Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: os jovens radicais nas colinas da Cisjordânia. Estamos a ouvir o som de um grupo de miúdos, miúdos mesmo, 15, 16 anos, se tanto. Armados com paus e com uma expressão ameaçadora, eles estão a atacar uma família palestiniana de agricultores. "Eles vêm aí." É este o grito de alerta que os palestinianos que vivem na Cisjordânia vão passando uns aos outros para avisar que os Jovens das Colinas estão a chegar. Os Jovens das Colinas são um grupo de judeus radicais que vivem em colonatos na Cisjordânia e acreditam que com intimidação e violência estão a recuperar uma terra que pertence aos judeus há milhares de anos. É sobre isto que vou hoje conversar com os enviados do Observador à Cisjordânia, o Pedro Jorge Castro e o João Porfírio, para saber quem são estes miúdos e até que ponto agem sozinhos. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 22 de outubro. Olá, Pedro Castro. Olá, João Porfírio.
Olá, Pedro.
Olá, Pedro.
Vamos começar só por nos situar, a mim e a quem nos está a ouvir, onde é que vocês estão exatamente?
Nós estamos neste momento em Ramallah, que é a capital administrativa de facto da Palestina, é onde está a sede da Autoridade Palestiniana. Viemos aqui para fazer a cobertura das eleições de Israel, que são na próxima semana, mas achamos muito importante vir à Cisjordânia ver tudo aquilo que se está a passar aqui, nomeadamente tendo em conta os últimos atos de violência extrema, que têm sido partilhados em todo o mundo, contra o fotojornalista do Washington Post, depois contra diplomatas europeus. Isto aconteceu tudo nestes últimos dias.
Algum de vocês já tinha estado na Cisjordânia, em Ramallah, ou é a primeira vez?
Eu já tinha estado, é a minha terceira vez cá. E há uma grande diferença. Sinto uma grande diferença desde a primeira vez. A primeira vez que vim foi há cinco anos, a última foi o ano passado, fez há pouco tempo um ano, e a principal diferença que vejo nestas três vezes que aqui vim, nestas duas vezes para agora, a terceira vez, foi o aumento do número de colonatos. Quando vim a primeira vez, o motorista que estava conosco, era difícil ele mostrar-nos onde é que havia aqui, como eles dizem, a expansão dos colonatos israelitas na Cisjordânia. Agora é bastante fácil identificar o que são colonatos e o que são aldeias árabes. E o que é facto é que existe uma grande diferença visual entre as duas. Grande parte destes colonatos têm até condições muito precárias. Os colonos escolhem viver assim, escolhem viver nessas condições precárias e quando falamos de condições precárias, falamos mesmo de casas feitas de latas, quase como se fosse uma casa de lata. E os colonos escolhem viver assim. De facto, eles têm posses monetárias para viver melhor, mas escolhem vir viver para aqui, escolhem sair de Israel e vir viver para a Cisjordânia nestas condições, porque acreditam que esta é a terra deles e onde eles pertencem.
João Porfírio, isso que tu falaste agora dos colonatos e aquilo que o Pedro Castro falava há pouco da violência é, na verdade, aquilo sobre o qual vamos conversar hoje. É uma história de colonatos, é uma história de violência também. Pedro, leva-nos até àquele café a uns 30 quilômetros do local onde vocês estão agora, de Ramallah. Vocês estavam a entrevistar um senhor, o dono do café. Leva-nos até lá, o que estava a acontecer, por que escolheram esse senhor e o que aconteceu durante essa entrevista?
Sim, nós fomos lá atrás de uma história. A história é que um colono, precisamente, um jovem radical, tinha plantado dezenas de bandeiras de Israel a toda a volta e junto à entrada do café deste senhor palestiniano. Nós estávamos a entrevistar o senhor para perceber como é que isso tinha acontecido. Isto aconteceu já agora no dia 7 de outubro, portanto, três anos depois do Hamás, que mataram 1180 pessoas e fizeram 250 mil reféns israelitas. Nesse dia, ele acordou, quando chegou ao café, encontrou muitas dezenas de bandeiras israelitas cravadas mesmo em frente do seu estabelecimento. E estávamos a falar com ele sobre isto, quando chegam, primeiro, as forças de defesa de Israel. Vieram perguntar-nos o que estamos ali a fazer, com quem é que estamos a falar. Cada história tem dois lados, que devíamos falar com outras pessoas, pedem-nos a identificação.
