Morreu a escritora Toni Morrison, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 1993 e a primeira mulher negra a receber este galardão. De acordo com a Vulture, que avançou a notícia e cita uma fonte da sua editora, a escritora de 88 anos morreu na noite desta segunda-feira depois de complicações provocadas por uma pneumonia. A norte-americana escreveu vários romances, entre eles “Amada” (em inglês, “Beloved”), um romance inspirado em acontecimentos reais no Kentucky, em 1856, que em 1988 lhe valeu o prémio Pulitzer para melhor ficção.

Nascida em 1931 no estado norte-americano do Ohio e filha de um metalúrgico e uma dona de casa, Chloe Anthony Wofford (nome de batismo) centrou grande parte dos seus romances na vida da comunidade negra nos Estados Unidos, tendo recebido a Medalha Presidencial da Liberdade pelas mãos do antigo Presidente norte-americano Barack Obama, recebendo também a Legião de Honra Francesa. A autora escreveu 11 romances e alguns livros para crianças. Entre outras obras memoráveis da escritora estão “Jazz”, publicado em 1992, “Paraíso”, publicado em 1997, “Song of Solomon” e “A Nossa Casa é Onde Está o Coração”, de 2015.

De acordo com um comunicado da família de Toni, a escritora “morreu de forma pacífica na noite passada, rodeada da sua família e amigos”. A escritora foi casada com o arquiteto Howard Morrison e teve dois filhos: Harold e Slade. Após a separação, Toni mudou-se para Nova Iorque e lá trabalhou como editora. Foi também professora catedrática na Universidade de Princeton e deu aulas nas universidades de Howard, Yale e Southern Texas. Fazia também parte da Academia de Artes e Letras dos Estados Unidos.

No discurso que fez quando recebeu o Nobel da Literatura, Toni Morrison volta às raízes da comunidade negra e conta a história de uma mulher “filha de escravos, negra, americana e que vive sozinha numa pequena casa fora da cidade”. A história continua com a mulher, que é cega, a ser questionada por dois homens que entraram na sua casa com a intenção de gozar da sua condição: “Velha mulher, tenho na mão um pássaro. Diz-me se está vivo ou morto”. A mulher não sabe, mas, conta Toni, há uma certeza: “Se estiver morto, encontraram-no assim ou mataram-no. Se estiver vivo, ainda o podem matar. Independentemente do caso, é da vossa responsabilidade”.

O pássaro, a vida e a morte tinham um significado que ia para além do que estava naquelas palavras. “A especulação sobre o que aquele pássaro na mão (mais do que o seu corpo frágil) pode significar sempre foi uma atração para mim”, confessou Toni, acrescentando que escolheu ler o pássaro como a linguagem e a mulher como a escritora. “Ela está preocupada sobre como a linguagem em que ela sonha, dada ao nascer, é tratada, colocada ao serviço e até mesmo retirada dela para certos fins nefastos. Sendo escritora, pensa na linguagem parcialmente como um sistema, parcialmente como um ato com consequências”.

Para ela, uma língua morta não é apenas aquela que não é mais falada ou escrita mas, acima de tudo, é a linguagem teimosa que se contenta com a admiração da sua própria paralisia. Como uma linguagem estática, censurada e censuradora. Impiedosa na sua atividade policial, não tem nenhum desejo ou outro propósito além de manter o campo aberto do seu próprio narcisismo narcótico, a sua exclusividade e domínio”, continua no discurso.

A meio do discurso, Toni Morrison conclui com uma frase marcante: “Nós morremos. Esse pode ser o significado da vida. Mas nós fazemos a linguagem. Essa pode ser a medida das nossas vidas”.

(Artigo atualizado às 16h04)