Em 1984, a Seleção Nacional encerrava um jejum que durava há quase 20 anos: a equipa então orientada por Fernando Cabrita tinha conseguido um inédito apuramento para um Campeonato da Europa e Portugal regressava a uma grande competição de seleções 18 anos depois do Mundial de 1966 e dos magriçosO sorteio ditou que a seleção portuguesa ficasse no Grupo 2, com a RFA de Rummenigge e Völler, a Espanha de Camacho e a também estreante Roménia (que tinha László Bölöni no plantel). A vitória frente aos romenos e os empates com os espanhóis e os alemães garantiram à Seleção Nacional o segundo lugar do grupo e a qualificação para a meia-final.

Queria isto dizer que, na primeira aparição num Europeu em 20 anos, Portugal estava a um jogo de chegar à final de Paris. França, a anfitriã, era a adversária — e tinha também um fantasma para afastar. Nos outros dois torneios internacionais que havia organizado, o Mundial de 1938 e o Europeu inaugural de 1960, a seleção francesa não conseguiu garantir a vitória. Em 1984, com uma equipa liderada pelo capitão Michel Platini, as expectativas estavam em alta: tinha chegado a altura de levantar um troféu no Parque dos Príncipes.

Fernando Chalana deu nas vistas no Euro 1984 e fez as duas assistências para os dois golos de Jordão

Do lado de Portugal, Bento era o capitão e o dono da baliza (com Damas no banco) e a frente de ataque tinha um jovem Chalana, que havia de realizar o Europeu de revelação que o levaria para o Bordéus ainda nesse verão. A grande referência ofensiva, porém, era Rui Jordão. Há precisamente 35 anos, a 23 de junho de 1984, o então avançado do Sporting foi o “quase-herói” na meia-final do Europeu com a seleção francesa e inscreveu o próprio nome na história da Seleção Nacional.

Em Marselha, no Stade Vélodrome, Domergue inaugurou o marcador logo aos 24 minutos. Jordão respondeu aos 74, assistido por Chalana, e empurrou a meia-final para o prolongamento. Já aos oito minutos do tempo suplementar, Jordão bisou, novamente assistido por Chalana, e deixou a seleção portuguesa a um pequeno passo da primeira final da Seleção Nacional. Domergue novamente aos 114 minutos e finalmente Platini, a um do apito final, acabaram com as esperanças portuguesas e enviaram Cabrita, Chalana, Bento e Jordão para casa. Na final, dias depois, bateram Espanha por 2-0 e afastaram os fantasmas de 1938 e 1960.

O avançado natural de Benguela esteve no Sporting durante dez temporadas mas começou a carreira no Benfica

Rui Jordão, atualmente com 66 anos, realizou dez temporadas ao serviço do Sporting e tornou-se uma das grandes figuras dos leões nos anos 80, onde formou uma dupla de luxo com Manuel Fernandes. O avançado natural de Benguela, em Angola, até começou a carreira ao serviço do Benfica, onde chegou logo em 1970 com 18 anos e ficou até 1976. Só depois de um desvio pelo Saragoça, onde fez 14 golos ao longo de 33 jogos, é que regressou a Portugal para se juntar ao Sporting, onde acabou por passar os anos mais memoráveis e mais frutíferos da carreira. Em 1987 mudou-se para o V. Setúbal, onde ainda esteve durante duas épocas, e pendurou as botas dois anos depois, aos 37 anos.

Ao contrário do que aconteceu com a grande maioria dos jogadores portugueses que incluíram a convocatória de Fernando Cabrita nesse Euro 1984, Rui Jordão afastou-se por completo do futebol e seguiu outra paixão, licenciando-se em História de Arte pela Universidade Nova de Lisboa. Mais tarde, completou a formação artística em Pintura, Desenho e Modelagem na Sociedade Nacional de Belas Artes e inaugurou exposições na Casa do Marquês, em Algés, na Bienal de Amarante, na Galeria Magia e Imagem e na Bienal do Montijo. Jordão, o pintor que por acaso foi um dos melhores jogadores que passaram na Seleção Nacional, nunca mais quis saber do futebol. Fica para a história a meia-final de Marselha em que lhe estragaram a pintura.