Rádio Observador

Sporting

As 254 páginas de uma auditoria que (afinal) pode trazer mais problemas ao Sporting

301

O Sporting queria que os sócios fossem os primeiros a conhecer a auditoria à gestão de Bruno de Carvalho. Agora pode enfrentar problemas fiscais e uma investigação da PJ ao ex-presidente.

A auditoria estaria pronta desde o dia 15 de março

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A 22 de fevereiro, Frederico Varandas recebeu a comunicação social no auditório Artur Agostinho, em Alvalade. Na altura, o presidente do Sporting indicou que tinha como objetivo explicar “a verdade sobre o Estado da Nação” leonina e fazer um balanço do mandato que levava então cinco meses e meio. A longa conferência de imprensa foi uma espécie de radiografia à situação financeira e desportiva tanto do clube como da SAD e Varandas adiantou os primeiros detalhes da auditoria forense realizada à presidência de Bruno de Carvalho.

Foi, muito provavelmente, a primeira vez que os sportinguistas ouviram falar de quatro ligações detetadas ao longo da gestão de Bruno de Carvalho, entre março de 2013 e junho de 2018: à sociedade de advogados MGRA, à empresa chinesa Xao Lda, ao clube cabo-verdiano Batuque FC e à relação entre o Conselho Diretivo e as claques. Na altura, Frederico Varandas explicava que a auditoria forense ainda não estava concluída e que, quando tal acontecesse, o documento final passaria “para o Conselho Fiscal e Disciplinar” que entenderia “o que fazer com toda essa informação”. “Há uma coisa que respeitamos no Sporting: a separação de poderes”, garantia o presidente leonino.

Passaram quase dois meses. Entretanto, Bruno de Carvalho e Alexandre Godinho, antigos presidente e vogal do Conselho Diretivo do Sporting, foram expulsos de sócios (ainda que, devido ao recurso de ambos, a decisão só se torne definitiva após ser votada em Assembleia-Geral). Esta semana, a auditoria forense aos atos de gestão da Direção anterior do clube de Alvalade foi revelada pela comunicação social e as conclusões da Bakertilly, a empresa responsável pela análise às contas do Sporting entre junho de 2013 e junho de 2018, foram tornadas públicas.

A fuga de informação que tornou públicas as 254 páginas do documento final da auditoria levou, desde logo, a ondas de choque. De acordo com a edição desta quinta-feira do jornal O Jogo, Rogério Alves, atual presidente da Mesa da Assembleia-Geral do Sporting, terá ficado irritado com a publicação da auditoria e esse mesmo incómodo ficou bem visível no comunicado emitido pelo clube esta quarta-feira, onde se pode ler que os leões viram “exposto um conjunto de temas da vida do clube que de maneira alguma deviam ter sido exibidos da forma como foram”. A intenção dos órgãos sociais era divulgar os resultados da análise em Assembleia-Geral de sócios — que seria marcada, muito provavelmente, para depois do final da temporada desportiva — e resguardar as conclusões da Bakertilly ao clube. Mas a auditoria, que estaria pronta desde dia 15 de março, está agora na Internet à disposição de qualquer pessoa.

Os possíveis problemas com o fisco

Posteriormente, o documento que passa a pente fino a gestão de Bruno de Carvalho em Alvalade conclui que o Sporting pode vir a ter problemas com o Fisco no futuro. A Bakertilly explica que a SAD leonina “celebrou contratos no âmbito dos quais pagou a uma terceira entidade, ‘Direitos de Imagem’, relacionados com os jogadores Schellotto, Bryan Ruiz, Jonathan Silva, Everton, Edinaldo, Montero e Heldon” e acrescenta que, “de acordo com informações obtidas” da administração, esses montantes “são efetivamente componentes da remuneração daqueles jogadores”. “Tanto quanto é do nosso conhecimento, no período em apreço, a Sporting SAD não usufruiu de quaisquer proveitos decorrentes da exploração daqueles direitos. Entendemos que existe o risco de a administração fiscal considerar que aqueles montantes em substância são parte da remuneração daqueles jogadores”, conclui a auditoria.

