Taça de Portugal

Dost, o senhor da justiça divina que se entregou ao destino – e ganhou (a crónica do Sporting-FC Porto)

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Bas Dost, face mais visível de uma marca eterna, entrou, marcou, falhou um penálti mas viu o Sporting superar todos os traumas para sarar um coração com sete vidas e ganhar a 17.ª Taça de Portugal.

Depois de meses a fio de convulsão interna, Sporting terminou o ano com a vitória em duas taças, algo que não acontecia desde 2008

AFP/Getty Images

Quando assumiu o comando da Seleção Nacional, Fernando Santos tornou-se realmente aquele de treinador de todos. Já tinha passado pelo FC Porto, onde ficou como Engenheiro do penta. Já tinha passado pelo Sporting, onde fez a época possível tendo em conta que poderia ter cumprido o sonho de qualquer treinador de orientar Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo nos primeiros passos como seniores na mesma equipa (e ficou sem os dois). Já tinha passado pelo Benfica, onde ainda hoje é recordado como a decisão da qual Vieira mais se arrepende no dia em que saiu logo a abrir a segunda temporada na Luz. E por Estoril, Estrela da Amadora, AEK, Panathinaikos, AEK ou Grécia, numa longa carreira. A partir de 2014, passou a ser o treinador de Portugal. Ponto. E a partir de julho de 2016, após a vitória no Europeu, passou de mestre a doutorado do futebol sempre que fala.

Vem isto a propósito da explicação do selecionador, que tem essa ligação aos dois intervenientes da final da Taça de Portugal, sobre o programa que Portugal vai cumprir até à antecâmara do arranque da Final Four da Liga das Nações, com sessões de treino “normais” como se estivessem nos clubes para fazerem as suas vidas normais com famílias e amigos e poderem limpar a cabeça depois de uma temporada que, convém não esquecer, em agosto já era a sério. “Como os jogadores têm grande desgaste físico e mental, é importante dar-lhes essa frescura mentalmente”, acrescentou. Mais um mandamento que, antes do encontro no Jamor, foi seguido pelas duas equipas para o último encontro da época: no final do derradeiro treino na Invicta, os jogadores do FC Porto receberam de surpresa no Olival as suas famílias e por ali ficaram entretidos até seguirem para o balneário e, mais tarde, para Lisboa; no momento de concentração em Alvalade para seguir para estágio, os jogadores do Sporting subiram ao relvado e tiveram funcionários e atletas de outras modalidades nas bancadas para uma última saudação.

Bas Dost é um exemplo paradigmático de como no futebol atual é tão ou mais importante ter a cabeça bem do que as pernas a funcionar a 100%. Há um ano, o holandês andava perdido no relvado do Jamor, com uma ligadura verde na cabeça pelas feridas que o obrigaram a levar pontos, a olhar para o vazio depois de uma derrota com o Desp. Aves que, mais do que a falência de um projeto desportivo, arriscava ser a falência emocional de um clube que sofre de problemas autofágicos há décadas. Rescindiu, voltou, teve um período parecido mas não igual com a sua melhor versão, lesionou-se, esteve arredado dois meses dos relvados e regressou para ser suplente de Luiz Phellype. Agora, na final da Taça, entrou e marcou quando tinha tocado apenas seis vezes na bola em cerca de 25 minutos, duas delas atrás do meio-campo. Felipe ainda empatou no final de um jogo de loucos, o avançado acertou na trave no primeiro penálti dos leões mas o destino acabou por premiar quem explicou o que é justiça divina.

Ficha de jogo

Sporting-FC Porto, 2-2 (5-4, g.p.)

