Volvidos dois anos desde o ataque à academia de Alcochete ficámos a saber que não foram dados como provados os factos imputados ao anterior presidente do Sporting, Bruno de Carvalho. Os tribunais falaram, a justiça decidiu, e a partir de agora, do ponto de vista estritamente criminal, não existe nada que possa ser apontado ao cidadão Bruno de Carvalho. O “problema” é que o direito penal, pela sua própria natureza, apenas fornece respostas a um limitadíssimo grupo de questões, apenas incide sobre uma pequeníssima parte dos nossos comportamentos, deixando de fora, como é natural, indagações sobre o quilate moral e ético dos indivíduos. Sob pena de construirmos uma comunidade de empedernidos burocratas, é essencial perceber este ponto: as avaliações feitas pelos tribunais não deslegitimam nem tornam caducas as avaliações éticas e morais feitas à revelia de argumentos jurídico-penais.

Por isso, quem tem criticado Bruno de Carvalho não é obrigado a colocar a mão no peito e a fazer um acto de contrição, porque ainda que a resposta dada pelo direito ilibe criminalmente o ex-presidente leonino, isto não significa que os desvarios que foram cometidos e que levaram à sua destituição da presidência do clube e expulsão da qualidade de sócio fiquem legitimados. Uma sentença cuja apreciação factual se circunscreve ao fatídico episódio do ataque à Academia não deve servir como fonte de branqueamento de um conjunto de outros episódios com graves repercussões financeiras e reputacionais que tristemente mancharam a história de um clube centenário.

Quem quiser estudar os fenómenos populistas em Portugal tem no consulado “brunista” no clube de Alvalade um excelente ponto de partida. Desde que assumiu a presidência do clube, em 2013, perfilando-se como o candidato que não fazia parte do sistema dos “croquetes”, não se cansou de fomentar antagonismos estéreis que não tiveram outro propósito a não ser arregimentar as massas e torná-las, não apenas tribais, mas verdadeiramente fanáticas e trogloditas. Como qualquer populista que se preze não hesitou na hora de agitar a bandeira do inimigo, fosse ele interno ou externo, desde que lhe permitisse assumir o papel de salvador da honra sportinguista. O Sporting precisava de voltar a ser respeitado, de voltar a ser grande (alguma vez deixou de o ser?), e só o conseguiria se tivesse a liderar os seus destinos alguém que dissesse as verdades que tinham de ser ditas. As suas próprias e mirabolantes verdades.

É nesta relação de proximidade emocional inteligentemente urdida por Bruno de Carvalho ao longo da sua liderança que reside a sua principal força. E é também com base nela que tem mantido uma base de indefectíveis suficientemente ruidosa para se manter activa no espaço mediático e nas redes sociais e que já começou a dar mostras do seu desejo de iniciar o processo de reabilitação do ex-presidente enquanto sócio tendo em vista uma futura candidatura à presidência.

O sucesso desta tentativa de capitalização da decisão judicial dependerá sempre da vontade dos sócios que anda sempre de mão dada com os resultados apresentados pela equipa de futebol. No caso do Sporting, afastado das grandes conquistas há praticamente duas dezenas de anos, a obsessão pelos resultados é ainda maior e será decisiva em tomadas de decisão futuras. Da minha parte, vou preferir sempre estar mais vinte anos sem ganhar do que ver o Sporting tornar-se novamente um feudo de demagogos e populistas.