Quer isto dizer, portanto, que a Sporting SAD pode ser acusada de fraude ao fisco. A SAD leonina pagou impostos pelos alegados direitos de imagem dos jogadores em questão mas, de acordo com a Bakertilly, não usufruiu da exploração desses mesmos direitos. Desta forma, a administração fiscal pode considerar que o montante pago pela Sporting SAD e taxado enquanto direitos de imagem dizia respeito, na verdade, à remuneração dos jogadores mencionados, mas não foi tributado enquanto tal. “Nestas circunstâncias entendemos poderem originar uma contingência fiscal em sede de IRS e Segurança Social, ainda que esta seja uma prática generalizada na indústria. Não obtivemos evidência nas demonstrações financeiras de que tenham sido registados proveitos decorrentes da exploração destes direitos”, sentencia a auditoria.

A colaboração com o ex-árbitro Pedro Henriques

Outro dos pontos explorados pela Bakertilly que não está a gerar consenso a nível interno é o capítulo que aborda os serviços prestados pelo ex-árbitro Pedro Henriques. De recordar que, no final de janeiro, o presidente do Sp. Braga acusou Pedro Henriques de ser “avençado do Sporting”: o caso, que terá “surpreendido”, a atual Direção leonina, terminou com um telefonema de Frederico Varandas a António Salvador para esclarecer a situação, a suspensão da dita avença e ainda a saída do ex-árbitro da Sport TV, canal onde realizava comentários às arbitragens dos jogos da Primeira Liga.

A auditoria agora conhecida indica que Pedro Henriques “terá prestado serviços de Formação e Assessoria na área de Arbitragem e outras relacionadas, no total de 50.000 euros”. E sublinha em seguida: “Durante o nosso trabalho, não obtivemos informação relevante que evidencia que esta entidade tenha prestado aqueles serviços”. Ora, as estruturas internas do Sporting estão surpreendidas com esta conclusão da Bakertilly, já que o ex-árbitro deu formações a várias equipas de vários escalões sobre regras de arbitragem, comportamentos de risco e fair play. Formações essas que são descritas no relatório final da auditoria, ainda que a Bakertilly alegue que não encontrou provas da real prestação dos serviços.

Rogério Alves terá ficado incomodado com a divulgação pública da auditoria às contas do Sporting

“Até à data deste relatório, não obtivemos informação suficiente que evidencie que aquelas ações de formação e serviços tenham sido efetivamente ministradas/prestados nos exercícios em apreço, nomeadamente, materiais de formação, relatórios, apresentações, correspondência (emails), atas de reuniões e outra informação relevante”, afirma a auditora, que sentencia por isso que “não é possível concluir sobre a natureza, elegibilidade e indispensabilidade deste gasto”.

A auditoria forense à gestão de Bruno de Carvalho no Sporting já teve, entretanto, consequências. O clube emitiu esta quarta-feira um comunicado onde confirmou a informação avançada pelo Correio da Manhã, que indicava que o produto final da auditoria tinha sido entregue à Polícia Judiciária. “O Conselho Diretivo do Sporting tomou a iniciativa de o entregar às entidades de investigação nacionais, ao Conselho Fiscal e Disciplinar do Clube e de pedir ao Departamento de Sócios que o disponibilize para consulta a todos os sócios com quotas em dia, no centro de atendimento a partir desta sexta-feira”, podia ler-se na nota divulgada nas plataformas oficiais do clube. Em causa estão três pontos específicos que podem deixar Bruno de Carvalho sob investigação da PJ e que recordam em toda a linha a “verdade sobre o Estado da Nação” de Frederico Varandas: o valor pago em serviços jurídicos à sociedade de advogados MGRA, os 330 mil euros pagos ao Batuque FC e ainda o pagamento de 60 mil euros que os leões realizaram à empresa chinesa Xao Lda.

Além da reação da Direção leonina, também Octávio Machado, Augusto Inácio e Costa Aguiar responderam à menção dos respetivos nomes na auditoria. O primeiro sublinhou que se a Bakertilly tinha dúvidas sobre o seu contrato “tinha a obrigação” de o contactar e que, na existência de alguma irregularidade, “o erro é do Sporting”; o segundo garantiu que nunca se envolveu “em negócios com jogadores ou protocolos” e acha “coincidência” a divulgação do documento ter surgido na semana que antecede o Desp. Aves-Sporting, já que Inácio é o atual treinador da equipa da Vila das Aves; e o terceiro, que terá recebido uma comissão tanto na altura da transferência de Bruno César do Estoril para os leões como na chegada de Jorge Jesus e respetiva equipa técnica, explicou que tudo o que recebeu “do negócio de Bruno César foi apenas a comissão”, a que tinha direito “e mais 750 mil euros do prémio de assinatura do jogador”.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: mfernandes@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)