Final da Taça de Portugal

Estádio Nacional, em Lisboa

Árbitro: Jorge Sousa (AF Porto)

Sporting: Renan Ribeiro; Bruno Gaspar (Tiago Ilori, 66′), Coates, Mathieu, Acuña; Gudelj (Doumbia, 90+3′), Wendel (Jefferson, 106′), Bruno Fernandes; Raphinha, Diaby (Bas Dost, 75′) e Luiz Phellype

Suplentes não utilizados: Salin, André Pinto e Jovane Cabral

Treinador: Marcel Keizer

FC Porto: Vaná; Éder Militão (Hernâni, 104′), Pepe, Felipe, Alex Telles (Fernando andrade, 106′); Danilo, Herrera; Otávio (Wilson Manafá, 78′) , Danilo, Brahimi, Marega (Adrian López, 101′) e Soares

Suplentes não utilizados: Fabiano, Maxi Pereira e Óliver Torres

Treinador: Sérgio Conceição

Golos: Soares (40′), Danilo (45′, p.b.), Bas Dost (101′) e Felipe (120+1′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Bruno Gaspar (25′), Gudelj (39′), Coates (90′), Soares (96′), Danilo (100′), Alex Telles (105′), Raphinha (107′), Wilson Manafá (120′) e Bruno Fernandes (120′)

Desempate: Soares, 0-1; Bas Dost, 0-1 (trave); Danilo Pereira, 0-2; Bruno Fernandes, 1-2; Pepe, 1-2 (trave); Mathieu, 2-2; Adrián López, 2-3; Raphinha, 3-3; Hernâni, 3-4; Coates, 4-4; Fernando Andrade, 4-4 (defesa Renan); Luiz Phellype, 5-4

Mathieu, com uma exibição fabulosa, foi o melhor em campo. O melhor em termos individuais porque, em 120 minutos, houve poucas dúvidas da maior capacidade do FC Porto, que ficou a dever a si mais uma derrota nas grandes penalidades diante dos leões. Os dragões podiam ter resolvido o encontro em 90 minutos, podiam ter sido os únicos a marcar em 120 minutos mas acabaram por se perder também no seu destino. Com isso, houve qualquer coisa de justiça divina para o Sporting. E apenas num ano o coração de um clube que tem sete vidas conseguiu superar as marcas que ficarão para sempre de 15 de maio de 2018. Com Dost, um senhor, a celebrar durante um minuto antes de ir ao lado contrário cumprimentar todos os adversários.

Quase de forma assumida, o encontro começou a dez à hora – também (mas não só, longe disso) por culpa de Wendel mas sem qualquer ligação ao que se passou durante a semana quando foi apanhado a conduzir sem carta e em contramão. Por um lado, havia um FC Porto que tentava perceber a forma como o Sporting posicionava a sua linha defensiva (e Keizer já mostrou que consegue ter diferentes experiências com os mesmos jogadores). Por outro, havia um Sporting que tentava perceber a forma como o FC Porto encaixava os dois alas no jogo interior para anular a desvantagem numérica no corredor central pela sua disposição tática. Roçou o aborrecido, quase que a compensar as centenas de pessoas que acediam ainda às bancadas do Estádio Nacional com o encontro já a decorrer. No entanto, bastou um primeiro impulso para desbloquear essa monotonia.

No seguimento de um corte defeituoso do sempre nervoso Bruno Gaspar após cruzamento de Marega, Otávio apareceu sozinho na carreira de tiro para obrigar Renan à primeira defesa apertada da noite (6′). Quase na resposta, e na primeira vez em que teve algum espaço para receber, dominar e virar para a baliza, Bruno Fernandes arriscou a meia distância para intervenção um pouco atrapalhada de Vaná (10′). E logo a seguir foi Raphinha a ficar muito perto do golo, aproveitando uma segunda bola após livre lateral marcado por Bruno Fernandes para rematar com perigo num lance onde o guardião dos dragões nem se mexeu (11′).

