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Crítica de Livros

Ilha de Moçambique: “Cruzou-se tudo aqui”

Vasco Rosa escreve sobre o livro de Alexandre Alves Ferreira, que procura traçar a história de um espaço geográfico único, mas que não consegue evitar cair em algumas falhas.

Ana Martins Barata

Autor
  • Vasco Rosa

Título: Ilha de Moçambique: o legado português
Autor: Alexandre Alves Ferreira
Editor: Colibri
Páginas: 145
Preço: 15 €

Cristalização da aventura portuguesa doutras eras, a Ilha de Moçambique concentra na sua extrema originalidade sincrética e urbanística fixada sobre escassos 3 km2 de formação coralina, asperamente corroída pelo sol e pelo salitre, elementos de história tais, que a elevaram à categoria de património mundial da humanidade em Dezembro de 1991. A muito curta distância da costa africana oriental, foi encontrada por Vasco da Gama em Março de 1498 e desenhada no Planisfério de Cantino apenas quatro anos depois (1502), para tornar-se um decisivo posto de reabastecimento no caminho marítimo para a Índia e de volta a casa, e por causa disso comparável em valor geográfico estratégico a Goa, Macau, São Salvador da Bahia e Angra do Heroísmo. O seu papel como feitoria do tráfico esclavagista — africano, islamizado, europeu, e por esta ordem — também não pode ser ignorado, nem a sua extraordinária resistência ao assédio de holandeses, franceses e árabes que a atacaram seis vezes entre 1604 e 1793.

Tendo dominado o forte de Jesus de Mombaça em 1698, o sultão de Omã tentou debalde tomar a fortaleza de São Sebastião na Ilha de Moçambique seis anos depois (1704). Erguida a partir de 1558, no extremo norte, a imponente fortificação — cuja fundamental grande cisterna é de 1626 —, seria reconstruída um século depois por um grande contingente de criminosos sentenciados em Goa, uma decisão régia de 1652. A autonomia administrativa da ilha e colónia em relação ao Estado da Índia seria decidida, em 1756, pelo Marquês de Pombal. Promovida a cidade em 1818, deu nome e foi capital de província até 1898, quando Lourenço Marques assumiu essa função e estatuto. Em 1935 perdeu para Nampula o encargo de capital de distrito. Em 1971, o vizinho porto de Nacala, beneficiado por linha férrea, foi um “dobre de finados” para a vida comercial da pequena ilha. O “abandono quase total” (p. 39) veio com a independência e consequente guerra civil do país, depois de uma década de alguma reanimação pelo turismo, facilitada pela construção da ponte em 1967 — ambição bem antiga, que até teve um projecto inspirado na ponte preênsil do rio Douro (p. 41) mas foi várias vezes adiada —, e pela reabilitação patrimonial (a mesquita incluída) que muito deve ao governador-geral Balthasar Rebelo de Sousa, apaixonado adepto daquele recanto de mundo e que ali desejou ser sepultado.

Arquitecturas religiosa, civil e militar portuguesas acotovelam-se como podem naquele espaço confinado (há um mapa desdobrável no fim do livro) com mesquitas, cemitérios e crematório, bazares, bairros étnicos e as indispensáveis cisternas, pois a “ilha-museu” — cidade de pedra, de um lado, e cidade de caniço ou macúti, do outro — é um mosaico de culturas a que a exígua condição insular conferiu especial densidade.

Orlando Ribeiro chamou-lhe “maravilhoso búzio onde ressoam todas as civilizações do oceano Índico” (Geografia e Civilização. Temas Portugueses, ed. Terra Livre p. 198) e o fotógrafo inglês Michel Teague, que a visitou para um projecto global, haveria de escrever (Na Rota dos Navegadores Portugueses, Quetzal, 1988, p. 16; tradução de Mário Cláudio): “Com as suas casas coloridas e as suas igrejas, guardada pela grande fortaleza de São Sebastião, a Ilha de Moçambique constitui um dos mais cativantes e mais sugestivos locais de toda a costa oriental de África. Aí passei uma semana maravilhosa, gozando o belo e tranquilo ambiente. Tão pequena e aconchegada que é, pode-se facilmente atravessá-la de um extremo ao outro, com o azul cintilante do mar de coral visível por todo o lado. E compreende-se por que motivo se converteria em conhecido entreposto na rota marítima a caminho e de regresso da Índia. Ainda hoje, de facto, perdura aí uma forte incidência indiana, principalmente aflorada no estilo arquitectónico e na decoração de muitos dos edifícios”.

