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Crítica de Livros

Michael Herr e a magia da guerra

Em "Despachos", Michael Herr escreve sobre o centro da guerra do Vietname, que não está na Casa Branca ou em Saigão, mas em Hue e em Khe Sanh, nos sítios onde há miúdos assustados de arma em punho.

Autor
  • João Pedro Vala

Título: Despachos
Autor: Michael Herr
Editora: Antígona
Páginas: 360
Preço: 18,00 €

Michael Herr foi correspondente de guerra da Esquire no Vietname durante dois anos, entre 1967 e 1969. Nesse tempo, foi juntando material e escrevendo longos artigos que viriam a ser integrados, já depois do fim do conflito, em Despachos. O sucesso que Despachos viria a ter enquanto relato da guerra talvez possa ser aferível por ter servido como base para filmes tão icónicos como “Full Metal Jacket” e “Apocalypse Now”.

Herr nunca escondeu que parte da narrativa e das personagens de Despachos foi inventada por si, não podendo desta forma o livro ser descrito simplesmente como uma obra documental. Ainda assim, talvez o que afaste este quase-romance ou romance documental de um mero relato jornalístico não seja a existência de personagens ou de diálogos marionetados pelo escritor, mas a existência intrusiva do próprio escritor na obra. Não foram apenas os olhos e os ouvidos de um documentarista sem rosto que estiveram na guerra. Despachos é tanto uma tentativa de fazer sentido de uma guerra absurda como um exercício de auto-análise do repórter que, por sua livre e espontânea vontade, decide ir trabalhar para o centro de um conflito violentíssimo repleto de homens desejosos de sair dali. Herr quer perceber o que o leva a ter tão pouco amor à vida ao mesmo tempo que se tenta livrar das desculpas que usa para se convencer de que estava ali por motivos nobres (“mais tarde inventamos as balelas todas que quisermos acerca do sucedido, dizemos que nos sentimos bem ou mal naquele momento, que adorámos ou que detestámos, que agimos assim ou assado, que nos portámos como uns valentes ou como uns sacanas; seja como for, o que aconteceu aconteceu” (p.41)).

A guerra parece sempre ser, para Herr, um sítio em que as contradições que povoam o mundo saltam à vista, em que a América é vista como o país que permite a um bando de correspondentes usarem helicópteros do exército como se fossem táxis, que dá a todos os jornalistas acesso livre e ilimitado ao cenário de guerra, o país cujos soldados tratam os homens que vão reportar o que se passava no Vietname (e que muitas vezes eram contra a guerra) não como intrusos mas como majestades, estando esses soldados dispostos a dar a vida por correspondentes a quem apenas exigem que narrem fielmente o que acontecia. Mas a América de Despachos é também o sítio em que, nos gabinetes militares, se manipulava informações e relatórios para que uma derrota em toda a linha pudesse ir sendo descrita, do outro lado do mundo, como uma situação absolutamente sob controlo. É a América que, nas palavras de um dos pilotos com quem Herr se cruza, travava uma guerra que consistia em “bombardear os gajos e dar-lhes de comer, bombardear os gajos e dar-lhes de comer” (p.27).

A guerra que Herr quer documentar não é, então, a guerra dos gabinetes, das estratégias militares e do conflito político. Herr aborrece-se quando ouve o discurso contido e vazio dos comandantes e está convencido de que um jovem soldado que conheceu num bar em Tu Do resumia melhor a guerra “do que os tipos que tinham andado a dar à língua e a debitar estatísticas durante mais de uma hora” (p.297). Herr acha que o centro da guerra não está na Casa Branca ou em Saigão, mas em Hue e em Khe Sanh, nos sítios onde miúdos assustados de arma em punho são forçados a lidar com a possibilidade bem real de estarem mortos dentro de dez minutos. Tenta ver os rostos dos homens que são apenas, para a administração estadunidense, peças de uma engrenagem, os rostos dos rapazinhos que fazem de tudo para não ver a morte escondida dentro de sacos de lona verde e que, em alguns momentos, as hélices dos helicópteros revelam a nu para horror e desespero dos pilotos, soldados e de todos os que sabem quão provável é ser num desses sacos que voltarão a casa para junto dos seus.

É por a morte estar tão próxima, é por a diferença entre estar vivo ou não ser tão ténue que em algumas ocasiões se torna até difícil distinguir os vivos dos mortos. É por um passo em falso poder ditar o fim que os soldados se agarram a superstições que lhes deem uma qualquer garantia de que estão a salvo. É por tudo isto que um soldado que sobreviva de forma miraculosa a uma granada encravada é tratado como um amuleto de que todos os outros se querem fazer acompanhar. E é isso também que leva soldados temerosos a negociarem (irracionalmente, diríamos nós sentados atrás de uma secretária num bairro gentrificado da capital mais segura da Europa) com a morte, como o rapaz de Miles City que lia o Stars and Stripes todos os dias na esperança de ver lá um outro soldado da sua terra morto, “porque tinha a certeza absoluta de que, se mais alguém ali estivesse e fosse morto, ele próprio estaria a salvo. ‘Quer dizer, já se viu dois gajos duma terriola desgraçada como Miles City a serem mortos no Vietnam?’” (p.247).

A maior virtude de Herr talvez seja, ainda assim, aquela que mais nos aliena de Despachos. Perto do fim do livro, Herr fala com desprezo dessas “figuras literárias de segundo plano que escreviam sobre o quanto detestavam a guerra, mais do que qualquer outra pessoa seria capaz de a detestar” (p. 298). Ainda que Herr transpareça uma certa repulsa por um conflito evitável que custou a vida a milhões de civis e militares, nunca sequer tenta esconder o fascínio que a guerra tem sobre si e sobre os soldados cuja vida relata. A guerra colocava-os frente a frente com a morte, tornava-os capazes de decidir sobre a vida de homens e mulheres debaixo da sua mira e oferecia-lhes, por isso mesmo, um entusiasmo que a vida rotineira e comparativamente aborrecida nos Estados Unidos nunca lhes poderia proporcionar. Daí que soldados que jurariam a pés juntos dar tudo para voltar para os braços das suas namoradas e família arranjem sempre uma desculpa para protelar o regresso, daí que Herr confesse em vários momentos, para nosso choque, que “regressar a casa era deprimente. Depois de uma coisa assim, a que podíamos lançar mão para nos sentirmos vibrar, o que se comparava com aquilo, o que havíamos de fazer para rematar aquela história? Tudo nos parecia um tudo-nada mortiço, em toda a parte pairava a ameaça do tédio” (p.330), daí que Page, um outro correspondente de guerra, se ria quando é convidado para escrever um livro que apague a aura mágica da guerra. “Ahhh, a guerra faz-nos bem, não se consegue apagar a magia disto. É como tentar apagar a magia do sexo, tentar apagar a magia dos Rolling Stones.” (p.334)

joaopvala@gmail.com

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