Primeira Liga NOS

O golpe de Rocky Cardoso na noite em que apareceu um novo Drago (a crónica do Santa Clara-Benfica)

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As escorregadelas de Fábio Cardoso facilitaram a ida do Santa Clara ao tapete frente a um Benfica quase sempre superior que ganhou o jogo (2-0) e um peso pesado que parecia ser só um peso (Gabriel).

Zivkovic e Patrick disputam lance pelo ar num jogo onde o Benfica esteve quase sempre acima do Santa Clara

EDUARDO COSTA/LUSA

Quem está habituado a seguir o Santa Clara ou a viajar até aos Açores por certo se recordará da festa que se fazia entre famílias quando com um determinado montante em compras vinham também alguns bilhetes para ir ao Estádio São Miguel ver o maior clube da terra jogar na Primeira Liga. Agora, 16 anos depois, não foi preciso qualquer tipo de promoção, desconto ou compra para haver casa cheia. E algumas pessoas chegaram mesmo ao ponto de ir para a fila de espera à meia noite sabendo que a bilheteira que tinha os últimos 500 ingressos só abriria na outra manhã seguinte. Antes, quando o Benfica aterrou esta quinta-feira, já estavam também centenas de pessoas à chuva para receber a equipa junto ao hotel. A festa está de volta. Por várias razões.

Está de volta porque o Santa Clara, depois de anos a fio na Segunda Liga após a primeira experiência no principal escalão (que até começou também com uma receção a um grande, nesse caso o Sporting que estreava nessa partida um tal de Peter Schmeichel), conseguiu regressar à 1.ª Divisão numa altura em que o contexto para que tal acontecesse não era o mais fácil. Está de volta porque não é todos os dias que os principais clubes nacionais pisam o mesmo palco do clube da terra, a fazer um Campeonato regular e com qualidade. Mas está também de volta porque existe uma vontade percetível dos responsáveis açorianos em inovar, em marcar a diferença através da criatividade, em ter uma ligação próxima com a comunidade local. Assim se explica a conferência de antevisão de João Henriques entre frutas e legumes, no Mercado Municipal de Ponta Delgada.

O técnico teve uma intervenção curiosa quando comparou a receção do Santa Clara ao Benfica com o filme Rocky IV. Estranho? Talvez. Mas percetível. E com sentido. Aquilo que Henriques queria focar era a história de como Rocky Balboa, a personagem consagrada por Sylvester Stallone, era um lutador sem condições de treino e conseguiu bater-se nesse capítulo da saga contra Ivan Drago, que tinha à sua disposição o melhor que o atleta poderia contar em termos de preparação. “Fazemos das dificuldades as nossas forças, com muita união, para que o povo açoriano se sinta orgulhoso do nosso trabalho”, explicou. Mas antes dessa diferença de condições se começar a notar de forma decisiva, o problema foi a noite desastrada do principal Rocky.

Fábio Cardoso tem sido um dos principais elementos açorianos na presente temporada, surgindo ligado ao interesse do FC Porto e do Benfica tal como aconteceu com Fernando Andrade. E percebe-se porque o central formado nos encarnados que passou pelo V. Setúbal e pelo P. Ferreira deu um salto qualitativo grande no ano que passou na Escócia, ao serviço do Rangers. Hoje, teve uma noite para esquecer, quase tanto como a noite para recordar de Gabriel, um dos principais destaques do Benfica em versão Drago a par de Pizzi e Seferovic (nas movimentações que conseguiu, não na eficácia). As águias foram quase sempre superiores, evoluíram no plano das transições defensivas e confirmaram a fluidez de jogo ofensivo, acabando por ganhar com maior facilidades do que era inicialmente expectável antes de uma série complicada com dois jogos em Guimarães e a meia-final da Taça da Liga frente ao FC Porto. No final, o 2-0 até acabou por ser curto na festa dos muitos benfiquistas açorianos presentes.

Ficha de jogo

Santa Clara-Benfica, 0-2

17.ª jornada da Primeira Liga

Estádio de São Miguel, nos Açores

Árbitro: João Capela (AF Lisboa)

Santa Clara: Serginho; Patrick, César, Fábio Cardoso, Mamadu; Ukra (Pineda, 60′), Anderson Carvalho, Bruno Lamas, Pacheco (Accioly, 45+2′); Zé Manuel e Stephens (Guilherme Schettine, 54′)

Suplentes não utilizados: João Lopes, Clemente, Lucas e Kaio

Treinador: João Henriques

Benfica: Vlachodimos; André Almeida, Rúben Dias, Jardel, Grimaldo; Fejsa, Gabriel, Zivkovic (Salvio, 71′), Pizzi (Gedson Fernandes, 90′); João Félix (Castillo, 85′) e Seferovic