Cada história tem dois lados, são eles a dizer a vocês, jornalistas, que as histórias têm dois lados?
Exato. Sendo que eles próprios não podem falar sobre isto, mas curiosamente, logo a seguir, aparece um jovem, um colono radical, podemos dizer assim, estaciona o carro mesmo em frente ao café, fica a olhar fixamente para o dono do café e ele assusta-se. E diz: "Foi ele que incendiou o café já aqui há uns anos e que me roubou o café quatro vezes desde que começou a guerra. E foi ele que plantou aqui as bandeiras". E de facto, o jovem vem com a maior tranquilidade, atravessa a estrada e vai ajeitar cada uma das bandeiras, reerguer os mastros, enfim, ajeitar os panos que têm o símbolo de Israel. E depois de fazer isto, aproxima-se do dono do café. Quando ele está a ser fotografado por nós, ele coloca-se atrás dele a fazer o símbolo do V da vitória para posar para a fotografia. E nós tentamos falar com ele e ele diz Rejeita, diz que não fala inglês e mesmo utilizando uma app de tradução simultânea, também foge disso. Depois pega num telefone muito antiquado. Eles são antimodernos, não podem ter acesso à internet, exceto por razões operacionais. Pega num telefone daqueles muito antigos, faz lembrar os telefones do fim dos anos 90, e começa a fazer uma chamada e percebe-se depois que está a chamar os companheiros para se juntarem ali para ver aquilo que se está a passar e para arranjar mais confusão. Obviamente, o dono do café fica muito nervoso com esta situação, mas é a demonstração da intimidação e do assédio de que ele é alvo e da forma como se sente provocado diariamente por este colono radical, que se sente muito à vontade para ir ali fazer uma cena destas.
Sendo que durante esta conversa que estavas a ter comigo, o João Porfírio enviou-me uma fotografia que tirou precisamente desse jovem israelita, no momento em que ele está a retocar as várias bandeiras de Israel. Isso depois poderá ser visto no vosso artigo no Observador. Este é um caso e há outros casos. Há um caso também com uma imagem muito forte, que tem a ver com a apanha da azeitona e o momento em que quem está a apanhar a azeitona, homens e mulheres, dão aquele grito a dizer: "Eles vêm aí". Quando nós falamos de "eles vêm aí", estamos a falar de quem?
O caso concreto que nós assistimos, estamos a falar de, depende muito, mas neste caso em concreto, um grupo de cerca de 10, 11 adolescentes, muito jovens. À distância que nós estávamos deles é praticamente impossível distinguir a idade, mas assumimos, por existir um padrão, que são muito jovens, alguns deles até menores.
Quando dizes menores, estamos a falar de que idade? Menores é o quê? 16?
14, 15 anos. Exato. Bastante novos. E um grupo bastante grande, maioritariamente, se não mesmo a totalidade, de rapazes, todos vestidos de preto e com a cara completamente tapada, que tentam intimidar estes que são os agricultores, que estão ali na apanha da azeitona.
Palestinianos.
