“Eu nunca na minha vida corrompi ninguém”. Foi assim que o antigo banqueiro, Ricardo Salgado, resumiu as respostas às várias perguntas que os jornalistas lhe fizeram esta tarde de segunda-feira à saída do Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, depois de ter sido interrogado pelo juiz Ivo Rosa na instrução do processo da Operação Marquês.

Salgado disse ainda acreditar que “ficou tudo esclarecido”, relativamente aos contratos e ao dinheiro que terá transferido para o ex-presidente da Oi, Zeinal Bava. Foi esse o tema central das questões que lhe foram feitas, uma vez que ele, como arguido, não pediu a abertura de instrução — uma fase que permite aos arguidos terem um juiz a olhar para o processo e perceber se tem pernas para andar e seguir para julgamento.

E apesar de a justificação de Bava, relativamente aos 25 milhões de euros que recebeu do BES, não ser a mesma que Salgado deu em fase de inquérito, em janeiro de 2017, o banqueiro diz que não existem divergências. “Quanto a mim não há discrepância nenhuma”, disse, para depois considerar que a investigação devia ter “ido mais a fundo”. Neste momento o advogado, Francisco Proença de Carvalho,tomou a palavra para dizer aos jornalistas que não prestariam mais declarações. “Não há balanço, porque isto não é nenhum jogo de futebol”, respondeu aos jornalistas.

O ex-presidente do BES é um dos principais arguidos da Operação Marquês, o processo que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, e já à entrada do tribunal — antes de inquirido por Ivo Rosa — disse aos jornalistas que ia responder a tudo.

“Vou responder às questões do meritíssimo juiz”, disse aos jornalistas Ricardo Salgado, que entrou no tribunal, acompanhado pelos seus dois advogados, cerca das 13:30.

No processo Operação Marquês, o Ministério Público questiona, entre outras matérias, a eventual influência de Ricardo Salgado junto do Governo de José Sócrates em negócios que tiveram a participação do Grupo Espírito Santo (GES), tais como a contestação à OPA da Sonae sobre a PT em 2006/2007, a cisão da PT Multimédia, a venda da Vivo à Telefónica em 2010 e a compra de 22,28% do capital da Oi por parte da PT.

Ricardo Salgado foi acusado da prática dos crimes de corrupção ativa de titular de cargo político, corrupção ativa, branqueamento de capitais, abuso de confiança, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada. A Operação Marquês conta com 28 arguidos — 19 pessoas e nove empresas — e está relacionada com a prática de mais de uma centena e meia de crimes de natureza económico-financeira.

MP diz que Sócrates recebeu 34 milhões de euros

José Sócrates está acusado de crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, branqueamento de capitais, falsificação de documentos e fraude fiscal qualificada. A acusação sustenta que Sócrates recebeu cerca de 34 milhões de euros, entre 2006 e 2015, a troco de favorecimentos a interesses do ex-banqueiro Ricardo Salgado no GES e na PT, bem como garantir a concessão de financiamento da Caixa Geral de Depósitos ao empreendimento Vale do Lobo, no Algarve, e por favorecer negócios do Grupo Lena.

Na Operação Marquês foram ainda acusados, entre outros, o empresário Carlos Santos Silva (apontado como “testa de ferro” de Sócrates), o ex-administrador do Grupo Lena Joaquim Barroca, Zeinal Bava, ex-presidente executivo da PT, Armando Vara, antigo deputado e ministro e ex-administrador da CGD, Henrique Granadeiro (ex-gestor da PT) e José Paulo Pinto de Sousa (primo de Sócrates).

O processo foi investigado durante mais de três anos, culminado com uma acusação com cerca de quatro mil páginas, tendo a fase de instrução, dirigida pelo juiz Ivo Rosa, tido início em janeiro, devendo prolongar-se durante todo o ano de 2019.

(Artigo atualizado com as declarações de Ricardo Salgado à saída do tribunal.)

(Artigo retificado às 19h39, em que se acrescentou que as declarações de Salgado que divergem das de Bava foram feitas em fase de inquérito)