A história de “A Favorita”, de Yorgos Lanthimos, candidato a 10 Óscares (tantos quantos “Roma”, de Alfonso Cuarón), assenta na amplificação de um boato com 400 anos. Que no início do século XVIII, a rainha Ana de Inglaterra, última monarca da casa Stuart, e Sarah Churchill, duquesa de Malborough, sua amiga de infância, maior confidente e favorita na corte, com poderes que incluíam a gestão das finanças reais, tiveram uma relação lésbica. Tal nunca foi provado. Ana e Sarah tinham maridos que amavam e estimavam (o Príncipe George da Dinamarca e John Churchill, duque de Malborough, antepassado de Sir Winston Churchill, respectivamente), e segundo os historiadores, era comum, nesse tempo, que existisse entre duas mulheres uma relação de amizade muito intensa, de grande devoção mútua, embora sem implicações sexuais.

[Veja o “trailer” de “A Favorita”]

A verdade é que o boato circulava socialmente e tinha eco nas gazetas da época, e foi mesmo referido em termos sarcasticamente obscenos por Jonathan Swift, o autor de As Viagens de Gulliver, num dos seus jornais panfletários. O próprio Churchill discute o episódio num dos volumes da sua biografia. Mas há um terceiro elemento nesta história: Abigail Masham, baronesa de Masham, a mulher que queria ser favorita no lugar da favorita. Quando “A Favorita” abre, Sarah Churchill (Rachel Weisz) é a favorita incontestada da rainha, com grande ascendente sobre ela, e o filme mostra-a praticamente a mandar na corte, no governo e até na política internacional, dada a sua proximidade e intimidade de longa data com Ana (Olivia Colman), doente com gota, obesa, bulímica, influenciável e de humores instáveis.

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[Veja uma entrevista com Olivia Colman]

Surge então no palácio a jovem Abigail (Emma Stone), prima mais nova, afastada e arruinada de Sarah, que pede ajuda à parente. E esta põe-a a trabalhar na cozinha e a dormir ao monte com a criadagem mais baixa. Mas Abigail quer, custe o que custar, recuperar a posição de que outrora gozou na sociedade, voltar a ter conforto, segurança, riqueza. E aponta à posição de Sarah. Por isso vai, lenta, metódica e insidiosamente, insinuar-se junto da rainha, conseguir tornar-se sua dama de companhia e inquietar cada vez mais a todo-poderosa prima. Ao ponto de, uma tarde em que estão ambas a fazer tiro aos pombos, Sara desfechar uma pistola (sem munição) no peito de Abigail, para lhe mostrar o que lhe pode acontecer se ela pisar o risco. (Abigal responder-lhe-à à letra e com adenda de sangue – embora alheio).

[Veja uma entrevista com Rachel Weisz]

“A Favorita” é o suculento espectáculo, entre o verídico e o ficcionado, e com anacronismos avulsos, do combate cada vez mais implacável, feroz e amoral entre duas mulheres incomensuravelmente ambiciosas, pelo exclusivo da intimidade, da confiança e dos privilégios da sua rainha, e do poder que vem com eles. Porque como mostra Lanthimos, quando se trata de mandar, as mulheres podem ser tão ou mais desalmadas que os homens. E neste combate, todas as armas valem e todos os aliados são bons: favores sexuais e moscambilhas políticas, vitríolo verbal e chá envenenado, criados subornados e casamentos combinados, ameaças veladas e calúnias às claras. E que ganhe a que for capaz de ir até às últimas consequências primeiro que a outra. Porque quer Sarah, quer Abigail são capazes disso.

[Veja uma entrevista com Emma Stone]

Escrito por Deborah Davies e Tony McNamara (desta vez, o realizador de “A Lagosta” não põe o nome no argumento, e abdicou do absurdo de fachada realista que é a sua assinatura, embora abuse da lente olho de peixe ao longo da fita), e filmado em sumptuosos palácios e casas senhoriais inglesas ao som de Bach e Handel, “A Favorita” comunga da tradição do filme histórico “de prestígio” com selo BBC, pelo cuidado e fausto da reconstituição e encenação da época. Mas também do espírito, da atmosfera e do realismo explícito na descrição da sociedade e dos costumes (das codificadas cerimónias da corte à mais desregrada libertinagem pública e privada), de fitas como “Tom Jones”, de Tony Richardson, e “Barry Lyndon”, de Stanley Kubrick, e ainda do humor tóxico e surreal de séries como “Black Adder”. Há alturas em que só falta Rowan Atkinson irromper por ali adentro.

[Veja uma entrevista com Yorgos Lanthimos]

Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone, todas nomeadas aos Óscares (Melhor Atriz para Colman, Atriz Secundária para Weisz e Stone), chamam um figo aos seus respetivos papéis. “A Favorita” é monopólio delas. Rachel Weisz personifica Sarah do alto da sua condição, dos seus privilégios e da sua arrogância, omnipotente, confiante e imperiosa, incapaz de se deixar quebrar mesmo nos momentos mais negros; Emma Stone é uma Abigail cujo ar de fresca e ingénua e modos dissimulados escondem uma serpente calculista, manhosa e venenosa, que sabe quando recuar e quando saltar para morder, e tão obcecada em usurpar o lugar à rival, que nem na noite de núpcias deixa de conspirar, a expensas do excitado mas humilhado marido. (Neste filme, os homens são figurantes, coadjuvantes, piões das nicas ou cúmplices interesseiros da manipulação e das conspirações das mulheres).

[Veja uma cena de “A Favorita”]

Apesar da sua personagem ser mais passiva que dinâmica, pelas características físicas e anímicas que a revestem, Olivia Colman é soberba a dar corpo a uma rainha Ana tirânica e vulnerável, birrenta e trágica, capaz da maior generosidade como da pior mesquinhez, atormentada na carne pela gota e na alma pelo infortúnio familiar, rodeada pelos seus 17 coelhos, um por cada filho que perdeu (morreu sem descendência) e por cortesãos e lacaios a quem berra e ordena ou se lamenta, mostrando de forma admirável como o desamparo extremo e o poder supremo podem conviver numa mesma figura. “A Favorita” é um majestoso festim de representação, dado por um real trio de atrizes.