Palestinianos. E tentam também intimidar os muitos ativistas de muitos países espalhados pelo mundo que se deslocam até à Cisjordânia para fazer como um escudo humano. Vamos tentar transportar os nossos ouvintes para este local o melhor possível. Imaginemos duas montanhas em que no topo de uma montanha existe um colonato, aquelas casas que eu há pouco descrevi, e no topo da montanha exatamente à frente, existem as aldeias árabes, as aldeias palestinianas, onde estão os palestinianos a apanhar a azeitona. E o que acontece é: os colonos descem o vale dessa montanha em direção aos campos agrícolas dos palestinianos e intimidam-nos para que eles abandonem as terras, parem de colher a azeitona, alegando que aquela terra é deles e, portanto, afastem-se daqui, porque esta terra é nossa. É isto que acontece diariamente, umas vezes mais violentas do que outras. Como o Pedro dizia no início, há relatos, por exemplo, da fotojornalista do Washington Post, que foi violentamente agredida por este grupo de jovens, muitos outros jornalistas de várias nacionalidades agredidos, muitos ativistas. Há pouco mais de duas semanas, dois ativistas portugueses foram detidos exatamente numa situação destas. Um deles tinha a carteira profissional de jornalista. Estes dois portugueses foram confrontados nesta situação, estavam a fazer como um escudo humano e obviamente que estes ativistas têm um poder muito grande nas suas redes sociais e é por isso que eles também cá estão, para mostrar ao mundo que isto está a acontecer. Mas estas batalhas, se assim se pode dizer, são muito rudimentares. Estamos a falar de atirar pedras de um lado para o outro, homens munidos de paus para tentar bater seja em quem for que lhes tente chegar perto. E em casos muito mais extremos, há colonos que utilizam o gás pimenta para afastar estes palestinianos. É por isso que nós, jornalistas, quando nos deslocamos a estes locais, estamos munidos de colete antibalístico, capacete antibalístico e também máscara de gás para na eventualidade de as coisas escalarem a este nível, estarmos protegidos.
É mesmo perigoso. Há aqui uma dúvida: estamos a falar de jovens radicalizados que agem em nome daquilo que acreditam ser o território de Israel e querem expulsar as pessoas que lá estão, que não são judias. Pedro, há uma dúvida que é: eles atuam em nome de alguma organização? É um movimento inorgânico? Têm o apoio do governo israelita, têm o apoio da população ou isto é uma ação que divide as pessoas em Israel?
Estamos a falar de cerca de 800 jovens radicalizados que vivem nestes colonatos ilegais, dos quais Cerca de 300 são suspeitos de envolvimento em atos violentos. Isto são dados oficiais do governo de Israel, que obviamente mandou estudar este fenômeno para ter uma noção das proporções que estão aqui envolvidas. São jovens judeus ultranacionalistas e radicais. Eles acreditam que toda a terra histórica de Israel foi dada por Deus exclusivamente ao povo judeu, portanto, não pode haver concessões aos palestinianos. Eles desconfiam e rejeitam as instituições estatais de Israel, exceto, curiosamente, para receber ajudas materiais. E aqui há um detalhe que eu acho interessante, que é: há dois ministros, pelo menos, deste governo, o ministro da Segurança, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, que são defensores ativos e firmes dos jovens das colinas e destes colonatos ilegais e arranjam forma de lhes atribuir, financiado pelo governo de Israel, viaturas todo-o-terreno, drones, óculos de visão noturna. O pretexto é para eles se protegerem e, no fundo, para manifestarem o apoio à expansão e ao alargamento do território de Israel. Mas, na verdade, estes mesmos meios, este veículo todo-o-terreno e estes meios de vigilância, são utilizados por eles precisamente para estes ataques. São utilizados para ver quando é que há palestinianos que estão isolados na apanha da azeitona, por exemplo, ou para se deslocarem precisamente mais facilmente até junto das terras e das casas dos palestinianos, para as incendiar ou simplesmente para assustar e para intimidar. Portanto, esta ligação com o Estado, obviamente, há muita gente em Israel, muitos políticos com notoriedade, que condenam estas ações, não só por não aprovarem os métodos, como também por acharem que isto prejudica a imagem externa de Israel, mas há muita gente que apoia e desta forma tão visível e que vai ter reflexos seguramente nas eleições da próxima semana.
É isso que vocês estão aí a acompanhar com esta reportagem e com outras que irão fazer ao longo dos próximos dias. Pedro, João, obrigado.
Obrigado, um abraço.
Eu conversei hoje com o diretor adjunto do Observador, o Pedro Jorge Castro, e com o editor de fotografia João Porfírio, que testemunharam em Ramallah e nos arredores a ação deste grupo de jovens radicais que aterrorizam palestinianos. Um grupo que age em nome de Israel, mas cujos métodos e valores estão longe de ser consensuais no Estado hebraico. Esta foi a História do Dia, a sonoplastia do Tomás Ferreira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides e a História do Dia regressa amanhã.