O cirurgião Gentil Martins considera que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem de compensar os profissionais pelo seu esforço, trabalho e competência e investir na saúde que é “cada vez mais cara”.

“Pagar a todos igual, trabalhem muito ou pouco, não tem sentido nenhum. Em qualquer profissão, a pessoa deve ser compensada pelo seu esforço, trabalho e competência e no SNS isso não existe”, afirmou o médico em entrevista à agência Lusa a propósito dos 40 anos do SNS, assinalados a 15 de setembro.

Por isso, “não admira que as pessoas não estejam interessadas em ir para serviços do Estado e isso está a degradar-se”. Exemplo disso são as mais de 350 vagas que ficaram por preencher no último concurso de recrutamento de médicos para o SNS, exemplificou.

“Se os profissionais emigrarem ou forem para o privado têm melhores condições de trabalho e de remuneração”, disse, questionando: “quem é que vai escolher uma remuneração baixa, tendo uma remuneração alta ao lado”.

Para Gentil Martins, 89 anos, não vale apenas dizer aos médicos que trabalham “muito bem”, é preciso dar-lhes “boas condições” e equilibrar a remuneração com o privado para “não haver uma grande diferença”.

Mas, ressalvou, “os médicos não são trabalhadores a sindicalizar como quaisquer outros. Os sindicatos limitam-se, e bem, a defender os seus filiados, mas os médicos (e a sua Ordem), para além de defenderem os médicos, devem também defender os doentes”. “Não serão assim nem melhores nem piores do que quaisquer outros profissionais, mas devem ser, seguramente, diferentes”, sustentou.

Gentil Martins também defendeu um maior investimento no setor, considerando que se está a “gastar pouco” com a saúde: “somos o país em que o cidadão gasta mais com a saúde em percentagem daquilo que ganha”. Por isso, “deixemo-nos de fantasias, vamos ver o que se está a fazer lá fora”, em países como a França e a Alemanha que têm um sistema basicamente de convenção, “e vamos procurar cumprir da maneira que cubra o máximo da população”.

O que se pretende é que “a grande maioria tenha todos os benefícios e não como se está a assistir agora em que há um grupo privilegiado e um grupo cada vez com menos”.

“Hoje sabemos mais do que sabíamos felizmente, mas o facto é que não podemos dar sempre tudo a todos porque não é possível. A árvore das patacas já não existe”, afirmou o médico que realizou mais de 12 mil cirurgias, entre as quais a separação de sete pares de gémeos siameses. Por isso, “só podemos dar aquilo que de facto podemos, mas vamos dar o máximo. Eu, como médico, tenho que dar o máximo que puder, mas o político tem que decidir até onde pode ir”.

O político “não pode dar tudo, isso é muito bom eleitoralmente, mas não é verdade. Portanto, vamos falar com verdade e vamos mudar o sistema porque o sistema atual não vai lá”.