Cinema

“Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”: menos monstros, mais confusão e mais magia fabricada em computador

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O segundo filme da nova franquia de cinco criada por J.K. Rowling visita Hogwarts, tem um um enredo confuso e uma "overdose" de magia digital. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

J.K. Rowling é uma escritora que vai picar a muitos sítios: de Charles Dickens a Jane Austen, dos folhetins populares e de cordel à literatura de “fantasy” sobre mundos mágicos alternativos, as suas influências e referências estão visíveis por toda a parte nos livros da série “Harry Potter”. E agora em “Monstros Fantásticos”, que funciona ao mesmo tempo como uma prequela e uma expansão desta, passando-se no mesmo universo de magia e englobando algumas das suas personagens. Se os filmes de Harry Potter estão em geral bem arrumados e explicados, tal como os livros que transpõem ao cinema, graças aos argumentos muito profissionais de Steve Kloves, o mesmo já não acontece com os da nova série, em que Rowling chamou a si os deveres de argumentista. Uma coisa é ter 400 páginas para organizar tudo e atar as pontas soltas, outra é ter duas horas de filme para o fazer.

[Veja o “trailer” do filme]

A falta de experiência da autora em termos de escrita para cinema está bem à vista em “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, o segundo filme desta nova série (serão cinco), e muito mais do que no original, “Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los” (ambos de David Yates, que transitou dos filmes de Harry Potter). Onde aquele lançava as aventuras do novo herói de J.K. Rowling, o magizoólogo Newt Scamander (Eddie Redmayne) e apresentava as personagens, “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” vem adensar o enredo. E fá-lo de forma confusa, multiplicando-se em peripécias, revelações e testes de lealdade, desdobrando-se em subenredos e introduzindo mais personagens secundárias e subalternas. Todo este laborioso e atabalhoado afã resulta num filme com deficiente legibilidade, hiatos de compreensão e transições bruscas que nem os mais vistosos efeitos especiais conseguem tapar. É uma bagunça.

[Veja uma entrevista com o elenco]

Em “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”, passado em 1927, o maléfico Grindelwald (composto por Johnny Depp como um aristocrático aspirante a tirano, com um olho maroto e o ar de quem tomou banho numa piscina de cal) evade-se e vai instalar-se em Paris para começar a estabelecer, sob pretextos altruístas, a ditadura dos feiticeiros sobre o mundo da magia e o nosso. Newt segue clandestinamente no seu encalço, levando consigo a malinha sem fundo cheia de animais fantásticos (aqui com menos protagonismo do que no primeiro filme, excluindo o Zouwu, o monstro chinês que se transforma na nova aquisição do magizoólogo) e ajudado por um mais jovem Albus Dumbledore (Jude Law), já que a fita vai de visita a Hogwarts.

[Veja Jude Law falar sobre o filme e sobre Dumbledore]

“Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” multiplica-se então em revelações sobre filiações e paternidades desconhecidas, parentescos insuspeitos e relações familiares inesperadas, denunciando as fundações folhetinescas da escrita de J.K. Rowling e contribuindo para o enovelamento da história, agora mais carregada e tétrica, e para o ritmo empastelado do filme. Que está carregado de motivos, personagens, situações e de todo um bricabraque visual reminiscente da saga Harry Potter, dos ambientes insistentemente soturnos e “góticos” aos duelos bombásticos entre feiticeiros brandindo varinhas mágicas (a sequência quase apocalíptica no Père Lachaise), passando pelas personagens torturadas que carregam pesados segredos. Se há uma coisa que esta nova franquia cinematográfica revela, são os limites da imaginação da sua autora.

[Veja Johnny Depp como Grindelwald na Comic Con]

Dizer que David Yates realiza “Monstros Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” não é dizer grande coisa. Estes “blockbusters”, tal como os filmes de super-heróis da Marvel e da DC, pesadamente dependentes como estão dos efeitos especiais digitais para a sua arquitectura cinematográfica e funcionamento narrativo (Jude Law contou numa entrevista que tinha ido ver um prestidigitador manejar uma varinha, para que o seu Dumbledore não fizesse má figura, e chegado ao “set” do filme lhe disseram, “Esquece, vamos fazer isso tudo com os computadores”), transformam os realizadores em meros gestores de CGI, e as fitas são em grande parte construídas na pós-produção. A magia aqui chama-se muito simplesmente “software”. Já nem no mundo dos feiticeiros o efeito de deslumbramento é o que era, transformado como foi em rotina de espectacularidade fabricada digitalmente.

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