António José Seguro é um presidente do futuro. Não o digo com carga adjetival, no sentido de que, no futuro, idealmente, todos os presidentes deveriam ser como ele. Também não o digo no sentido meramente cronológico, com a certeza que os calendários – o gregoriano e o eleitoral – nos dão. Para ser sincero, nem sou eu quem o diz. É o próprio Presidente da República. Seguro não se cansa do futuro. Tem a mania do futuro. De manhã, ao abrir a porta de casa, o futuro espera-o, radioso como o Sol. Durante o dia, enquanto recebe líderes políticos ou medita, consternado, na situação política do país, lá vem o futuro saltitante, a mordiscar-lhe os sapatos, a pedir-lhe brincadeira, a distraí-lo dos seus graves afazeres presidenciais. À noite, de regresso a casa, na solidão do seu escritório, abre uma gaveta e eis o futuro em forma de discurso que há de proferir no dia seguinte, um discurso repleto de pequenos futuros, de referências ao futuro, de visões do futuro. Seguro olha para o futuro e verte uma lágrima de esperança. Esperança em quê? No futuro.
No discurso do 5 de Outubro, a palavra mais repetida pelo Presidente da República foi “futuro”, umas vezes como adjetivo, na maior parte das vezes como substantivo. Falou numa “ideia de futuro”, afirmou que a República não tem “medo do futuro” e pediu aos portugueses para olharem para o futuro e, ao mesmo tempo, construírem o futuro, o que, dependendo do terreno escolhido para erguer o futuro, nem sempre deve dar muito jeito. Referiu-se ao “Portugal do futuro” e, numa inspirada inversão dos termos, ao “futuro de Portugal”. No fim, garantiu, com convicção, que “o futuro de Portugal não está escrito”, para logo a seguir terminar com uma nota ominosa, lembrando que esse mesmo futuro “está nas nossas mãos.” O Presidente da República devia saber que o nosso problema nunca foi o futuro, mas tudo o que nos vem parar às mãos. Nas mãos dos portugueses, esse futuro que, nos discursos do Presidente, parece tão brilhante e prometedor, desfaz-se, esfarela-se, evapora-se.
Acredito que o futuro seja uma mania que Seguro não pode controlar, uma bengala indispensável enquanto caminha pelos trilhos da sua retórica plácida e inócua. Já no discurso da tomada de posse tinha dito que o “futuro não está escrito”, que o “futuro se constrói com trabalho” (mais uma ideia desanimadora do Presidente). No jantar de comemoração dos 50 anos da EDP, referiu-se à energia como “um ativo de futuro” e exortou os presentes a decidir “o futuro energético” que querem deixar. Quando se dirigiu aos atletas olímpicos, viu razões para “olhar para o futuro com confiança”. E, há poucos dias, conseguiu transformar a inauguração de uma creche no interior do país num “ato de confiança no futuro.” Sempre que quer dar ao discurso um tom otimista e esperançoso, Seguro saca do futuro. Sempre que o presente se mostra demasiado confuso ou tortuoso, Seguro refugia-se no futuro.
No 5 de Outubro, na varanda da Câmara Municipal onde há 116 anos foi proclamada a República, o Presidente citou versos de Jorge Palma, o “ai, Portugal. Portugal!” Como tinha a companhia do presidente da Câmara de Lisboa, não teria calhado mal evocar Sérgio Godinho que numa das suas canções diz que o “passado é um país distante.” E aí poderia aproveitar para dizer que o futuro não é um país menos distante. Pelo contrário, é um país ainda mais longínquo, envolto nas brumas não da memória mas das aspirações e dos desejos vagos. O futuro de que o Presidente da República não se cansa de falar é muito semelhante ao futuro publicitário dos slogans e dos cartazes eleitorais, um futuro sem substância. Seria bom que, de vez em quando, num ou noutro discurso, o Presidente regressasse do futuro onde se exilou e falasse mais do presente em que, malogradamente, temos de viver.