Dançar de forma sincronizada e cantar com afinação ao mesmo tempo, durante uma hora, não é tarefa nem fácil nem menosprezável. Se tem dúvidas, experimente em casa por sua conta e risco — não seremos responsáveis por taquicardias nem por chamadas dos vizinhos para a polícia a reclamar do barulho. Fazer isto durante uma hora, com uma banda e uma comitiva de bailarinos a tocar, fazer coros e dançar — sem grandes pausas — é de valor. E quantos conseguem juntar a isso música com bom gosto, ali a meio caminho entre pop para cativar massas e uma proposta desafiante com identidade própria? Não serão assim tantos, mas Solange está nesse pelotão. Provou-o na última madrugada, de quinta-feira para sexta-feira, no festival NOS Primavera Sound.

O relógio marcava 0h25 e ouvia-se já um burburinho nas imediações do palco principal do festival, a antecipar a chegada da cantora e compositora de 32 anos. “Agora é a Solange. Pá, nem nunca ouvi falar”, dizia um rapaz a dois amigos. Faltavam só cinco minutos para a cantora e compositora norte-americana entrar em palco e, até isso acontecer, ouvir-se-iam outros comentários a tentar explicar o que aí vinha — “é a irmã da Beyoncé”, dizia um; “vem aí a Beyoncé”, gracejava outro.

A cantora de 32 anos, nascida em Houston, Texas, tem crescido assim: à sombra da enorme popularidade da irmã, uma das maiores estrelas pop deste século. Solange até começou a carreira artística como bailarina de substituição das Destiny’s Child, banda de que a irmã fez parte. Ainda adolescente, era chamada perante a ausência de alguma das bailarinas residentes do grupo. Ainda durante os anos 2000, lançou dois álbuns a solo de que muito poucos se lembram e que ela própria não faz questão de recordar, nos concertos que dá por estes dias

A afirmação no meio musical demorou alguns anos a chegar e só nos últimos três, com a edição de dois álbuns muito bem recebidos por público e crítica (A Seat At The Table, de 2016, e When I Get Home, lançado já este ano), Solange começou a aproximar-se do estrelato pop. A influência da irmã é notória, em parte da sua receita musical (o R&B dos anos 1990 reciclado com tons eletrónicos) e na criação de concertos-espetáculo, pensados ao pormenor, coreografados ao detalhe. E no entanto, Solange é cada vez menos “a irmã da Beyoncé” e cada vez mais uma artista por inteiro, com méritos próprios e identidade vincada.

O concerto-espetáculo inicia-se e completa-se sempre sem grandes falhas, mas é fácil esquecermo-nos de que está tudo mecanizado e automatizado — cada gesto, cada passo de dança, cada interação com a sua banda, cada nota cantada com acerto. Num palco com um cenário peculiar, com uma pequena divisão interior para o baterista, com escadas brancas que vão dar a um palanque para o qual Solange e os seus bailarinos hão-de subir algumas vezes, a cantora e a sua comitiva surgem com “farda” coletiva, um fato preto mais ou menos completo (só os homens acabam o concerto com o casaco vestido e fechado).

Nem a chuva, que surgiu em força já na ponta final do espetáculo originando uma debandada geral (rumo sobretudo aos arbustos mais próximos, que abrigavam até quem se protegera na medida do possível, vestindo uma capa impermeável) durante um curto período, atrapalhou Solange.

Ela lá foi brilhando, simulando carregar e disparar armas em “Way To The Show”, cantando “esta porra é para nós” (do tema “F.U.B.U.”) junto ao público e na direção de uma jovem negra da plateia, dizendo que esta noite também servia para celebrar a “blackness” (toda a sua banda era negra, o que, na verdade, dificilmente se sublinha de uma banda inteiramente branca) e fazendo um discurso onde contava que fora em pequena um campo de férias da igreja no qual se deparou com a ideia de espírito, inicialmente assustadora e que finalmente enfrentou no seu mais recente álbum.

O concerto terminaria com a secção de sopros a brilhar e a mostrar que Nova Orleães (onde a cantora mora) vive também em Solange, com esta e as integrantes do seu coro a responderem num canto quase gospel. “Hoje quero tornar este lugar o meu santuário”, dissera uns minutos antes. Missão cumprida: a sua igreja acabou de crescer em fiéis com uma estreia em Portugal irrepreensível. Foi só uma pena o bikini preto não ter ajudado: a indumentária fez Solange temer, como chegou a confessar ao microfone, “ficar com uma mama de fora”.

Nota: Solange não permitiu a captação de fotografias pelos repórteres creditados com photo pass para a cobertura do festival NOS Primavera Sound