Diz quem lá estava que, quando Agustina Bessa-Luís foi ver “Francisca” (1981), a adaptação ao cinema, por Manoel de Oliveira, do seu romance “Fanny Owen”, a escritora mostrou-se muito incomodada e não parou de comentar negativamente o filme, por vezes alto e bom som. Este foi o primeiro capítulo de uma relação criativa com altos e baixos entre a romancista e o cineasta, que se prolongaria por mais de duas décadas e abrangeria nove filmes. Quando em 2005 Oliveira levou “Espelho Mágico”, adaptação de “A Alma dos Ricos”, ao Festival de Veneza, diria na conferência de imprensa: “Agustina gosta de não gostar dos meus filmes. Mas eu gosto que ela não goste.”

A amizade e a cumplicidade que os uniu nunca quis dizer que não existissem conflitos pontuais entre ambos, que são também, em boa parte, os eternos conflitos entre dois meios de expressão artística tão díspares como são o cinema e a literatura. E na colaboração entre o realizador de “Amor de Perdição” e a autora de “Sibila” detetam-se ainda muitas das forças, das fraquezas, dos dilemas e dos equívocos da longa e quase sempre desconfortável relação entre o cinema português e a literatura portuguesa.

A complexidade, a densidade e as idiossincrasias da escrita de Agustina fazem dela uma autora muito pouco cinematográfica, de adaptação problemática à tela. Mesmo para Manoel de Oliveira, um cineasta com interesses e preocupações literárias e em cuja obra a palavra tem um grande peso. “Vale Abraão” (1993), fica como um dos filmes mais felizes de Oliveira com base num livro de Agustina, que nunca se poupou a elogiá-lo. Já “O Convento”, que Oliveira escreveu sem que Agustina tivesse terminado o livro que seria a base do filme, originalmente intitulado “Pedra de Toque” e depois alterado para “As Terras do Risco”, deu origem a uma zanga entre ambos. Agustina escreveu mesmo a Oliveira exigindo-lhe que tirasse o seu nome do genérico.

Em 1996, com as pazes já feitas, Agustina escreveu os diálogos de “Party”, um dos filmes mais cerradamente verbosos e estáticos de Oliveira, e cuja unidade e consistência a autora elogiaria (mas Agustina não terá resistido, aqui, a satirizar Manoel de Oliveira e a sua visão das mulheres, e das relações destas com os homens, em especial na personagem de Michel, interpretada por Michel Piccoli). Seguiram-se “Inquietude” (1998), pertencendo a Agustina um dos três contos que formam o argumento da fita; o documentário autobiográfico “Porto da Minha Infância” (2001), onde a certa altura Oliveira filma Agustina a ler um texto seu;  “O Princípio da Incerteza” (2002), tirado pelo realizador de “A Jóia de Família”, e “Espelho Mágico” (2005).

Agustina Bessa-Luís é também a autora dos diálogos do belíssimo documentário “Visita ou Memórias e Confissões”, uma memória muito pessoal do realizador. É quase um filme-testamento, rodado em 1982 e ancorado na casa onde ele viveu durante 40 anos e que então ia ser vendida, mas que Manoel de Oliveira quis que só fosse exibido após a sua morte, ocorrida em 2015, e que infelizmente não teve estreia comercial em Portugal. Resta lembrar que, dos filmes que Manoel de Oliveira não tinha baseado em livros seus, ou em que ela não tivesse colaborado, o favorito de AgustinaBessa-Luís era o clássico “Aniki-Bobó (1942), de que gabava a frescura e o pioneirismo cinematográfico.

Como ela disse certa vez, num depoimento que lhe foi solicitado sobre Manoel de Oliveira, e publicado em 2006 na revista “Estudos Italianos em Portugal”: “A função própria do cinema é apaixonar. Outras artes são mais medidas pela meditação. Mas tudo que é visual encontra logo o coração das pessoas e as faz comover e sonhar.”