Um ano separa a primeira da segunda coleção da 2B, a marca de roupa lançada no ano passado por Bárbara Bandeira, mas o que a cantora trouxe à ModaLisboa no último fim de semana foge completamente à estética da estreia. Os blazers oversized com ombros exagerados e coordenados pretos e brancos com brilho deram lugar aos veludos em tons como o amarelo mostarda ou o roxo, em casacos compridos com golas em mohair e vestidos de noite em tons de rosa e vinho, numa coleção pronta para servir os palcos. “Acredito mesmo que uma pessoa que trabalha das 9h às 18h no escritório pode perfeitamente pegar numa peça destas e ir a um jantar com os amigos. Basta querer”, assegura a artista, no rescaldo da apresentação, marcada para a última noite da semana da moda da capital.
A mudança na narrativa, para Bárbara, reflete-se numa coleção “um pouco mais madura”. “É uma marca que tem muita margem de progressão e muito tempo para encontrar a sua confiança”, diz a artista. Contudo, também se deve a uma reestruturação interna.
▲ O desfile foi centrado na extravagância -- do mohair dos casacos às plumas na cabeça das modelos. No final, Bárbara veio à passerelle com as três costureiras e o designer Tomás Sancho
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Desde março que o designer João Morais, que assinou a primeira coleção da 2B, já não trabalha para a marca. Ao Observador, explicou que a sua saída se deu por conflitos internos com a equipa, sem avançar com detalhes do momento exato que motivou a decisão. O designer, que atualmente trabalha com gestão e produção de moda e calçado para marcas internacionais que produzem em Portugal, diz apenas que dá valor “ao respeito, à ética de trabalho, à transparência e ao compromisso profissional”, e que as suas “convicções” não lhe permitiram “permanecer em contextos onde sinto que o meu trabalho, dedicação e profissionalismo deixam de ser valorizados da forma que considero correta, incluindo em aspetos previamente alinhados a nível profissional.”
Sobre a nova coleção, diz estar “feliz” por a 2B “ter conseguido apresentar uma coleção”, mas mostra-se “triste por o trabalho de pesquisa, meu e da Bárbara, de quase um ano para criar uma identidade para a marca, ter sido facilmente alterado com a entrada de novos colaboradores”. João Morais assinala que levou o projeto “de forma muito pessoal” desde o início, incluindo as conversas para a criação do nome, 2B — uma marca registada no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual em setembro de 2025, e que tem como proprietária uma das empresas de Bárbara Bandeira.
▲ Em outubro de 2025 Bárbara Bandeira desfilou com João Morais, com quem desenhou a coleção de estreia
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
João Morais afirma ter saído deixando a coleção de verão 2026 já desenhada, mas as peças nunca chegaram a ser produzidas e disponibilizadas ao público. A cantora não comenta a saída do designer anterior, afirmando apenas que a “2B é uma marca que não está propriamente presa a ninguém, nem mesmo a mim, e portanto estou super confortável e super feliz por ver novos talentos”, assegurando que outras coleções poderão ser assinadas por outros criadores. “As coisas podem sempre acontecer assim, eu apaixonar-me por um designer e arrastá-lo para a 2B”, diz, sobre a mudança.
Para já, Tomás Sancho é o nome escolhido por Bárbara Bandeira para assumir esta segunda apresentação, um designer que já tem uma marca própria, a SSancho, com a qual veste a cantora em diferentes ocasiões de trabalho — de concertos a videoclipes. Ao Observador, Sancho diz que começou a trabalhar com a 2B “muito recentemente”, mesmo para rematar esta segunda coleção.
O designer não traz só a sua estética escultórica — assumidamente inspirada nas criações da Schiaparelli — mas a sua força de produção. É que até março a 2B produzia em ateliers e fábricas do Norte do país, mas agora a produção concentra-se em Cantanhede. No pequeno atelier onde Sancho já tinha uma profissional dedicada às suas peças em nome próprio, há agora outras duas costureiras a trabalhar exclusivamente na confeção das peças da 2B.
Do palco para um happy hour pós-escritório?
Quando lançou a marca em 2025, Bárbara Bandeira apresentou uma seleção de blazers e camisas, peças em alfaiataria que apesar do design arrojado, fora do styling de passerelle seguiam uma estética mais comercial. Com a nova coleção, contudo, a cantora aproxima-se de uma narrativa de palco — especialmente com peças com pelo e plumas e formas mais extravagantes. Uma aposta que não parece assustar a diretora criativa da marca.
“Ou nós jogamos pelo seguro ou nós estamos confortáveis com a diferença. E acima de tudo, assim como eu faço na minha música, gosto de não ser expectável, gosto que as pessoas fiquem surpreendidas de alguma forma”, diz, afirmando que esta é uma coleção para “quem se sente livre de usar aquilo que quer e bem lhe apetece. Eu gosto da ideia de entrar numa sala e parar tudo aquilo que está a acontecer e toda a gente olha para ti. Claro que é preciso ter coragem para o fazer, é preciso ter uma personalidade específica, mas o público-alvo é toda a gente que se sente confortável e confiante em fazê-lo.”
