Rádio Observador

Música

Bernardo Sassetti: os discos póstumos que aí vêm, o humor “sempre presente” e o piano que o levou aos Açores

265

Em entrevista, a diretora artística da Casa Sassetti, Inês Laginha, fala do estado do espólio do pianista, das gravações que deixou por editar e dos apoios que não deviam depender só do lucro.

Este mês, sairá um álbum póstumo de Bernardo Sassetti, que inclui gravações feitas pelo pianista português em 2005 e nunca disponibilizadas ao público

DR

Foi uma batalha que nos próximos meses vai dar frutos. Para poder editar discos com gravações inéditas e para inventariar o espólio que Bernardo Sassetti, pianista português que morreu em 2012 com 41 anos, deixou para trás, a Casa Bernardo Sassetti precisava de apoios. A luz verde dos concursos da Direção-Geral das Artes piscou no verão passado e, somada a apoios privados, terá nos próximos meses os primeiros resultados. A informação é corroborada ao Observador pela diretora artística da associação cultural sem fins lucrativos, Inês Laginha, que em entrevista revela os planos da Casa Bernardo Sassetti para o futuro e dá detalhes sobre o estado atual do espólio do pianista.

Esta quinta-feira, está agendada em Lisboa uma primeira apresentação de um álbum póstumo de Bernardo Sassetti. Intitulado Solo e resultado de uma viagem de Sassetti aos Açores motivada por um piano que o encantava, o disco vai ser lançado ainda neste mês de setembro, mas a divulgação da obra do músico continuará nos próximos meses: neste momento está em curso a avaliação e inventariação do espólio, financiada pela DGArtes, e até ao final do ano ou início de 2020 será lançado mais um disco. Este segundo álbum incluirá temas que Bernardo Sassetti compôs para o espetáculo “A Menina do Mar”, inspirado no conto de Sophia de Mello Breyner Andresen e que o músico apresentou ao vivo com a atriz e sua então mulher Beatriz Batarda.

Durante a entrevista, Inês Laginha fala ainda do humor “sempre presente” em Sassetti, que conheceu bem, e de outros gravações nunca editadas em disco que espera poder  lançar de 2020 em diante, caso existam apoios financeiros para tal. Estas incluem uma atuação ao vivo ininterrupta do pianista durante seis horas, uma colaboração gravada com o fadista Camané e o contrabaixista Carlos Bica e uma gravação com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa.

A diretora da Casa Bernardo Sassetti revela ainda que o objetivo da associação passará de futuro por divulgar não apenas a obra do músico, mas os tipos de música e arte pelos quais um dos instrumentistas portugueses mais aclamados e elogiados das últimas décadas (em especial, mas não só, no panorama jazzístico) se interessava. Mesmo sabendo que “não somos um país particularmente habituado à ideia de mecenato cultural” e mesmo ouvindo muitas vezes a pergunta “qual é o lucro que isso vai gerar?”, está confiante que quer a obra de Sassetti quer a arte que o movia continuarão a ser apoiadas pela associação de que é diretora artística nos próximos anos. Até em concertos: no dia 28 deste mês, um dos muitos músicos portugueses que decerto ouviram intensivamente as composições e discos de Bernardo Sassetti, Bruno Pernadas, vai apresentar as suas versões da obra do pianista ao vivo, no Centro Cultural de Belém. Sem piano, talvez porque para fazer igual não valia a pena.

