A qualificação para a final do triplo salto do Campeonato do Mundo que se está a realizar em Doha teve sensações distintas entre a comitiva nacional, com Pedro Pablo Pichardo a ter uma estreia de sonho em grandes provas por Portugal conseguindo o apuramento logo à primeira tentativa e Nelson Évora a falhar por sete centímetros (16.80) a entrada entre os 12 atletas que acederam a uma das decisões mais aguardadas deste domingo. Aí, sobrou mais frustração: depois de ter estado sempre na zona de medalhas até à última série de saltos, entre o segundo e o terceiro lugares, o luso-cubano foi ultrapassado por Zango, falhando o pódio por quatro centímetros.

Mas o primeiro salto do Pichardo funcionou como uma espécie de cartão de visita para o concurso: depois do 17.38 que lhe valeu a qualificação direta para a final, o saltador começou o concurso com 17.49, marca que ficou a quatro centímetros da sua melhor marca do ano (Liga Diamante em Londres) e que na primeira série foi apenas superada pelo americano Will Claye, outro dos grandes favoritos ao pódio (17.61). Entre outros nomes sempre a ter em conta, o americano Christian Taylor e o azeri Alexis Copello fizeram nulo e o burquinês Hugues Fabrice Zango ficou-se pelos 17.18, atrás do cubano Cristian Nápoles que conseguiu um recorde pessoal (17.36).

No arranque da segunda série, Will Claye, que procurava o seu primeiro título mundial de sempre (foi prata em 2017 e bronze em 2011 e 2013, entre duas pratas e um bronze olímpicos entre 2008 e 2016), reforçou a liderança da final melhorando a sua marca para 17.72, ao contrário de Pichardo que não passou dos 17.28. De resto, Cristian Nápoles melhorou mais dois centímetros o seu máximo pessoal (passando para 17.38) mas Zango confirmou o seu bom momento e saltou para a terceira posição com 17.46. Copello voltou a fazer nulo e Taylor também não esteve melhor, o que deixava dois dos favoritos (em especial o americano, bicampeão olímpico e mundial em título que chegava a Doha com a melhor marca do ano em 17.82) sem grande margem de manobra.

Dentro deste cenário, o terceiro salto seria aproveitado para quem não tinha pressão poder arriscar uma melhoria da marca e quem não podia falhar fazer um registo que permitisse passar para as últimas três tentativas. Claye foi o primeiro mas não passou de 17.53, enquanto Nápoles arriscou tanto que fez um salto nulo. Seguia-se Pichardo, que repetiu os 17.49 que tinha conseguido na abertura do concurso para consolidar à condição o segundo lugar, à espera do que os rivais diretos pudessem: Copello redimiu-se dos dois nulos para chegar à quinta posição com 17.10; Zango não passou dos 17.29; e Taylor subiu para o quarto posto, chegando aos 17.42.

Os chineses Ruiting Wu (16.88) e Yaoqing Fang (16.65), o turco Necati Er (15.62) e o brasileiro Almir dos Santos (15.01) foram os quatro atletas “cortados” da derradeira fase, que confirmou a melhoria de Christian Taylor: o americano chegou aos 17.86 e passou a liderar o concurso com 14 centímetros a mais do compatriota Claye, que na resposta chegou aos 17.74 deixando pelo menos um sinal de que poderia ainda discutir a vitória, passando Pichardo para a terceira posição apesar de ter superado amplamente a melhor marca pessoal do ano (17.62).

O concurso parecia ter finalmente partido em objetivos distintos: Christian Taylor, que melhorou a sua marca para 17.92 à quinta tentativa (naquele que se tornou o melhor registo pessoal de 2019), tentava assegurar o tricampeonato mundial consecutivo e tinha no compatriota Will Claye o grande adversário (que repetiu o 17.74 no penúltimo salto), ao passo que Pedro Pablo Pichardo ocupava a terceira posição com mais uma boa tentativa (17.60) olhando para aqui que Zango (17.56, recorde nacional) e Copello (novo nulo, o quarto em cinco saltos) conseguiam fazer na ponta decisiva da final do triplo salto. E foi aí que tudo acabou por mudar: Zango melhorou de novo o recorde nacional do Burquina Faso e de África, chegou aos 17.66 e conquistou a medalha de bronze, deixando Pichardo a quatro centímetros apenas do pódio no triplo salto.