Depois da derrota do Sporting na última jornada frente ao Marítimo, Jorge Jesus — então treinador do clube — decidiu dar folga aos jogadores durante dois dias e só marcou treino para quarta-feira, 16 de maio, às 10h. No entanto, Bruno de Carvalho terá chamado o técnico para uma reunião e exigiu que o treino acontecesse em Alcochete na terça-feira, 15 de maio, às 17h — no mesmo dia em que dezenas de membros da Juventude Leonina entraram no centro de treinos e atacaram atletas e técnicos, descreve o Correio da Manhã.

Nessa reunião entre Bruno de Carvalho e Jorge Jesus, o ex-presidente do Sporting terá informado o técnico que estava despedido mas que ainda queria que ele desse o treino de terça-feira. Além disso, Bruno de Carvalho também exigiu que o treino da equipa feminina de futebol não fosse na tarde desse dia, como estava agendado, mas antes na manhã. De acordo com o Ministério Público, tudo isso foi orquestrado com Fernando Mendes e Mustafá, os cabecilhas da claque, para que a Juve Leo pudesse invadir o balneário da equipa masculina.

Segundo o Correio da Manhã, esse ataque foi combinado no domingo à noite num telefonema entre Bruno de Carvalho e Fernando Mendes. Depois, as informações foram transmitidas a Mustafá, que por sua vez avisou Bruno Jacinto, oficial de ligação aos adeptos. Foi Bruno Jacinto que explicou este esquema às autoridades.

Bruno de Carvalho “calmo mas surpreendido” na detenção

A irmã de Bruno de Carvalho tinha ido com a sobrinha comprar uma árvore de Natal quando a Guarda Nacional Republicana deteve o ex-presidente do Sporting, no último domingo. “Quando chegámos deparámo-nos com muitos homens desconhecidos, um cão. Horas? Um quarto para as seis. As buscas: ainda tivemos de esperar, aqueles eram só os primeiros a chegar”, descreveu numa entrevista esta terça-feira à noite na TVI.

Alexandra de Carvalho disse ter acesso ao mandado de busca que as autoridades apresentaram ao irmão: “Ligámos a um advogado e esperámos que fizessem a busca com o cão”, explicou. Segundo ela, Bruno de Carvalho estava “calmo mas surpreendido”: “Olhou para mim e disse: ‘Olha, não são amigos. Vêm para me deter’. Não compreendo. Dei uma olhada na documentação e disse: ‘Mas isto é para interrogatório e já está aqui que és culpado?’. Telefonei ao advogado, que veio e tomou as notas que tinha que tomar. Acatámos as ordens que fomos recebendo. Levaram computadores e telemóveis. Do que me lembro foi isto”.

A irmã de Bruno de Carvalho garantiu que o ex-presidente do Sporting nunca pensou em sair do país para evitar ser detido: “Uma pessoa que tem o percurso que ele tem, a vontade que tem de fazer as coisas corretas, clareza, franqueza, frontalidade — se calhar por vezes até para além da conta — vai agora fugir? Quando tem a possibilidade e dever de dizer o que tem a dizer? Nunca foi falado nada disso. Nunca foi hipótese”, sublinhou.

Alexandra de Carvalho também denunciou as condições em que o irmão tem estado detido: “Como se deixa um homem num local onde não há um duche, chuveiro, para ser ouvido a uma terça e uma quarta?”, questiona. E disse acreditar que Bruno de Carvalho está a ser vítima de uma injustiça: “É assustador ouvir os comentários que são feitos. É como se a pessoa fosse impotente perante isto tudo. A verdadeira sensação é que Bruno de Carvalho está abaixo da justiça. E provavelmente há mais pessoas assim”, afirmou à TVI.

Os guardas permitem que Bruno de Carvalho saia da cela para fumar cigarros numa área aberta. Outra regalia que tem é a visita dos familiares, algo que não costuma acontecer nas esquadras policiais antes de serem fixadas as medidas de coação pelo juiz de instrução.