Título: Rashomon e Outras Histórias
Autor: Ryunosuke Akutagawa
Editora: Cavalo de Ferro
Ano da Edição: junho de 2019
Páginas: 360
Preço: 19,99€

O livro foi publicado em junho, pela editora Cavalo de Ferro

Talvez seja útil começar esta crítica com um aviso: apesar desta obra ter sido originalmente escrita em japonês, a versão portuguesa é uma tradução da versão inglesa; ou seja, estamos perante uma tradução de uma tradução. Ainda que para alguns isto possa parecer de pouca importância, é algo que não pode deixar de ser sublinhado. Afinal de contas, uma tradução também é um ato de interpretação, e como tal, esta edição portuguesa coloca o leitor a alguma distância daquilo que pode ser considerado o “original”.

Independentemente da qualidade da tradução, o perigo de deturpação do texto aumenta à medida que nos afastamos da língua de Akutagawa, e o livro entra assim numa espécie de jogo literário do “telefone estragado”. Há que dizer, no entanto, que o leitor é desde cedo avisado, numa das primeiras páginas, que não está perante uma tradução direta. Pelo menos não vai ao engano. Mas sigamos para o livro.

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Rashomon e outras histórias é uma antologia de contos da autoria de Ryunosuke Akutagawa, escritor japonês do início do século XX. Nascido e criado em Tóquio, num Japão cada vez mais aberto à cultura e estilo de vida ocidentais, Akutagawa desde cedo demonstra interesse pelos autores europeus. Para além das influências literárias, a sua infância também é marcada pelo estado mental da mãe, que é internada pouco depois de Akutagawa nascer. Já perto do fim da sua vida, o próprio autor debate-se com um estado mental débil, levando ao suicídio com apenas trinta e cinco anos.

Modernista, Akutagawa coloca os seus personagens em confronto consigo mesmos, o “eu” percetível a olho nu, o que se apresenta à sociedade, em oposição ao “eu” subjacente, que vem à tona quando os alicerces mentais e sociais tremem ou desabam por completo. Contexto físico e psicológico exercem força igual sobre a existência humana, ignorando classe e género, forçando os indivíduos a mostrarem-se como são. Serão, no entanto, eles próprios a decidir se o farão de forma pacífica ou forçada.

Nesta edição estão reunidos dezoito contos, agrupados em quatro partes: três períodos importantes da história do Japão, e uma quarta parte contendo textos autobiográficos, velados de ficção. Esta divisão é editorial e temática, não autoral. No entanto, o leitor conseguirá, se quiser, ler os contos pela ordem em que foram escritos (a data de publicação encontra-se no fim de cada conto), acompanhando assim a evolução da escrita de Akutagawa, percebendo que o conto altamente narrativo se vai transformando em introspetivo.

A primeira parte, intitulada “Decadência”, abrange o período Heian (794-1185), conhecido por ter sido uma altura tanto de paz como de opulência. No entanto, é a fase final deste período que interessa a Akutagawa, aquando da mudança de poder da aristocracia para a classe militar, e o declínio da Idade de Ouro do Japão. Esse declínio é bem patente na primeira história, “Rashomon” (que mais tarde dará nome a um famoso filme de Akira Kurosawa), onde assistimos ao tal confronto entre o “eu” social e o “eu” interior, resumido na premissa: “Ou morro à fome ou torno-me um ladrão”. Em poucas páginas, o protagonista viaja entre estes dois polos, sendo que a decisão final não aparece devido à ponderação filosófica, mas sim às necessidades práticas do mundo à sua frente (aqui mais uma faceta da abertura ao Ocidente, neste rasgo de materialismo marxista).

Os restantes contos reunidos nesta parte são muito diversos, e abordam temáticas variadas. Há, no entanto, uma preponderância do fantástico, até porque Akutagawa adapta e atualiza material literário e folclórico da época. O divino, ou o infernal, entra sempre em contacto com o humano, nem sempre com os melhores resultados. A classe sacerdotal não é de todo vista com bons olhos, sendo os seus representantes nestes contos pessoas de caráter dúbio, preocupados mais com o físico do que com o espiritual. No conto “O Biombo Infernal” encontramos uma espécie de ensaio sobre o processo de criação artística, com contornos semi-lovecraftianos e um fim digno dos filmes de terror mais assombrosos.

