Christine and the Queens é considerada um dos nomes fortes do novo pop francês. O seu álbum de estreia, Chaleur humaine (2014), foi considerado um dos melhores do ano por publicações internacionais, como o The Guardian ou a NME. Chris, editado no ano passado, também recebeu boas críticas, com a Time a considerar o primeiro single, “Girlfriend”, uma das melhores músicas de 2018. Neste verão, a artista passou, e vai continuar a passar, por alguns dos grandes festivais da Europa, como o Glanstonbury, no Reino Unido, e o Primavera Sound, mesmo aqui ao lado, em Barcelona. Por cá, a receção tem sido menos calorosa por razões ainda por explicar. Como ficou provado pelo concerto desta sexta-feira, o nome de Héloïse Letissier é praticamente desconhecido entre o público português, que preferiu reunir-se junto ao palco secundário, onde tocaram os Capitão Fausto, ou fazer uma pausa para jantar. Foi pena, porque a artista ofereceu uma das melhores atuações deste dois dias de Super Bock Super Rock.

Christine — ou melhor, Héloïse Letissier — foi a primeira francesa a subir ao palco principal do festival do Meco num dia onde os franceses reinaram (o vocalista dos Phoenix, Thomas Mars, referiu isso mesmo). Com uma formação em teatro (estudou em Lyon) e um encontro casual com o mundo das drag queens inglesas que lhe mudou a vida, a artista de 31 anos destoava do restante alinhamento do segundo dia do festival. Isso podia ter funcionado a seu favor. Se tudo tivesse corrido bem, Christine and the Queens poderia ter sido, para o público em geral, uma das grandes surpresas deste Super Bock Super Rock. A sua pop fica no ouvido, os seus temas dão vontade de dançar e a sua simpatia cativa. A forma como convida todos, sem exceção, a juntar-se a ela numa grande festa cheia de amor — porque o amor é necessário — é quase comovente de tão sincera que é. Isto, para não falar da sua faceta de dançarina e de entertainer nata, que faz com que seja capaz de transformar naturalmente qualquer atuação numa espécie de bailado contemporâneo. Vê-la e ouvi-la é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.

Christine dançou acompanhada por um grupo de seis bailarinos

O concerto desta noite de sexta-feira começou pelas 21h. Foi a essa hora que Christine entrou em palco acompanhada pelo seu batalhão de bailarinos e com uma chuva de pirotecnia como pano de fundo. O início do concerto, energético e com uma coreografia cuidadosamente planeada, foi apenas uma pequena amostra do que se seguiu. A receção foi, de início, algo fria. Excluindo um pequeno grupo de fãs entusiastas reunidos junto às grades, a maioria estrangeiros, a pop da francesa residente em Paris há mais de dez anos pouco pegou. Nem “Girlfriend”, esse single que convenceu meio mundo dentro e fora do seu país de origem, conquistou quem olhava para ela, talvez questionando-se quem era aquela rapariga de olhos azuis, cabelo curto e incapaz de parar quieta um minuto que fosse.

Talvez sentido o público contido, Christine — ou Chris, porque “é mais fácil” — explicou que o espaço em frente ao palco era “um espaço seguro”. “Tudo é permitido, não haverá julgamentos”, garantiu, acrescentando que um dos seus lugares favoritos era a discothèque. Com um jogo de luzes capaz de fazer inveja a artistas com o dobro dos anos de carreira, Chris foi dançando e dançando, qual Michael Jackson de meias brancas e camisa de cetim esvoaçante. E a comparação não é exagerada, uma vez que a artista já admitiu que Jackson é o seu cantor favorito. A sua formação em teatro e dança veio ao de cima em vários momentos da atuação, que por vezes roçou o bailado contemporâneo com uma bela batida como banda sonora.

Christine entrou e saiu de palco sob uma chuva de cor dourada

Depois de “It”, Christine voltou novamente ao primeiro álbum, Chaleur humaine, para “Tilted”. A música não é uma música qualquer. No Super Bock Super Rock, a artista explicou que sempre teve dificuldade em encaixar e que a canção foi a sua primeira tentativa de aceitar isso. Para ela, cada tema que compõe é uma tentativa de resolver um problema, e “Five Dollars”, do novo Chris, não há-de ter sido exceção. Um dos melhores momentos do concerto foi, contudo, “Stranger”. Com as luzes intermitentes, Christine and the Queens foram atravessando o palco, dançando e parando, como estátuas vivas. Naqueles curtos minutos, o Super Bock Super Rock transformou-se verdadeiramente num teatro ao ar livre.

“Não costumo tocar para vocês, então quero ficar sozinha com vocês”, declarou enquanto os bailarinos e músicos abandonavam o palco, acrescentado que queria cantar “uma canção em que acredito profundamente”. O título do tema adivinhou-se logo no primeiro refrão — “I will be king and you will be queen”. Era “Heroes”, de David Bowie, uma das grandes influências da francesa, como ela própria o admitiu tantas e tantas vezes. Entretanto, e terminado o concerto do Capitão Fausto na outra ponta do recinto, o tímido público começou finalmente a chegar-se a Christine. A artista reparou, e não conseguiu evitar dizer “oh meu deus, chegaram pessoas!”, enquanto acenava e dizia olá, muito contente. O final do concerto acabou, por isso, por ser um bocadinho diferente do seu começo, com um maior número de espectadores, de dançarinos e uma canção de parabéns (Silvia, uma das bailarinas, fazia anos). Mas não foi suficiente. Christine e as suas Queens mereciam mais.

O que é que poderia ter sido feito de forma diferente? Teria Chris encaixado melhor num outro dia do festival? Num outro alinhamento? Em nome próprio? São perguntas a que é difícil de responder, assim como é difícil adivinhar os motivos que levaram a que o concerto da artista caísse em saco roto. Resta desejar que, caso regresse a Portugal, a francesa encontre um lugar à sua medida. É que ela bem merece.