Suplentes não utilizados: Svilar, Samaris, Krovinovic e Cervi

Treinador: Bruno Lage

Golos: Seferovic (22′) e Jardel (48′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Patrick (8′), Anderson Carvalho (20′), Rúben Dias (25′), Fejsa (35′), Jardel (61′) e Mamadu (79′); cartão vermelho direto a Fábio Cardoso (41′)

Bruno Lage estudou a forma de jogar do Santa Clara, leu os números dos açorianos – os que diziam, por exemplo, que a equipa insular só não marcou em dois jogos no Campeonato, com o Marítimo fora e em Guimarães – e fez algumas alterações na equipa que tinha ganho ao Rio Ave também pela estrutura do adversário em campo. De forma surpreendente depois dos últimos jogos realizados, Gabriel voltou ao onze dois meses depois deixando Salvio no banco, Zivkovic também rendeu Cervi e o Benfica ganhou a capacidade de poder ir alternando em termos táticos entre quatro elementos mais por dentro para a subida dos laterais e a colocação de Pizzi mais por fora como falso ala para poder iniciar a partir daí as combinações ofensivas. Mais do que isso, era uma estrutura que permitia encaixar melhor em Anderson Carvalho e Bruno Lamas, os “cérebros” contrários.

Seferovic, logo aos três minutos, nem quis acreditar nas facilidades que lhe foram concedidas e atirou muito por cima, naquela que foi a primeira ameaça que teria apenas continuidade aos 16′, quando João Félix concluiu da pior forma uma grande jogada na esquerda entre Grimaldo e Zivkovic. Pelo meio, o Santa Clara foi tendo uma circulação de bola mais segura, tentando colocar a bola entre linhas nas duas unidades mais avançadas, ao passo que o Benfica arriscava nas variações rápidas de flanco no intuito de surpreender a organização defensiva dos açorianos, que só não tinham sofrido num jogo em casa. Todavia, seria num erro contrário que os encarnados – a jogar com o equipamento alternativo – conseguiriam inaugurar o marcador, com André Almeida a fazer um passe longo que se transformou na quinta assistência no Campeonato depois de Fábio Cardoso ter escorregado e deixado Seferovic na cara de Serginho para o remate colocado sem hipóteses (22′).

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Santa Clara-Benfica em vídeo]

Em desvantagem, o Santa Clara tentou subir um pouco as linhas, teve um cruzamento com perigo de Ukra (23′) e um remate de pé direito de Bruno Lamas para defesa apertada de Vlachodimos (35′) mas pouco mais. O Benfica podia não ter o discernimento suficiente para aproveitar esse maior balanceamento para criar oportunidades (Seferovic podia ter aumentado o marcador mas o lance voltou a não sair da melhor forma ao suíço) mas manteve-se sempre muito coeso em termos defensivos e a aproveitar os erros dos açorianos lá atrás, como voltou a acontecer com Fábio Cardoso num lance com Pizzi em que calculou muito mal o tempo de entrada à bola. Numa primeira instância, João Capela deu amarelo ao central e marcou penálti; depois das indicações do VAR e de ter revisto também o lance, decidiu-se pelo livre quase em cima da linha e pelo vermelho direto ao número 3 dos açorianos. Se o cenário inicial era mau para o Santa Clara, o segundo tornou-se pior.

Ainda antes do intervalo, Accioly rendeu Pacheco. Com menos uma unidade, João Henriques quis manter o equilíbrio defensivo abdicando de um elemento mais de transporte de bola mas a ideia caiu por terra pouco depois do reatamento do encontro: canto na direita do ataque do Benfica batido por Pizzi e sétima assistência do internacional português para o cabeceamento certeiro de Jardel no coração da área, em mais um lance em que os açorianos falharam a nível das marcações (48′). Se os encarnados já estavam com o jogo controlado, a partir daí acabaram por completo com qualquer ideia de recuperação do adversário. E o estranho foi mesmo ficar no 2-0, tantas foram as oportunidades criadas pelas águias e que começaram com um dos melhores lances coletivos do encontro, concluído por Seferovic em posição irregular após passe de João Félix.

Em vantagem no marcador e no número de unidades em campo, houve mais Benfica. Muito Benfica. A vitória estava apenas à distância do último apito de João Capela, o que deu aos encarnados a possibilidade de poderem fazer aquilo que tantas vezes não conseguiram: jogar como sabem. Seferovic, o principal perdulário da noite, chegou a ter o dobro dos remates do Santa Clara a meio da segunda parte, tantas eram as oportunidades criadas pela velocidade no último terço e pela capacidade de colocar mais unidades na frente. Os centrais visitados já nem sabiam bem o que fazer, os médios perderam por completo qualquer capacidade de lançar saídas rápidas. O jogo ganhou um sentido único e com qualidade, bola no pé e futebol rendilhado, tão rendilhado que perdeu o pragmatismo necessário para se tornar objetivo na hora do último toque.

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