filarmónica local. “Tenho também estado a desenvolver o atelier de tinturaria e tingimento, construir o meu pequeno jardim para fazer tingimentos naturais. O projeto está a crescer aos poucos”, descreve. Nesta coleção, a cor e a tinta surgem nas riscas e na pintura manual dos estampados. Com um pé em Lisboa, fez os figurinos para a peça que esteve recentemente em cena no São Luiz, Caminho do Céu, encenado por Rita Cabaço. E mais virão.
O “Filho da Mãe” de Bárbara Atanásio é, literalmente, o seu irmão. É o músico quem desfila com um tank top branco, juntando-se aos designers David Mestre e Manel Baer na passerelle. “É muito uma ode a este rapaz que foi educado pela mãe, tem um código muito mais descontraído. Lá em casa somos só mulheres e ele sempre usou a roupa da forma que queria. Sempre usou mais peças minhas que eu dele, mas não de forma impositiva, é só descontraído.”, descreve a designer, que em março de 2024 venceu o prémio ModaLisboa x RDD Textiles do concurso Sangue Novo da ModaLisboa e em outubro do mesmo ano se estreou na plataforma Workstation.
Bárbara pôs o irmão Guilherme a desfilar
Através de uma prática multidisciplinar centrada no upcycling, na desconstrução e no humor, as memórias e o quotidiano são trabalhados a partir da descontração sobre matérias como identidade de género e códigos de vestir. “Há muitas peças unissexo e muitas vezes quando as empresto é a mulheres, ou a maior parte das compradoras são mulheres. Tenho calções que podem ser ajustados com molas, servem a muitos tamanhos, fitting mais em cima ou mais em baixo, são peças versáteis, gosto disso”.
Em termos de construção, podemos destacar as camisas ou as falsas cinturas descaídas, mas também várias peças que são versáteis de vestir em si próprias. “É o poder usar a peça como eu faço o meu styling. Muitas vezes faço uma peça que fica só à cintura e desta vez foi pensar como é que eu consigo fazer o meu próprio styling numa só peça. Foi essa exploração.”
Bárbara Atanásio
Os 18 coordenados, do mais puro streetwear urbano, cruzam-se com a parceria com a Vans, que já patrocina a marca há três seasons, e com novos acessórios, como a colaboração nas malas com “o melhor amigo”, o designer Renato Luís. “Também vão estar no site”. Falemos desse site, a grande novidade de Atanásio: dentro de dias, espera ter a loja disponível online, para escalar os pedidos que têm chegado acima de tudo pelo passa palavra e pelas redes sociais, num contexto de voragem que nem sempre beneficia o processo de quem tem que apresentar novidades em dois momentos por ano, neste caso no âmbito da ModaLisboa. “É sempre muito mediático. Há muito trabalho por trás que as pessoas não veem. Somos consumidores muito rápidos, queremos as coisas logo, e isso transtorna um pouco a criação.” Quanto ao público-alvo, mantém-se intocado: Bárbara Atanásio quer-se marca descontraída, “para uns e para outros, para todos”.
Mestre Studio regressa e ARNDES arrisca com mais cor
Fora da passerelle de Bárbara Atanásio, Diogo Mestre regressa à ModaLisboa depois da pausa de uma edição, com uma coleção que vai buscar memórias da casa da avó. “Tenho tanto o preto, que simboliza o que a minha avó usava, sempre de luto, como os calções de desporto, que eu costumava usar. Também as cadeirinhas, com as quais brincava em criança — andava com elas para trás e para a frente”, destaca o designer, ao falar sobre as peças que viraram mochila ou carteira nas mãos dos manequins.
A camisaria e os calções largos continuam presentes, assim como o trabalho em ganga e malha, em coordenados com tendência monocromática, com exceção dos blusões em tricô com listas em rosa, laranja ou azul.
Um apontamento das malhas em Mestre Studio
“Um dos materiais mais desafiantes foi o burel, que é sempre difícil de costurar. Tenho algumas gangas que são muito rígidas e criam um aspeto meio cartoon e também foram difíceis. E há materiais que são difíceis de trabalhar por questão de confeção e técnicas, como aquelas camisolas dos arquinhos — são feitas em tear manual e levam muitas horas de trabalho”, conta, sobre o caráter artesanal que permeia a sua produção, feita em pequenos ateliers de “senhoras e amigos”. “Acho que o mais importante no mundo da moda é percebermos que sozinhos não somos ninguém. Que precisamos do amigo do nosso amigo, que tem o contacto que tem outro contacto… E acho que isso é uma coisa muito boa, o facto de que eu consigo partilhar com muitos dos meus colegas”, diz Diogo Mestre. “São pessoas que se me ligarem a dizer: ‘Diogo, eu tenho uma coisa atrasada’. Eu digo: ‘Eu compreendo. Não se preocupe, diga-me só o que é que eu posso fazer para ajudar.’ Por exemplo, eu tenho uma colega que me entregou as peças todas com as linhas para cortar e para passar a ferro. Eu disse: ‘não se preocupe, eu trato disso.’”
