Cinema

“Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”: menos monstros, mais confusão e mais magia fabricada em computador

155

O segundo filme da nova franquia de cinco criada por J.K. Rowling visita Hogwarts, tem um um enredo confuso e uma "overdose" de magia digital. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

J.K. Rowling é uma escritora que vai picar a muitos sítios: de Charles Dickens a Jane Austen, dos folhetins populares e de cordel à literatura de “fantasy” sobre mundos mágicos alternativos, as suas influências e referências estão visíveis por toda a parte nos livros da série “Harry Potter”. E agora em “Monstros Fantásticos”, que funciona ao mesmo tempo como uma prequela e uma expansão desta, passando-se no mesmo universo de magia e englobando algumas das suas personagens. Se os filmes de Harry Potter estão em geral bem arrumados e explicados, tal como os livros que transpõem ao cinema, graças aos argumentos muito profissionais de Steve Kloves, o mesmo já não acontece com os da nova série, em que Rowling chamou a si os deveres de argumentista. Uma coisa é ter 400 páginas para organizar tudo e atar as pontas soltas, outra é ter duas horas de filme para o fazer.

[Veja o “trailer” do filme]

A falta de experiência da autora em termos de escrita para cinema está bem à vista em “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, o segundo filme desta nova série (serão cinco), e muito mais do que no original, “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” (ambos de David Yates, que transitou dos filmes de Harry Potter). Onde aquele lançava as aventuras do novo herói de J.K. Rowling, o magizoólogo Newt Scamander (Eddie Redmayne) e apresentava as personagens, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” vem adensar o enredo. E fá-lo de forma confusa, multiplicando-se em peripécias, revelações e testes de lealdade, desdobrando-se em subenredos e introduzindo mais personagens secundárias e subalternas. Todo este laborioso e atabalhoado afã resulta num filme com deficiente legibilidade, hiatos de compreensão e transições bruscas que nem os mais vistosos efeitos especiais conseguem tapar. É uma bagunça.

[Veja uma entrevista com o elenco]

Em “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, passado em 1927, o maléfico Grindelwald (composto por Johnny Depp como um aristocrático aspirante a tirano, com um olho maroto e o ar de quem tomou banho numa piscina de cal) evade-se e vai instalar-se em Paris para começar a estabelecer, sob pretextos altruístas, a ditadura dos feiticeiros sobre o mundo da magia e o nosso. Newt segue clandestinamente no seu encalço, levando consigo a malinha sem fundo cheia de animais fantásticos (aqui com menos protagonismo do que no primeiro filme, excluindo o Zouwu, o monstro chinês que se transforma na nova aquisição do magizoólogo) e ajudado por um mais jovem Albus Dumbledore (Jude Law), já que a fita vai de visita a Hogwarts.

[Veja Jude Law falar sobre o filme e sobre Dumbledore]

“Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” multiplica-se então em revelações sobre filiações e paternidades desconhecidas, parentescos insuspeitos e relações familiares inesperadas, denunciando as fundações folhetinescas da escrita de J.K. Rowling e contribuindo para o enovelamento da história, agora mais carregada e tétrica, e para o ritmo empastelado do filme. Que está carregado de motivos, personagens, situações e de todo um bricabraque visual reminiscente da saga Harry Potter, dos ambientes insistentemente soturnos e “góticos” aos duelos bombásticos entre feiticeiros brandindo varinhas mágicas (a sequência quase apocalíptica no Père Lachaise), passando pelas personagens torturadas que carregam pesados segredos. Se há uma coisa que esta nova franquia cinematográfica revela, são os limites da imaginação da sua autora.

[Veja Johnny Depp como Grindelwald na Comic Con]

Dizer que David Yates realiza “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” não é dizer grande coisa. Estes “blockbusters”, tal como os filmes de super-heróis da Marvel e da DC, pesadamente dependentes como estão dos efeitos especiais digitais para a sua arquitectura cinematográfica e funcionamento narrativo (Jude Law contou numa entrevista que tinha ido ver um prestidigitador manejar uma varinha, para que o seu Dumbledore não fizesse má figura, e chegado ao “set” do filme lhe disseram, “Esquece, vamos fazer isso tudo com os computadores”), transformam os realizadores em meros gestores de CGI, e as fitas são em grande parte construídas na pós-produção. A magia aqui chama-se muito simplesmente “software”. Já nem no mundo dos feiticeiros o efeito de deslumbramento é o que era, transformado como foi em rotina de espectacularidade fabricada digitalmente.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
NATO

Os 70 anos da NATO, vistos da Europa


João Diogo Barbosa

Não só o “exército europeu” se tornou um dos temas essenciais para o futuro, como foi possível, pela primeira vez, a aprovação de um Programa Europeu de Desenvolvimento Industrial no domínio da Defesa

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)