Em abril do ano passado, numa entrevista ao Diário Notícias, dizia que era preciso financiamento para tratar o espólio de Bernardo Sassetti e que existiam nove discos inéditos para editar, entre apresentações ao vivo e discos de estúdio. Faço-lhe duas perguntas: a primeira é se essa necessidade de financiamento foi resolvida desde aí, a segunda é se este disco é um dos nove álbuns inéditos a que se referia no ano passado.
Sim e sim. Em relação à primeira pergunta, já tivemos financiamento. Neste momento a Casa Bernardo Sassetti [já] é uma estrutura apoiada pela DGArtes, mas num contexto biénio 2018-2019. Como é sabido, os resultados das candidaturas saíram no verão [de 2018] e as nossas atividades acabaram por ficar concentradas no espaço de um ano e meio e isso criou um atraso. O primeiro CD, que era o que tínhamos planeado para 2018, está a sair agora. E é este, um resultado das gravações de três dias que  passou no Teatro Micaelense. Este CD resulta de uma seleção da música gravada ali. Parte da seleção foi feita ainda pelo Bernardo, porque alguns dos temas já estavam produzidos por ele. O trabalho foi depois basicamente concluído [postumamente] e é esse o CD que estamos a editar agora.

O motivo para estes dias de gravação no Teatro Micaelense foi um piano que existia no teatro, correto?
É isso mesmo. Na altura, o piano que estava na sala no Teatro Micaelense era comentado entre pianistas, tanto de música erudita como de jazz, como sendo muito especial, tinha uma mecânica fácil e era muito bonito. Todos os pianistas tinham muita vontade de o ir experimentar. O Bernardo, tendo sabido disso, decidiu pedir ao diretor do teatro para passar lá uns dias e gravar. Depois outros projetos puseram-se à frente, até porque só queria aproveitar o piano, foi para lá sem nada demasiado concreto [pensado], foi tocar aquilo em que estava a trabalhar. Para o CD, tentámos selecionar os temas mais inéditos ali gravados.

Estas gravações aconteceram em 2005, um ano importante no percurso do Bernardo Sassetti: nos anos anteriores tinha editado discos importantes e neste ano de 2005 lançou a banda sonora do filme Alice, um dos seus trabalhos mais conhecidos, e o disco Ascent. Nota-se neste disco póstumo que o Bernardo Sassetti estava num momento de fulgor criativo?
Certamente. É curioso que mencione a banda sonora do Alice porque nas gravações do Teatro Micaelense estavam temas dessa banda sonora. Escolhi não os incluir precisamente porque eram temas já conhecidos do público. Achei que seria mais interessante dar a conhecer aquilo que o Bernardo andava a explorar e que praticamente ninguém ouviu. É a minha opinião, os ouvintes terão a oportunidade de fazer o seu julgamento, mas acho que cada um dos temas que se pode ouvir no disco mostra que aquela foi uma das fases mais criativas e mais bonitas do Bernardo.

Além do disco, haverá uma iniciativa este mês que já tinha existido no ano passado: um músico ser convidado para dar um concerto baseado no repertório do Bernardo Sassetti. O ano passado o escolhido foi o saxofonista Ricardo Toscano e o seu quarteto, este ano foi o instrumentista Bruno Pernadas, que irá dar um concerto com dez músicos em palco no próximo dia 28 de setembro, no Centro Cultural de Belém.
Exatamente, é uma iniciativa anual.

Já foi equacionada a divulgação destes espetáculos — seja através dos canais da Casa Bernardo Sassetti, via edição discográfica ou através de transmissão televisiva — a um público mais abrangente do que o que estará na sala e em Lisboa? Eventualmente levando os concertos a outras cidades, em digressão?
Sim. É nossa intenção fazer isso, já propusemos. O Teatro Micaelense, especificamente — e isto é só uma coincidência —, contactou-nos precisamente por ter interesse em levar lá o quarteto do Ricardo Toscano para tocar este repertório, de certa forma replicando o concerto que fez em Lisboa. Temos estes concertos gravados e existe a possibilidade de um dia vir a editar isto em CD. Porém, gostaria, antes disso, de levar os concertos a diferentes salas do país. Temos vindo a fazer os espetáculos em Lisboa mas acho que seria interessante levar ao resto do país.

