O Tottenham foi uma das grandes surpresas do mercado de verão. Depois de garantir a manutenção na Premier League apenas na última jornada da temporada passada, o clube de Londres investiu mais de 300 milhões de euros no plantel — com destaque para as contratações milionárias de Sandro Tonali, Mateus Fernandes e Savinho, três nomes que pareciam levar a equipa de Roberto De Zerbi para outros patamares.
O arranque da nova época, porém, dificilmente poderia estar a ser pior. O Tottenham ainda não ganhou em quatro jornadas de Premier League, leva dois empates e duas derrotas, já sofreu cinco golos e ainda não marcou nenhum. Ou seja, a par do recém-promovido Coventry City de Frank Lampard que somou quatro derrotas em quatro jogos, é mesmo a única equipa em Inglaterra que ainda não conseguiu marcar uma única vez. Algo que está a levar Roberto De Zerbi, que chegou aos spurs em março e conseguiu assegurar a manutenção, a tomar medidas adicionais.
4 – Only Crystal Palace in 2017-18 (first 7 games) have endured a longer start to a Premier League season without scoring than Tottenham Hotspur in 2026-27 (first 4), while it’s Spurs’ longest goalscoring drought to the start of a season in the top four tiers.
Bleak. pic.twitter.com/uBicemETFW
— OptaJoe (@OptaJoe) September 12, 2026
Na antecâmara da visita desta terça-feira ao Liverpool, a contar para a terceira ronda da Taça da Liga inglesa, o treinador italiano foi questionado sobre se os jogadores estão a preocupar-se mais com os exercícios de finalização nos treinos. A resposta, naturalmente, foi muito honesta: “O que é que acham?”. “Sim, estamos a fazer treino extra de finalização. Antes do jogo anterior, antes do jogo contra o Everton. E não posso mesmo dizer nada porque os jogadores querem sempre trabalhar mais e mais. Não sou eu que peço para ficarem mais 30 minutos, eles é que querem ficar. Eles querem melhorar, sentem que não estamos a ganhar jogos e não estamos a marcar golos”, explicou o antigo técnico de Shakhtar Donetsk, Brighton ou Marselha.
Na mesma conferência de imprensa, De Zerbi revelou que a equipa técnica está a tentar encontrar ferramentas para ajudar os jogadores na questão da finalização. “Os vídeos são muito importantes, porque consegues ter uma perspetiva diferente do que acontece em campo. Dá para trabalharmos coletivamente, mas também individualmente. Trabalho individual, exercícios individuais para melhorar a assistência, melhorar o cruzamento, melhorar o ataque do primeiro poste. Temos de ser mais agressivos, porque às vezes marcas diretamente, mas outras vezes perdes a bola, reages, recuperas a bola e marcas nesse momento”, acrescentou, detalhando ainda que dá trabalho de casa aos jogadores, já que utiliza excertos de vídeo individuais para cada um e pede que os analisem em casa, com calma, depois de jantar.
Jantar que, para Roberto De Zerbi, até pode ser uma maneira de aproximar o grupo. Depois de na temporada passada ter revelado que levou todo o plantel a jantar fora numa fase decisiva da época, quando a manutenção era discutida todos os fins de semana, o treinador italiano repetiu a ideia nas últimas semanas. “Na semana passada jantámos no mesmo restaurante com todos os jogadores. Houve comida, alguma água e algumas cervejas”, brincou, confessando ainda que a conta fica à sua responsabilidade, já que é “um prazer” jantar com os jogadores.
“Acho que tenho jogadores muito bons. Estamos a construir um novo projeto, uma nova equipa. Assumo a responsabilidade porque não estamos a ganhar e a marcar golos, mas isso não muda a minha opinião sobre os jogadores, penso o mesmo se não ganharmos e não marcarmos. Se queremos mudar o que aconteceu nas últimas duas ou três épocas temos de ser fortes mentalmente e acreditar na qualidade dos jogadores, nas decisões que tomámos há um mês. Ou então mudamos. E podemos mudar os jogadores e mudar o treinador, mudar, mudar, mudar e mudar — e nada muda. Ou ficamos com a cabeça, mantemos a humildade e o espírito certo para trabalhar. Acredito nos meus jogadores. E espero que eles acreditem neles próprios como eu acredito neles”, sublinhou.