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sporting-FC Porto em vídeo]

Pelo meio, Sérgio Conceição, que andou sempre colado à linha limite para os técnicos (no caso do Jamor, bem afastado do banco de suplentes e com uma pista de tartan pelo meio), foi buscar a geleira das águas para colocar perto da zona onde estava e não perdia uma oportunidade para mandar uma boca ou fazer um reparo com gestos, fosse a jogadores, árbitros ou até adversários, como aconteceu num lance em que não gostou da forma como Bruno Fernandes sofreu uma falta de Otávio e ficou no chão quase que a pedir uma sanção disciplinar para o brasileiro. No entanto, o seu problema principal era outro: deficiências anormais de marcação à parte (a forma como Felipe foi ultrapassado por Diaby na esquerda antes de Pepe evitar o golo certo de Luiz Phellype deixou que pensar em relação ao momento em que o central termina a época), os dragões não conseguiam agarrar no jogo a meio campo. E foi nessa fase que Herrera, o capitão do costume, assumiu o comando da equipa nas quatro linhas.

Marega ainda chegou a marcar aos 23′, o golo acabou por ser bem anulado pelo VAR pelo claro adiantamento do maliano na altura em que recebe a bola na área, mas esse foi o momento em que se deu a viragem no primeiro tempo: maior domínio dos azuis e brancos, mais posse a conseguir muitas vezes encostar tanto as linhas do Sporting (que apenas pelos rasgos em velocidade de Diaby saíam alguma qualidade) e supremacia nos duelos individuais e nas segundas bolas, um dos grandes problemas nos minutos iniciais do encontro. Faltava, também por demérito na ligação de setores, a criação de reais oportunidades de golo, algo superado por aquilo que acaba por definir todas as partidas: no seguimento de um livre lateral batido por Alex Telles na esquerda e aliviado para o segundo poste, Herrera dominou entre protestos dos jogadores verde e brancos que ficaram a pedir mão e cruzou para Soares, o quebra-cabeças do costume dos leões, encostar para o golo inaugural (40′).

Os treinadores costumam relativizar essa questão do momento bom ou melhor para marcar mas, a cinco minutos do intervalo, aquele cabeceamento de Soares era ouro sobre azul num encontro decisivo e com a vida própria que foi ganhando. E parecia que tudo estava resolvido no que dizia respeito à primeira parte, tanto que a placa dos minutos adicionais já estava a ser preparada quando faltavam ainda cerca de 15 segundos para se atingir o 44.º minuto. Foi nesse momento que Bruno Fernandes voltou a provar como o Sporting a quem tudo aconteceu no último ano consegue encontrar vida onde ela parece não existir – em cima do minuto 45, no seguimento de mais uma jogada pela esquerda com Acuña a fazer o transporte, o cruzamento não saiu para a área mas sim atrasado onde apareceu o capitão a rematar para desvio infeliz de Danilo para a própria baliza.

Aquilo que poderia ser uma saída em grande para preparar uma entrada ainda melhor por parte mudou totalmente de figura e foi o Sporting que voltou aos balneários com as bancadas dos seus adeptos de pé em cânticos percebendo a importância do momento e daquele golo numa final. No entanto, o descanso acabou por fazer bem sobretudo ao FC Porto que, com mérito de Conceição à mistura, regressou para tomar conta da partida no segundo tempo com uma maior largura no seu jogo ofensivo, envolvimentos diferentes de Brahimi e Otávio com os avançados e, sobretudo, uma pressão na saída dos leões em construção que colocou o conjunto de Marcel Keizer longe da baliza de Vaná e com dificuldade em ligar mais do que três passes seguidos (aliás, o único bruuuááá perto da baliza dos dragões era quando o substituto de Casillas tinha a bola nos pés…).

Durante 25 minutos, os azuis e brancos foram acumulando ocasiões desperdiçadas, quase sempre com Soares como principal protagonista de um ataque que encontrava formas de furar a defesa contrária de todas as formas e feitios: aos 48′ o avançado acertou no poste com os jogadores leoninos a protestarem por a bola não ter sido colocada fora para assistência de Bruno Fernandes que estava no chão; aos 60′ numa recarga dentro da área que passou muito perto do poste da baliza de Renan; aos 65′ para defesa apertada do guarda-redes brasileiro. O jogo era FC Porto, FC Porto e FC Porto, com Keizer a mexer inicialmente mais para continuar com 11 do que numa perspetiva tática (juntar Bruno Gaspar com um amarelo a Brahimi a abrir o livro tinha uma história mais ou menos previsível) mas depois a querer ganhar a guerra dos bancos a Sérgio Conceição.