Este trecho não se encontra citado no livro de Alexandre Alves Ferreira, que sobretudo peca — e peca muitíssimo, atendendo ao escopo a que se propôs: “o legado de Portugal” — por deixar de lado o foto-livro de Rui Knopfli A Ilha de Próspero, impresso em Lourenço Marques no fim de 1972, e prefaciado por Alexandre Lobato, o director do Arquivo Histórico da colónia que à ilha dedicara em 1945 uma monografia histórica e um moçambicano que “pela defesa e sobrevivência da ilha se bate há mais de trinta anos, de mãos nuas e bolsos vazios e apenas com a veemência da sua prosa e da sua razão” (1972, p. 135). Mais de duas décadas depois (1989, pp. 133-34), Knopfli haveria de escrever isto: “Quando pela primeira vez veio a lume esta Ilha de Próspero, nela julgariam entrever alguns espíritos bem pensantes e, por certo, bem intencionados, uma apologia, embora elegante — terão concedido —, do imperialismo português e não a certidão de óbito em que eu o amortalhara”. Do meu ponto de vista, este foto-livro é o vértice do legado português contemporâneo da Ilha. Como subestimá-lo tanto, como fez Alves Ferreira?

Foi precisamente em Julho desse ano que Jorge de Sena, poderoso camoniano em anos recentes, visitou a Ilha de Moçambique — foi, aliás, fotografado por Knopfli na capela de Nossa Senhora do Baluarte, e A Ilha de Próspero é-lhe dedicado! — e escreveu aquele seu celebrizado, magnífico e verinoso poema (assinalavam-se quatrocentos anos d’Os Lusíadas…), aliás dedicado a Rui e a outro amigo. E isso torna a confluência destes dois ali um acontecimento de magna relevância histórico-literária, que dez anos mais tarde — outro poeta e outro camoniano, e não dos menores — Vasco Graça Moura lucidamente entendeu homenagear num poema impresso na Colóquio Letras (“Jorge de Sena na Ilha de Moçambique”, n.º 67, pp. 58-59), que Alves Ferreira também deu mostras de desconhecer, omitindo-o da breve antologia poética apensa — como fez ao poema “Ilha de Moçambique”, do nativo Alberto de Lacerda, escrito em Londres, datado de 1958 e incluído em Palácio (Delfos, 1961, p. 60).

Se não se entende que tenha reduzido a um único poema a transposição dessa obra-prima de Knopfli (Pedro Mexia elegeu onze para Nada Tem já Encanto. Poemas escolhidos, Outubro de 2017, 248 pp.), menos ainda se aceita que tenha perdido a oportunidade — para não dizer o óbvio compromisso enquanto autor — de cotejar a edição de 1972 com a de 1989 (Edições 70, de Lisboa), e deste modo discutir o contraste entre dois tempos históricos portugueses aí bem exposto num fortíssimo testemunho do poeta-fotógrafo, que tendo mudado o subtítulo de Roteiro privado para Roteiro poético deu ao seu livro o sentido e a força de um testamento político. “Fosse hábito apor novos tributos a edições subsequentes — escreve a p. 136 — e este livro teria sido dedicado àqueles a quem a mais estúpida das arrogâncias apelidou de retornados. […] apenas me resta concluir que, primeiro africana, depois moura, a Ilha de Moçambique permanecerá, no seu avaro hieratismo, monumento singular à espantosa aventura portuguesa. Nossa, também, portanto”.

Também causa invulgar perplexidade — ou um esgar quase caricatural — que num livro que supostamente pode ser, ou quer ser, uma referência no assunto (atendendo, até, à rarefacção bibliográfica), os verbetes do arquitecto José Manuel Fernandes sobre a Ilha para o volume África, Mar Vermelho, Golfo Pérsico (2010) da obra Património de Origem Portuguesa no Mundo, dirigida por José Mattoso para a Fundação Gulbenkian, com toda a informação útil e análise que comportam, sejam simplesmente ignorados (e estão disponíveis em-linha), até como módico registo bibliográfico. E outro tanto sucede com Viagem. Ilha de Moçambique, que resulta duma verdadeira “missão estética” empreendida por Francisco Laranjo, Júlio Resende, Armando Alves, Zulmiro de Carvalho e outros, que teve exposição no Porto em 2003 e livro lançado em Julho de 2004, onde sobressaem escritos de Mia Couto, biólogo ocasional na Ilha de Moçambique, e de Paulo Dentinho, então correspondente da RTP em Maputo. Ou o insistente trabalho da fotógrafa Moira Forjaz, que em Novembro do ano passado lançou na capital moçambicana o álbum Ilhéus / Islanders, três anos da edição sul-africana de Mozambique 1975-1985, onde imagens de Muipiti (Imprensa Nacional, 1983) reaparecem com muito melhor impressão e são acompanhadas de testemunho biográfico da autora, que ali viveu em 2012.

São falhas inesperadas, que colocam nódoas feias num trabalho generoso de recolha de fontes e de sistematização histórica, que notoriamente faltava e talvez possa vir a ser melhorado e rectificado em futura reedição, para benefício de quem ali vá, atento  — como num poema de Próspero — à “grande dor das cousas que passaram” e à “doçura árabe | destes rostos, o mistério nocturno destes corpos | a saberem a canela e maresia”.

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