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Natação

Há 35 anos, Alexandre Yokochi foi o engenheiro da primeira (e única) final olímpica da natação portuguesa

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Em 1984, nos Jogos de Los Angeles, Alexandre Yokochi tornou-se o primeiro (e único) português a chegar a uma final olímpica de natação. 35 anos depois, a repetição do feito nunca esteve tão perto.

Pai de Alexandre, Shintaro, era o treinador da natação do Benfica e sobreviveu à bomba atómica de Hiroshima

LUSA

Há 35 anos, Los Angeles recebia os Jogos Olímpicos de 1984. Entre a prestação brilhante de Carl Lewis, que ganhou nos 100, 200 e 4×100 metros e ainda no salto em comprimento, e a estreia da natação sincronizada e da ginástica rítmica enquanto modalidades olímpicas, Carlos Lopes conquistou o ouro na maratona aos 37 anos e tornou-se o primeiro campeão olímpico português. A medalha do maratonista e o recorde que se manteve durante 24 anos foram o ponto alto óbvio da campanha portuguesa em Los Angeles — até porque ainda ninguém sabia, à altura, que o que Alexandre Yokochi tinha feito na natação seria, 35 anos depois, ainda único e inédito.

A 2 de agosto de 1984, Yokochi tornou-se o primeiro português de sempre — e ainda o único — a competir numa final A de natação nuns Jogos Olímpicos. Beneficiando do boicote da União Soviética, que afastou muitos nadadores de Leste, o então atleta do Benfica apurou-se para a final dos 200 metros bruços e ficou em sétimo, com o tempo de dois minutos, 20 segundos e 69 centésimos. A final de Los Angeles, ganha pelo canadiano Victor Davis, é ainda o momento mais importante da história da natação portuguesa e um objetivo que permanece, mais de três décadas depois, ainda irrepetível e inalcançável. Mas o sétimo lugar nos Jogos Olímpicos é apenas um dos muitos destaques da vida de Alexandre Yokochi.

O antigo nadador português, agora com 54 anos, é o filho do meio de Shintaro Yokochi, um japonês que sobreviveu à bomba atómica de Hiroshima e aterrou em Portugal ainda durante o Estado Novo para ser treinador de natação do Sport Algés e Dafundo. Depois de passagens pela Academia Militar e pelo FC Porto, o pai Yokochi aceitou a proposta do Benfica e levava Alexandre, que na altura já se destacava entre os outros nadadores da mesma idade, para todos os treinos. O filho Yokochi rapidamente se tornou a grande promessa da natação, não só do Benfica como de Portugal, e as expectativas depressa deram lugar às confirmações: estreou-se em competição aos seis anos, aos 14 bateu o recorde nacional nos 100 e nos 200 metros bruços e aos 15 já era vice-campeão europeu de juniores.

Na antecâmara dos Jogos Olímpicos de 1984, os primeiros em que participou, foi tricampeão latino nos 200 metros bruços (1981, 1982 e 1983) e assumiu-se desde logo como um dos candidatos europeus a uma presença na final olímpica da categoria. Pouco mais de um ano depois de Los Angeles, conquistou aquela que acabou por ser a única medalha da carreira numa grande competição — Jogos Olímpicos, Europeus e Mundiais de natação — ao ficar em segundo nos Europeus de Sofia, na Bulgária. Somou títulos a nível universitário nos anos seguintes, incluindo o ouro europeu em 1987, e voltou a fazer sensação nos Jogos de 1988 ao ficar em 9.º na classificação geral dos 200 metros bruços, falhando por pouco a segunda final olímpica da carreira e de Portugal. Ainda garantiu os mínimos para viajar até Barcelona quatro anos depois, em 1992, mas já não conseguiu mais do que um decepcionante 25.º lugar.

Em 1992, o ano em que terminou a carreira desportiva, nos Jogos Olímpicos de Barcelona

Durante tudo isto, Alexandre Yokochi nunca escondeu qual é que era o objetivo final. “Os meus pobres colegas do tempo da natação devem lembrar-se de que eu andava sempre a ler coisas esquisitas”, recordou há dois anos numa entrevista ao Diário de Notícias aquele que é agora professor de Materiais, Energia e Processos Químicos no departamento de Engenharia Mecânica da Baylor University, nos Estados Unidos. Depois de se retirar definitivamente das piscinas, em 1992 e aos 27 anos, Yokochi concluiu o doutoramento no Texas e fixou-se de forma permanente em território norte-americano, deixando para trás a natação, as competições, as medalhas e os recordes. Ainda assim, na mesma entrevista, explicou que continua a nadar meia-hora todos os dias, “o que é bem menos do que as cinco ou seis horas do passado”.

A final olímpica de há 35 anos permanece a única do palmarés da natação portuguesa e só em 2016, nos Jogos do Rio, é que um nadador português voltou a conseguir marcar presença numa meia-final: Alexis Santos, atleta do Sporting, não conseguiu chegar à final dos 400 metros estilos mas parece destinado a perseguir os feitos de Yokochi, já que foi também o primeiro a voltar a conquistar uma medalha em Europeus ou Mundiais depois da de Sofia em 1985 (foi bronze europeu nos 200 metros estilos há três anos). “Espero que, dentro de quatro anos, nos Jogos de Tóquio, na ‘terra dele’, possa ficar mais perto do resultado que ele alcançou ou até, quem sabe, ultrapassá-lo. Se fizesse o mesmo resultado já era algo extraordinário”, disse Alexis Santos depois da meia-final do Rio de Janeiro. Falta menos de um ano para Tóquio, a “terra” de Alexandre Yokochi: e o objetivo da natação portuguesa é tornar poética a repetição do feito histórico do melhor nadador português de sempre.

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