A 22 de fevereiro, Frederico Varandas recebeu a comunicação social no auditório Artur Agostinho, em Alvalade. Na altura, o presidente do Sporting indicou que tinha como objetivo explicar “a verdade sobre o Estado da Nação” leonina e fazer um balanço do mandato que levava então cinco meses e meio. A longa conferência de imprensa foi uma espécie de radiografia à situação financeira e desportiva tanto do clube como da SAD e Varandas adiantou os primeiros detalhes da auditoria forense realizada à presidência de Bruno de Carvalho.

Varandas acerta contas com o passado: negócios duvidosos, gestão irresponsável e um “mentiroso compulsivo”

Foi, muito provavelmente, a primeira vez que os sportinguistas ouviram falar de quatro ligações detetadas ao longo da gestão de Bruno de Carvalho, entre março de 2013 e junho de 2018: à sociedade de advogados MGRA, à empresa chinesa Xao Lda, ao clube cabo-verdiano Batuque FC e à relação entre o Conselho Diretivo e as claques. Na altura, Frederico Varandas explicava que a auditoria forense ainda não estava concluída e que, quando tal acontecesse, o documento final passaria “para o Conselho Fiscal e Disciplinar” que entenderia “o que fazer com toda essa informação”. “Há uma coisa que respeitamos no Sporting: a separação de poderes”, garantia o presidente leonino.

Passaram quase dois meses. Entretanto, Bruno de Carvalho e Alexandre Godinho, antigos presidente e vogal do Conselho Diretivo do Sporting, foram expulsos de sócios (ainda que, devido ao recurso de ambos, a decisão só se torne definitiva após ser votada em Assembleia-Geral). Esta semana, a auditoria forense aos atos de gestão da Direção anterior do clube de Alvalade foi revelada pela comunicação social e as conclusões da Bakertilly, a empresa responsável pela análise às contas do Sporting entre junho de 2013 e junho de 2018, foram tornadas públicas.

Oficial: Bruno de Carvalho expulso de sócio do Sporting (com hipótese de recurso para AG)

A fuga de informação que tornou públicas as 254 páginas do documento final da auditoria levou, desde logo, a ondas de choque. De acordo com a edição desta quinta-feira do jornal O Jogo, Rogério Alves, atual presidente da Mesa da Assembleia-Geral do Sporting, terá ficado irritado com a publicação da auditoria e esse mesmo incómodo ficou bem visível no comunicado emitido pelo clube esta quarta-feira, onde se pode ler que os leões viram “exposto um conjunto de temas da vida do clube que de maneira alguma deviam ter sido exibidos da forma como foram”. A intenção dos órgãos sociais era divulgar os resultados da análise em Assembleia-Geral de sócios — que seria marcada, muito provavelmente, para depois do final da temporada desportiva — e resguardar as conclusões da Bakertilly ao clube. Mas a auditoria, que estaria pronta desde dia 15 de março, está agora na Internet à disposição de qualquer pessoa.

Os possíveis problemas com o fisco

Posteriormente, o documento que passa a pente fino a gestão de Bruno de Carvalho em Alvalade conclui que o Sporting pode vir a ter problemas com o Fisco no futuro. A Bakertilly explica que a SAD leonina “celebrou contratos no âmbito dos quais pagou a uma terceira entidade, ‘Direitos de Imagem’, relacionados com os jogadores Schellotto, Bryan Ruiz, Jonathan Silva, Everton, Edinaldo, Montero e Heldon” e acrescenta que, “de acordo com informações obtidas” da administração, esses montantes “são efetivamente componentes da remuneração daqueles jogadores”. “Tanto quanto é do nosso conhecimento, no período em apreço, a Sporting SAD não usufruiu de quaisquer proveitos decorrentes da exploração daqueles direitos. Entendemos que existe o risco de a administração fiscal considerar que aqueles montantes em substância são parte da remuneração daqueles jogadores”, conclui a auditoria.

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Quer isto dizer, portanto, que a Sporting SAD pode ser acusada de fraude ao fisco. A SAD leonina pagou impostos pelos alegados direitos de imagem dos jogadores em questão mas, de acordo com a Bakertilly, não usufruiu da exploração desses mesmos direitos. Desta forma, a administração fiscal pode considerar que o montante pago pela Sporting SAD e taxado enquanto direitos de imagem dizia respeito, na verdade, à remuneração dos jogadores mencionados, mas não foi tributado enquanto tal. “Nestas circunstâncias entendemos poderem originar uma contingência fiscal em sede de IRS e Segurança Social, ainda que esta seja uma prática generalizada na indústria. Não obtivemos evidência nas demonstrações financeiras de que tenham sido registados proveitos decorrentes da exploração destes direitos”, sentencia a auditoria.