Questionada sobre como a 2B se tem saído em termos comerciais, Bárbara Bandeira é vaga. “Isto para mim é um passion project. Ou seja, para mim isto é uma extensão daquilo que eu faço — obviamente que eu sou cantora e isto acaba por ser um side project, mas é algo que me tem apaixonado muito. É completamente diferente medir, por exemplo, uma música, como é que a música funcionou, e medir uma marca, não tem absolutamente nada a ver”, diz, sem revelar como correu o primeiro ano de vendas. “Tenho muitas pessoas que já gostam de mim como cantora e acabam por comprar e usar a marca, mas também tenho pessoas que não são necessariamente fãs do meu trabalho musical, mas que gostam muito daquilo que nós estamos a fazer com a marca, portanto estou super satisfeita.”
▲ Bárbara Bandeira assume a 2B como um "passion project", e evita falar sobre o ritmo das vendas da marca de roupas
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Bárbara assinala ainda que tem havido muita procura por parte de stylists e produções para editoriais de moda. “Até temos feito uma gestão porque tem corrido mesmo muito bem. Ainda no outro dia o Luís Borges me contactou porque estava a fazer o styling de uma pessoa que trabalha com ele”, recorda a cantora, que reconhece ter mais facilidade em posicionar a marca no meio artístico. Garante ainda que está envolvida em “todo o processo”, incluindo o styling do desfile. Nos bastidores, assume parecer “uma barata tonta”: “Estou de um lado para o outro, sempre à procura do detalhe e sempre a tentar fazer o melhor.”
Um agricultor com afinidade pela Schiaparelli
A mudança na estética da marca aponta para a forma como Tomás Sancho tem trabalhado a sua marca própria, a SSancho. Com atelier em Cantanhede e loja online com coleção num estilo streetwear traduzido em bomber jackets e calças largas com bolsos, mas em tecidos e modelagens mais femininas; o criador tem estabelecido o seu nome na moda nacional ao longo dos últimos dois anos — também a criar peças para Bárbara Bandeira.
“A peça mais impactante foi um dos últimos vestidos que ela usou num videoclipe. Tinha 20 quilos e que era coberto de palha. Foi, sem dúvida, o grande ponto de partida desta associação entre mim e a Bárbara”, assegura o criador ao Observador.
▲ Tomás Sancho é quem assina esta segunda coleção da 2B. Há dois anos comanda a etiqueta própria, a SSancho, com produção em atelier próprio, em Cantanhede
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Mas o seu caminho nem sempre passou pela moda. Tomás Sancho chegou a licenciar-se em agropecuária em Coimbra antes de se dedicar à criação de roupas. “Sempre tive muita apetência para a parte artística e artesanal e durante a pandemia eu decidi que queria estudar moda”, conta. “Trabalhei na área do artesanato, dos figurinos de carnaval, de marchas e de teatro e tinha muito o know-how de fazer este tipo de peças mais arrojadas”, recorda, destacando que o “bichinho da moda” surgiu mesmo quando descobriu o trabalho da maison francesa Schiaparelli. “Para mim foi um choque brutal e foi isso que me fez querer começar a estudar moda”, garante.
É o lado mais artístico e escultórico da casa fundada por Elsa Schiaparelli que se reflete como inspiração no trabalho de Sancho. Na música, vestiu nomes como Marisa Liz, Aurea, Sara Correia e também a brasileira Luisa Sonza, sempre com peças que transitam entre o exagero e o estilo urbano. Na coleção com a 2B, explora os contrastes da feminilidade dos tons de rosa e da leveza dos tecidos mais fluidos com a ousadia das peças mais justas e curtas e a força dos tecidos mais estruturados, como o veludo. “Para mim o maior desafio foi transportar este neorromantismo para uma coisa mais atual de streetwear. E, portanto, a modelagem das peças com malhas de fato-treino, mas numa vibe mais de alta costura, foi o mais difícil. Os outros tipos de peças mais marcantes, com as plumas, os trabalhos manuais, as saias armadas e os pelos, já é uma coisa que para mim é mais natural, apesar de ser muito trabalhoso e necessitar de muitas horas”, assinala.
À parte do meio artístico, Tomás Sancho já tem uma “carteira de clientes”: geralmente portuguesas, que fazem encomendas de peças sob medida para eventos específicos. Com esta nova coleção para a 2B, o criador assume que a marca de Bárbara Bandeira também se aproxima desta clientela, “o tipo de pessoa que não tem medo de usar uma peça diferente para ir a um evento, ou casamento, ou jantar”. Para já a loja online da 2B ainda vende peças antigas — o blazer “Manifesto” custa 250 euros enquanto artigos mais simples, como um body com gola alta, sai por 60 euros — portanto não se sabe de que forma e por quanto as peças novas vão chegar ao consumidor final. Já os elogios à nova coleção circulam nas redes sociais especialmente em perfis de fãs da cantora: resta saber se a nova rota será capaz de convencer o público que consome a moda de autor, com a sua ousadia e os seus preços.