Um dia a dia que reflete o trabalho dos designers independentes em Portugal. Assim como a maioria dos outros criadores do Workstation, Diogo Mestre dedica-se à Mestre Studio no tempo livre — atualmente trabalha em visual merchandising para o grupo Amorim Luxury. A rotina intensa também afeta o ritmo de desenvolvimento das coleções, e dita se o trabalho está ou não pronto para apresentar. “Por mim, se fosse preciso, daqui a duas semanas apresentava outra. Mas eu acho que é importante poder respeitar o tempo de encontrar materiais, moldes… E também é muito uma questão de se as últimas peças que fiz vendi, se houve retorno financeiro, se tenho valor para investir”, desabafa.
Diogo Mestre, o designer da marca Mestre Studio
Dificuldades à parte, Diogo Mestre mostra-se confiante no processo de construção da marca própria. “Foi um ano que começou calmo, mas que acabou muito bem. Agora numa parte final, vendi muitas peças, tanto a amigos como a clientes, e senti que as peças também saíram do núcleo dos meus amigos e a minha família, para irem para outras pessoas”, assume, destacando que os jovens designers podem ter dificuldade em vender especialmente pelo preço “menos competitivo”. “As nossas peças são feitas com deadstock. As minhas camisas, por exemplo, os botões são de retrosaria. Chego a pagar 2 euros por botão e isso acaba por se refletir no preço. Às vezes pensam que os nossos preços são só por nome de marca, não é. A nossa confeção é muito cara”, destaca. “Mas quem nos encontra e gosta do nosso design, aprecia-o e respeita-o e consegue pagar por ele. Estou a conseguir criar uma cartela de clientes, de pessoas que compraram e depois voltam a comprar, o que me deixa feliz”.
Para quem já esperava pela estética minimalista da ARNDES, a passerelle foi cenário de revolução para a marca que já vai na décima apresentação na ModaLisboa. “A minha ideia de partida foi, efetivamente, desfragmentar isso. Criar uma sátira à volta do que é que é socialmente aceite. Da questão de dizerem que só uso preto, branco e bege. Porque, efetivamente, eu tenho um problema, não consigo trabalhar cor como os outros designers trabalham — e admiro imenso que os outros designers trabalhem em cor. Mas, ao mesmo tempo, também se torna a minha estética. E acaba, também, de certa forma, por uniformizar o meu trabalho de experimentação, a ausência de cor”, assume, sobre as saias com lantejoulas e tabelas pantone impressas, assim como as peças em pele vermelha, material que vem de desperdício da indústria do calçado.
As cores e brilhos foram combinados com peças mais fechadas como blazers e casacos com fechos e detalhes, cores mais escuras e o recurso a forros à mostra e barras desfiadas, num styling que transporta peças clássicas para a passerelle em forma de sobreposições e acessórios mais ousados.
O risco da cor em ARNDES
Escolhas que foram, confessa, também um risco. “Tenho pessoas que gostam muito do meu trabalho. Então, tive este receio de: ‘Ok, será que, mesmo assim, por ser irreverente e introduzir cores, vou continuar a atender as expetativas?’ Mas têm sido reações muito positivas”, conta, um tanto aliviada. “Tenho tido cada vez mais o meu posicionamento no mercado. O meu nicho é efetivamente uma pessoa bastante ativa no dia a dia, muito independente, mas que gosta de usar coisas que não deem muito nas vistas. Confiantes com o que estão a usar, muito quiet luxury”, defende, sobre um público maioritariamente formado por portuguesas, mas que tem visto aumentar o número de “estrangeiras que residem em Portugal e acabam por passar a palavra”.
A ARNDES cresce aos poucos, como um projeto paralelo, enquanto Ana Rita se dedica também à profissão full time de gestora de produção em outra marca. Assume que o que mais gosta é mesmo a parte criativa, que depende da ModaLisboa como plataforma de divulgação do seu trabalho, e garante que quando o assunto é social, digital e e-mails, “quando eu começar a fazer dinheiro acho que provavelmente vai ser das primeiras pessoas a contratar. Vai tirar muita ansiedade de cima.”
Francisca Nabinho traz marca mais madura e Ariana Orrico explora novos materiais
Quem dá um passo importante no estabelecimento da marca própria é Francisca Nabinho, que depois de uma parceria com a marca portuguesa de calçado Helena Mar para a última coleção, desta vez apresenta sapatos próprios, e que chegam ao público nas próximas semanas — assim como as carteiras, uma novidade que conseguiu concretizar nos últimos meses. “Os sapatos eu já tinha trazido da outra vez, e agora voltei a trazer. Porque realmente foi uma coisa que fez muito sucesso. Finalmente vou poder começar a comercializar, e decidi fazer então também as malas, que ainda não tinha feito”, conta a criadora de moda que começou no concurso Sangue Novo em 2024. “O que costuma acontecer é depois da coleção sair eu faço um bocado um apanhado do feedback das pessoas. Perguntar às pessoas próximas de mim e não só, também aos meus clientes. Faço posts no Instagram, vejo a reação”, destaca a designer que faz a ressalva: “Tenho tecidos que me custam 60 euros o metro. São peças que são muito especiais e que só se justifica se for por encomenda. Faço um estudo do mercado e vejo o que é que é possível.”