Visto de fora, havia uma opção quase matemática para segurar o meio-campo e estancar a projeção ofensiva dos portistas: tirar Wendel e lançar Doumbia em campo. O holandês fugiu ao óbvio e arriscou nas duas perspetivas, colocando a equipa mais perto do último terço com bola mas partindo o jogo para o seu lado ficando exposto às transições em velocidade por Brahimi e/ou Marega. O efeito da entrada de Bas Dost para o lugar de Diaby (que enquanto teve gás foi um dos melhores em campo), com a aposta numa defesa com três centrais com Raphinha e Acuña a fecharem nos corredores laterais, funcionou durante um curto lapso de cinco minutos, com a equipa a galvanizar-se e a ter a melhor oportunidade da segunda parte, num remate de Wendel que saiu a rasar o poste de Vaná (76′). Depois, com a entrada de Manafá para o lugar de Otávio, a ideia esfumou-se.

Sérgio Conceição, que fez apenas uma alteração no tempo regulamentar, voltou a dar largura ao jogo e com elementos que, quando quisesse, lhe permitiam encaixar na ideia tática de Keizer. De forma quase instantânea, os dragões voltaram a assumir o jogo, criaram perigo numa tentativa de saída de bola onde Renan colocou a bola nos pés de Herrera antes de defender o remate do mexicano (78′) mas seria já nos descontos que surgiriam as duas últimas chances flagrantes para evitar o prolongamento: Brahimi, aproveitando um corte disparatado de Ilori com a cabeça, tentou colocar entre o poste e Renan mas o guarda-redes ainda conseguiu defender para canto; na marcação da bola parada, Danilo voltou a surgir sozinho para uma segunda bola, colocou em jeito mas a bola bateu de forma caprichosa de novo no poste antes de sair pela linha de fundo.

O encontro ia para prolongamento e até mesmo do lado do FC Porto, que aparentava um menor desgaste dentro da falta de força que também já tinha (e de forma natural), se percebia que um golo poderia fazer toda a diferença. Foi visível por mais do que uma vez os protestos dos azuis e brancos perante as constantes quedas de jogadores leoninos mas, tomando Wendel como exemplo, não deixa de ser verdade que o médio brasileiro, quando Gudelj foi rendido por Doumbia, colocou a mão nos joelhos e dobrou-se quase como se sentisse naquele momento que não dava para mais mas também não poderia sair. Também ali, no momento em que se dava tudo o que não se tinha, o Sporting foi bafejado por uma sorte que procurava mais na teoria do que na prática: após um cruzamento de Acuña na esquerda que em condições normais seria uma bola morta para a defesa contrária, o corte de Felipe acabou por apanhar todos desprevenidos menos Dost, que apareceu ao segundo poste a fazer o 2-1 (101′).

O FC Porto arriscou tudo com a entrada de Fernando Andrade, assumiu um jogo até mais direto pelo queimar que se começava a sentir nos pés dos jogadores quando a bola circulava pelo chão, foi perdendo o controlo emocional para utilizar a mesma fórmula que tantas oportunidades permitiu criar (e um pouco mais do que isso, como se viu na agressão de Wilson Manafá a Bruno Fernandes que acabou sancionada com um cartão amarelo) mas tinha ainda uma gota de gasolina no depósito da esperança para levar todas as decisões para as grandes penalidades num lance de bola parada onde Felipe, que fez um jogo com demasiados erros para o nível habitual, surgiu ao segundo poste para encostar de cabeça para o 2-2 em cima do último minuto do jogo. Depois, Bas Dost acertou na trave e Pepe teve o mesmo excesso de pontaria até à sexta ronda de conversões onde Renan travou a tentativa de Fernando Andrade e Luiz Phellype, com grande classe, fechou as contas da 17.ª Taça de Portugal para o Sporting.

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