O que é que ainda pode ser feito, além de tudo isto, para dar a conhecer a obra do Bernardo Sassetti? Ou considera-a suficientemente reconhecida?
Acho que é um processo com ramificações diferentes. Em primeiro lugar, a área do jazz não é reconhecida por um público muito amplo — é assim também noutros países. Claro que cabe também à comunidade do jazz contribuir para essa divulgação [da obra]. Obviamente entre os músicos portugueses de jazz, o Bernardo é um dos nomes incontornáveis e portanto é conhecido de todo o público interessado em jazz. Na minha perspetiva, e aqui entramos noutra das ramificações de que falava, considero que o papel da Casa Bernardo Sassetti a longo prazo deve precisamente ser o de divulgar as áreas em que o Bernardo se destacava e não exclusivamente a sua obra. Ou seja, a curto prazo acho que há uma urgência em garantir que a música dele, em si, chegue às pessoas — e isso também passa pelo tratamento do espólio, pela edição de estas obras inéditas e por outras coisas a que a Casa se tem dedicado — mas a longo prazo espero que possamos contribuir para a divulgação da música jazz, da música orquestral e da música para cinema. Dessa forma, acho que acabaremos também por contribuir para a divulgação da música do Bernardo e de outros compositores do jazz português como ele.

Queremos tentar investir em formação e na divulgação de um modo geral daquilo por que o Bernardo Sassetti se interessava. Isso enquadra-se por exemplo nesta iniciativa que temos feito de propor a diferentes músicos que interpretem a música, que não consideramos tão pura e tão intocável que não possa ser transformada por outros artistas. É isso que estamos a tentar demonstrar com o concerto anual. O ano passado, a proposta foi feita ao quarteto do Ricardo Toscano, que é um quarteto mais tradicional. Este ano o desafio foi feito ao Bruno Pernadas, que tem uma proposta [musical] muito própria, que terá um ensemble [grupo de músicos] mais extenso e que não incluirá piano, o que é logo uma transformação muito relevante. No próximo ano temos a ideia, ainda não fechada, de pegar em canções do Bernardo, chamar um cantor, chamar um letrista e transformar ainda mais a música. Depois, queremos começar a existir fora da música do Bernardo mas em nome dele, como faz a Casa Fernando Pessoa ou a Fundação José Saramago. Queremos contribuir para a cultura e para as áreas a que o Bernardo se dedicava.

Além deste disco a editar em setembro, há mais álbuns já pensados?
Há pelo menos mais um que acontecerá certamente porque temos o apoio da DGArtes para edição de dois [discos]. A nossa intenção é que seja a [música que compôs para o espetáculo que fez com a atriz e então mulher, Beatriz Batarda, inspirado em] A Menina do Mar, da Sophia de Mello Breyner — aliás, tínhamos planeado editar em 2019 por ser o centenário da Sophia. Temos este [Solo] agora com mais urgência, porque já estava previsto para o ano passado. A nossa intenção é editar o segundo até ao fim do ano. Ainda não sabemos se vamos ser capazes, mas se não for no final deste ano será no início do próximo. Temos a edição desses dois discos financiada, pelo que esses estão garantidos.

Pode dar algumas pistas sobre o que existe exatamente no espólio e por editar, além desses dois discos já referidos?
Dentro de um espólio há um volume muito grande. O apoio da DGArtes permitiu financiar a inventariação e tratamento do espólio e estamos agora a concluir a parte da inventariação, que é perceber exatamente o que é que o Bernardo Sassetti deixou. Disso fazem parte as nove gravações que temos [por editar em disco]. São concertos ao vivo que vão desde colaborações por exemplo com o Camané — um projeto que o Bernardo Sassetti teve com o Camané, Mário Laginha e Carlos Bica — a um concerto ao vivo que fez na Pala de Portugal, que à partida entrará na seleção porque tocou cerca de seis horas continuamente [nessa atuação].