Francisca Nabinho no rescaldo do desfile
Com loja online e dois pontos de venda físicos, a marca tem crescido especialmente pelo estilo girlie que conquistou as gerações mais jovens. Desde o começo do ano que Nabinho trabalha como diretora criativa na Joalharia do Carmo, assumindo a marca própria nos tempos livres e com a ajuda do namorado como sócio, mas olha para os negócios com otimismo. “Está a correr super bem, as coisas estão encaminhadas e acho que estou a um passinho de poder viver a 100% disto”, confia a criadora, que nos últimos meses conseguiu entrar em mercados internacionais e vender para países como os Estados Unidos, Japão, China, Coreia, Espanha, Alemanha e Bélgica.
A visão de negócios de Francisca Nabinho equilibra-se com o lado artístico na passerelle. Da formação em História da Arte ao legado familiar, é no pontilhismo de Georges Seurat que vai buscar inspiração para construir a sua Point Sur Point, coleção que tem tanto de comercial quanto de moda de autor.
Girlie mas menos juvenil, os pormenores do styling continuam a explorar a estética feminina
“Em vez de serem pinceladas largas, como os pintores faziam no impressionismo, era tudo feito aos pontinhos. Portanto, eram imagens que vistas de perto, eram uma coisa; vistas de longe, eram outra”, explica a designer. A inspiração na técnica neoimpressionista traduz-se em padrões autorais, em que traços azuis se transformam num barco à vela ou pontos de cor viram buquês de flores; mas também nas técnicas artesanais, percetíveis ao olhar mais detalhado, como a tecelagem — feita em teares semi-industriais — e as lantejoulas aplicadas manualmente. “Tentei utilizar também a questão do trompe-l’oeil, que é o enganar do olho, para criar alguns dos prints. Por exemplo tenho os folhos, que são desenhados. Tinha também umas pérolas, que consegui imprimir numas plaquinhas e simular, através da sublimação”, destaca a criadora.
A estética feminina continua lá, com as silhuetas justas com saias rodadas, os folhos e laços, as cores candy e um styling sempre a remeter para um universo de fantasia. Mas a nova coleção traz também peças mais sóbrias, em cores neutras e cortes que podem ser associados a uma identidade mais adulta. “Muitas pessoas falaram disso quando vieram dar feedback da coleção, sobre um amadurecimento. Fico feliz, porque era um dos meus objetivos. Gosto sempre de buscar evolução, incorporar algo novo nas minhas apresentações”, assume.
Uma das vencedoras da última edição do Sangue Novo, a coleção apresentada por Ariana Orrico é reflexo do estágio de um mês na Burel Factory. “Foi um mês assim intensivo em que tive acesso a todo o arquivo da Burel, a toda a fábrica, e foi muito inspirador, porque consegui olhar para os produtos mais característicos, como a manta, e foi surgindo essa ideia de trazer este conforto de casa para a rua”, começa por contar ao Observador a designer, que trouxe para a ModaLisboa um trabalho menos focado na pele. “Foi uma oportunidade de ver a diversidade de outros materiais. A lã é um material que eu já aprecio há imenso tempo, e o burel enquanto material também é super interessante.”
Com Orrico, as referências do universo do futebol continuam em campo
Na construção das peças entram lantejoulas, malhas e cor, com uma inspiração desportiva — até uma camisola da seleção entrou em “campo” — mas também coordenados que parecem conversar com um guarda-roupa feminino. “Continuo a assumir-me como uma marca de menswear, mas de facto o artefacto feminino sempre foi uma inspiração. Especialmente por estar a trabalhar mais com as tipologias de pijamas, de roupa de casa, que muitas vezes são associadas a peças femininas, ao contrário do trabalho, que é uma característica mais pragmaticamente masculina”, explica, ao falar da coleção que brinca com o slogan da bandeira de Lisboa: “Mui snob e sempre desleal”.
Ariana Orrico
A terminar o mestrado em Design de Moda, Ariana Orrico ainda dá os primeiros passos com a marca em nome próprio, mas quer tentar avançar para a comercialização. “São peças únicas, vamos ver se consigo depois fazer algum tipo de produção, mas é tudo muito novo para mim”, diz. “Vejo uma longevidade nesta marca. Mas penso ainda em estagiar, ir para fora um bocado, perceber melhor o mercado”, destaca, sobre os planos para depois da faculdade, que quer concretizar paralelamente, enquanto continua a investir na marca que tem vindo a construir. Entre a criação de roupas com afeto, utilidade e identidade, os designers da Workstation apostam que o futuro da moda de autor passa pela resiliência do slow fashion e pelo amadurecimento comercial das suas marcas, passo a passo.