A segunda parte, “Guerra”, ocorre durante a presença já bem estabelecida do cristianismo no Japão, levado pelos portugueses no século XVI. Este é o período Edo (1600-1868), dominado pelos xoguns Tokugawa, burocratas guerreiros que instituíram um regime feudal centralizado, e fizeram também uma perseguição feroz aos cristãos. São estes os temas presentes O divino continua presente, mas já não é o divino folclórico de um Japão antigo, mas sim o monoteísta vindo da Europa. Toda esta parte talvez se torne ainda mais interessante para um leitor português, pelas razões óbvias. Ler sobre uma família japonesa cujos nomes foram aportuguesados devido à cristianização tem o seu quê de ternurento.

“Dr. Ogata Ryosai: Memorando” faz lembrar as descrições de milagres inscritas no livro bíblico “Atos dos Apóstolos”, ou nas epístolas de Paulo, só que desta vez é descrito do ponto de vista de um não-crente. O fervor religioso cristão contrasta com a frieza científica, pouco dada a misticismos, mesmo quando o sobrenatural se encontra à sua frente. Em “O-Gin” só encontramos fervor religioso de ambos os lados, o que leva à aparente desgraça de uma família de japoneses convertidos ao cristianismo, numa cena quase reminiscente dos cristãos mortos em Roma. Mas Akutagawa subverte as expectativas, e em vez do clímax esperado, de onde surgiriam novos mártires, o anti-clímax de um pacto de suicídio espiritual.

A terceira parte, “Tempos Modernos”, acompanha o Japão que Akutagawa conheceu, desde o fim do século XIX até o fim da década de 20 do século seguinte. Como já foi referido acima, esta é uma época em que o Japão se abre ao mundo e se moderniza, o que causa um choque entre a cultura tradicional e a ocidental. Esta parte da obra mostra um Akutagawa mais modernista e a par com os seus colegas europeus. Um exemplo disso é o facto dos protagonistas já não serem membros das classes mais altas, mas sim das classes média e baixa.

Em “Alhos Porros” acompanhamos uma jovem empregada de mesa, adorada por todos os clientes, e que vive feliz no seu mundo recheado de atrizes de Hollywood, galãs de romances e paixões proibidas. Vive tão feliz na sua bolha que a sua própria miséria lhe passa ao lado. Como é óbvio, a vida não lhe permitirá viver muito mais tempo nesse mundo idílico. Não será, no entanto, nenhuma tragédia, nenhuma desilusão de amores, aquilo que a fará assentar com os pés na terra. Será a consciencialização do banal, do corriqueiro. Bastarão alhos porros.

No conto “Patas de Cavalo”, Akutagawa experimenta uma escrita que levará muitos críticos a compará-lo com Kafka. Aqui dá-se uma transformação corporal, não de homem em inseto, mas de pernas de homem para pernas de cavalo. O homem a quem isto acontece, um banal funcionário de uma fábrica automóvel, vai tentando manter a sua humanidade, à medida que a sua metade de cavalo tenta tomar conta. Ao absurdo da situação junta-se a mais básica das lutas humanas, a luta contra o animal interior que a cada momento tenta aparecer.

A quarta e última parte, “Vida Real”, coleciona os contos autobiográficos de Akutagawa, que vão desde a sua infância e juventude (“Daidoji Shinsuke: os primeiros anos”) até às semanas e dias que antecedem o seu suicídio (“A Vida de um Homem Estúpido”). A este conjunto de histórias autorreferenciais, quase se pode dar o nome de “Retrato do Artista Enquanto Jovem”, pois de facto trata-se de uma narrativa de coming of age do autor. Ainda há uma tentativa nos primeiros contos de afastamento de si próprio, dando outro nome à personagem que é ele próprio. Mas rapidamente essa barreira cai, e Akutagawa apresenta-se completamente ao leitor. Por ter tido uma vida tão curta, estas histórias mostram o seu início, meio e fim, contada em primeira mão, com acesso aos desejos, medos, alegrias e incertezas mais fundas. Nesse sentido, são textos essenciais para se perceber a psique humana, principalmente a psique de alguém tão atormentado como Akutagawa.