A colaboração com o ex-árbitro Pedro Henriques

Outro dos pontos explorados pela Bakertilly que não está a gerar consenso a nível interno é o capítulo que aborda os serviços prestados pelo ex-árbitro Pedro Henriques. De recordar que, no final de janeiro, o presidente do Sp. Braga acusou Pedro Henriques de ser “avençado do Sporting”: o caso, que terá “surpreendido”, a atual Direção leonina, terminou com um telefonema de Frederico Varandas a António Salvador para esclarecer a situação, a suspensão da dita avença e ainda a saída do ex-árbitro da Sport TV, canal onde realizava comentários às arbitragens dos jogos da Primeira Liga.

A auditoria agora conhecida indica que Pedro Henriques “terá prestado serviços de Formação e Assessoria na área de Arbitragem e outras relacionadas, no total de 50.000 euros”. E sublinha em seguida: “Durante o nosso trabalho, não obtivemos informação relevante que evidencia que esta entidade tenha prestado aqueles serviços”. Ora, as estruturas internas do Sporting estão surpreendidas com esta conclusão da Bakertilly, já que o ex-árbitro deu formações a várias equipas de vários escalões sobre regras de arbitragem, comportamentos de risco e fair play. Formações essas que são descritas no relatório final da auditoria, ainda que a Bakertilly alegue que não encontrou provas da real prestação dos serviços.

Rogério Alves terá ficado incomodado com a divulgação pública da auditoria às contas do Sporting

“Até à data deste relatório, não obtivemos informação suficiente que evidencie que aquelas ações de formação e serviços tenham sido efetivamente ministradas/prestados nos exercícios em apreço, nomeadamente, materiais de formação, relatórios, apresentações, correspondência (emails), atas de reuniões e outra informação relevante”, afirma a auditora, que sentencia por isso que “não é possível concluir sobre a natureza, elegibilidade e indispensabilidade deste gasto”.

A auditoria forense à gestão de Bruno de Carvalho no Sporting já teve, entretanto, consequências. O clube emitiu esta quarta-feira um comunicado onde confirmou a informação avançada pelo Correio da Manhã, que indicava que o produto final da auditoria tinha sido entregue à Polícia Judiciária. “O Conselho Diretivo do Sporting tomou a iniciativa de o entregar às entidades de investigação nacionais, ao Conselho Fiscal e Disciplinar do Clube e de pedir ao Departamento de Sócios que o disponibilize para consulta a todos os sócios com quotas em dia, no centro de atendimento a partir desta sexta-feira”, podia ler-se na nota divulgada nas plataformas oficiais do clube. Em causa estão três pontos específicos que podem deixar Bruno de Carvalho sob investigação da PJ e que recordam em toda a linha a “verdade sobre o Estado da Nação” de Frederico Varandas: o valor pago em serviços jurídicos à sociedade de advogados MGRA, os 330 mil euros pagos ao Batuque FC e ainda o pagamento de 60 mil euros que os leões realizaram à empresa chinesa Xao Lda.

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Além da reação da Direção leonina, também Octávio Machado, Augusto Inácio e Costa Aguiar responderam à menção dos respetivos nomes na auditoria. O primeiro sublinhou que se a Bakertilly tinha dúvidas sobre o seu contrato “tinha a obrigação” de o contactar e que, na existência de alguma irregularidade, “o erro é do Sporting”; o segundo garantiu que nunca se envolveu “em negócios com jogadores ou protocolos” e acha “coincidência” a divulgação do documento ter surgido na semana que antecede o Desp. Aves-Sporting, já que Inácio é o atual treinador da equipa da Vila das Aves; e o terceiro, que terá recebido uma comissão tanto na altura da transferência de Bruno César do Estoril para os leões como na chegada de Jorge Jesus e respetiva equipa técnica, explicou que tudo o que recebeu “do negócio de Bruno César foi apenas a comissão”, a que tinha direito “e mais 750 mil euros do prémio de assinatura do jogador”.