Há ainda um concerto gravado do trio que ele tinha, com o Alexandre Frazão e o Carlos Barreto. E há um disco que para nós é o mais urgente a seguir a estes dois que vamos editar em breve. Talvez seja o mais especial porque é o único que ele planeou e gravou exatamente como sairá, que deixou completamente pronto. É um dos projetos que o deixou mais orgulhoso, até 2011 ou 2012 falava bastante disso: trata-se de parte da música que compôs para o filme “Maria do Mar”, de Leitão de Barros [um filme mudo de 1930]. Tinha composto a música originalmente para um ensemble mais curto mas foi trabalhando a partitura e a versão final acabou por ser para orquestra. Depois foi para estúdio e gravou essa versão final e completa com a Orquestra Sinfonietta [de Lisboa]. Esse objeto está pronto e gostaríamos de o editar em 2020, no ano em que se vão assinalar 50 anos de nascimento do Bernardo. Ainda estamos para perceber se teremos financiamento, se teremos apoio, como vamos fazer acontecer, mas quero acreditar que será possível. Além de gravações, existem ainda muitas partituras que provavelmente serão de músicas que o Bernardo não chegou a gravar e editar, que são ideias musicais. Teremos certamente muito para descobrir.

Bernardo Sassetti num concerto no Porto, em 2008 (@ Estela Silva / Lusa)

No site da Casa Bernardo Sassetti, estão listados apoios dados a esta associação cultural, que não tem fins lucrativos. Tem havido interesse de entidades públicas e privadas em apoiar a missão e os objetivos da associação?
Tendo em conta que contamos neste momento pelo menos com o apoio da DGArtes, que é um apoio público, e da Vieira de Almeida Advogados, que também apoiaram e financiaram a edição deste CD, recolhemos apoio público e privado. Em abstrato, é sempre difícil arranjar financiamento em Portugal. Não somos um país particularmente habituado à ideia do mecenato cultural. Sinto que estamos numa transição e acredito que vá mudar, mas existe muito a pergunta de “e qual é o lucro que isso vai gerar?”, em vez de [a edição] valer por si. Para nós, não só enquanto membros da Casa Bernardo Sassetti mas também enquanto artistas, há um valor inerente a esta arte que não tem necessariamente de gerar lucro. Obviamente querermos que gere, queremos é contribuir para a economia nacional, mas a nossa missão passa por tentar equilibrar os dois lados. Em Portugal ainda não há um hábito muito regular de mecenato, mas gosto de aceitar as coisas como são e jogar com os dados que tenho. Não é grave.

Além da função de diretora artística da Casa Bernardo Sassetti, que exerce desde janeiro do ano passado, teve um contacto próximo com o músico, até por motivos familiares [é filha do pianista Mário Laginha]. Há alguma coisa que ache que nem sempre é devidamente referido quando se fala do Bernardo Sassetti, quer quanto ao que era como pessoa quer em relação ao que era como músico?
Ia dizer que não há nada, mas há: é muito facilmente identificada melancolia na música do Bernardo, isso é muito mencionado, mas acho que falta mencionar o humor. O Bernardo era uma pessoa com um humor muito particular, que estava sempre presente. Quem tenha visto o Bernardo ao vivo, no momento em que ele pegava no microfone para falar isso era claríssimo. Ao mesmo tempo que tinha um lado melancólico, que era notado, tinha uma alegria e um humor profundo que acho que é muitas vezes esquecido. Até em homenagens… enquanto diretora artística estou sempre a tentar espicaçar os músicos que convido para estas iniciativas [como os concertos de recriação da obra de Sassetti] para que se libertem um bocadinho, para que não se levem demasiado a sério. A música acredito que é para ser levada muito a sério mas há muitas coisas laterais em que sei que o Bernardo brincaria. Acho que é a única coisa que falta um bocadinho às vezes nas menções ao Bernardo Sassetti: o humor que tinha.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: gcorreia@observador.pt
Trabalho

Ficção coletiva, diz Nadim /premium

Laurinda Alves

Começar reuniões a horas e aprender a dizer mais coisas em menos minutos é uma estratégia que permite inverter a tendência atual para ficarmos mais tempo do que é preciso no local de trabalho.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)