Quem já não faz parte dessa corrente de crença, porém, é Richarlison. O avançado brasileiro tem sido a grande referência ofensiva do Tottenham nas últimas épocas, com mais de 130 golos em quatro anos, mas ao longo do verão acabou por desencantar-se com a ideia de continuar em Londres — tal como aconteceu com Cuti Romero, Djed Spence ou Kevin Danso, entre muitos outros. Mas Romero foi para o Atl. Madrid, Spence foi para o Inter Milão, Danso foi para o Sunderland. E Richarlison ficou.
Primeiro, começou por estar muito perto de regressar ao Everton, num negócio que levaria Iliman Ndaye para o Tottenham, mas o Manchester City apareceu e roubou o avançado senegalês. Depois, esteve quase a mudar-se para o Trabzonspor, juntando-se a Mohamed Salah na Turquia, mas o acordo nunca chegou. Por fim, alimentou as esperanças do Vasco da Gama, mas optou por não voltar já ao Brasil. E no início deste mês de setembro, já com o mercado de transferências encerrado em Inglaterra, quebrou o silêncio.
????⚠️ Roberto De Zerbi: “Richarlison will NOT play even if he’s available. Not even in the Carabao Cup, no”. pic.twitter.com/Lon6VArWzM
— Fabrizio Romano (@FabrizioRomano) September 14, 2026
“Depois de tudo o que passei nos últimos anos decidi que NUNCA MAIS decidiriam o meu futuro por mim. Passei por muitas coisas más nos últimos tempos e quase todas aconteceram por decisões tomadas por outras pessoas. Pressão, ameaças, retaliações. Nada disso me assusta. Já passei por coisas piores, acreditem! Sempre deixei claro, em todas as oportunidades, que uma saída minha para outro clube teria também de ser boa para o Tottenham. Se não fosse jamais aceitaria. Tal como não aceitei quando tudo aqui parecia estar a desmoronar-se, numa altura em que precisavam de mim. Fiquei e dei a minha vida. Espero que, agora, tratem a minha situação com o mesmo respeito que sempre tive pelo Tottenham e por todas as pessoas que trabalharam comigo. Só não queiram decidir por mim”, escreveu o brasileiro, que está nos spurs desde 2022, nas redes sociais.
Mais à frente, Richarlison assumiu que queria ter voltado ao Everton, o seu “clube de coração” em Inglaterra, que representou entre 2018 e 2022 e muito por pedido expresso de Marco Silva, que já o tinha orientado no Watford. “Se chegarem a um acordo, volto. A minha intenção era voltar ao lugar onde fui muito feliz. Só que as negociações eram da maneira que as pessoas queriam. E não vai ser mais assim. Apesar de todo este tumulto, tenho contrato com os ‘spurs’. E estarei à disposição do clube”, acrescentou.
???? Richarlison has posted this on his Instagram Story following Roberto De Zerbi confirming he will NOT feature for #THFC tomorrow night, despite being eligible to play. ????❌ pic.twitter.com/xxGWARmhWO
— Hotspur Lane (@HotspurLane) September 14, 2026
O clube, contudo, já não conta com ele. Richarlison não foi inscrito na lista final da Premier League, pelo que não poderá representar o Tottenham no Campeonato, mas poderia ser convocado para a Taça da Liga — particularmente para o complexo jogo desta terça-feira em Anfield, contra o Liverpool. Roberto De Zerbi, porém, já garantiu que o avançado brasileiro não entra sequer nas opções.
“Já sabem o que há para saber do Richarlison e nada muda, seja na Taça da Liga ou na Premier League. A situação é a mesma. O Richarlison não vai jogar mesmo estando disponível. Nem na Taça da Liga. No início da temporada falei com ele muitas vezes para o convencer a ficar e ele não quis. Não posso rezar todos os dias para que fique. Se nunca mais vai jogar? Não sei. Essa pergunta não é para mim”, atirou o treinador italiano. No Instagram, Richarlison reagiu às palavras de De Zerbi com um emoji a chorar e uma pergunta: “Porquê?”.