Título: Branco
Autor: Bret Easton Ellis
Editora:
Páginas: 288

Bret Easton Ellis, autor de Psicopata Americano, regressa à escrita passados quase dez anos da publicação do seu último livro. Apresenta-nos pela primeira vez uma obra não-ficcional, onde reúne alguns dos seus escritos publicados em várias plataformas ao longo dos anos. Esta é uma autobiografia ensaística, onde memória e opinião se interlaçam, num estilo que tem tanto de apologético como de condenatório. Ellis não segue uma linha cronológica específica, mas vai buscando memórias suas consoante precisa ilustrar um ou outro ponto, para poder demonstrar como o presente se apresenta muito pobre quando comparado com o passado da sua juventude.

É nesta crítica à contemporaneidade, especialmente aos millennials e aos meios de comunicação americanos, que se centra toda a obra. A vontade de agregar opiniões pondo de parte quem não pensa como eles, a incapacidade de pensar pela própria cabeça, uma extrema necessidade de validação e reconhecimento identitário, e um constante processo de vitimização são alguns dos traços característicos de uma geração que o autor denomina, em tom provocatório, de “mariquinhas” (também Clint Eastwood irá usar uma expressão semelhante para criticar os millennials).

Para fazer esta análise, Ellis vai basear-se em quatro elementos fundamentais: na sua experiência no Twitter, na sua relação amorosa com um millennial, nos média contemporâneos, e nas conversas que vai tendo com vários elementos da nata Hollywoodesca e nova iorquina (já agora, um jogo interessante para se fazer ao ler este livro é contar a quantos jantares Ellis vai com gente extremamente bem-sucedida; se perderem a conta é normal). É discutível poder chegar-se a uma conclusão tão forte sobre o mundo que nos rodeia quando apenas se tem este tipo de elementos como fonte.

Extrapolar qualquer verdade social sobre uma geração através de reações no Twitter será tão fiável como fazer sondagem eleitoral através das caixas de comentários do Facebook. Não perceber que os média, na tentativa de ganhar mais visualizações e público, estão dispostos a noticiar e apoiar qualquer tipo de luta ou campanha, ou de fabricar uma, nada tendo a ver com uma escolha ideológica, é de uma ingenuidade gritante. E se o nosso círculo de amigos e conhecidos se esgota na elite artística americana, não podemos esperar entender como se comporta toda uma geração. É complicado criticar a bolha em que os outros vivem, quando não conseguimos perceber aquela onde nós estamos.

Segundo Ellis, este comportamento millennial teve o seu clímax em 2016, altura em que Trump é eleito presidente dos Estados Unidos, contra as previsões de toda a esquerda liberal americana. Ele vai descrevendo como as reações dos autoproclamados progressistas são altamente desproporcionais e exageradas, mais uma vez sinal da incapacidade de lidar com uma opinião contrária. Para piorar a situação, estes sentimentos de repulsa em relação a Trump vêm, não de um sincero sentimento de preocupação pelo país, mas sim de um sentimento de superioridade que a elite urbana tem sobre uma fatia da população que, farta do politicamente correto vigente na política e nos média americanos, quis ver alguém autêntico e disruptivo na Casa Branca.

Talvez seja importante nesta altura referir que para Ellis, enquanto artista, o valor estético se sobrepõe ao valor ideológico, e que por isso, outro grande pecado da geração millennial é a tendência de querer imbuir tudo com ideologia. Isto é importante pois o autor vê na tal irreverência de Trump algo de esteticamente atraente, ainda que não concorde com muitas coisas que ele diga. O simples facto de Trump não ter vergonha ou medo de dizer coisas que o coloquem na mira dos meios de comunicação confere-lhe uma aura de herói do pensamento próprio e individual. Falta saber o que tem de esteticamente interessante alguém que faz comentários claramente racistas, xenófobos e machistas. Pena que Ellis não se pronuncie sobre o conteúdo dos discursos de Trump, o que talvez fosse mais interessante. É como olhar para um quadro e dizer que a moldura está bonita, sim senhor.

Em contraste com toda esta realidade contemporânea temos o elogio dos anos 70 e 80, e do conjunto de jovens que a viveu, a chamada Geração X, à qual ele pertence. Esta, segundo ele, é uma geração de pessoas que soube lidar com as amarguras da vida, que não se desfazia à mínima contrariedade, e que sabia usar o seu próprio sofrimento para se erguer e tornar mais forte. Esta é uma altura marcada pelo niilismo e a transgressão, principalmente nos meios citadinos de Los Angeles, onde cresceu Ellis, e Nova Iorque, para onde foi cedo viver. Parte de ser um jovem artista neste meio é reconhecer o quão vazio é o estilo de vida que se conforma com a sociedade, a high life, a Wall Street.

É aqui que o livro brilha. Hoje em dia vivemos numa altura de revivalismo dos anos 80, em grande parte graças a séries como “Stranger Things” ou “The Goldbergs”. Os anos 80 deste revivalismo aparecem-nos sempre muito coloridos, cheios de música pop, com penteados extravagantes e adolescentes a andarem em carros estilosos. Ellis relembra uma outra versão dos anos 80. Uma versão mais sombria, mais deprimente, porque mais crua e realista, sem o glamour do suburbano, com toda a sujidade da cidade. Ele não nos fala do sonho americano, mas do desconstruir desse sonho. Nas suas memórias, o autor recoloca-nos na realidade e na sua estética (aqui sim) muito própria, no mundo do abuso de drogas e da promiscuidade sexual. É na descrição do seu passado que ele passa de um rabugento que olha com desdém para a nova geração para um artista que consegue olhar para o mundo como ele é porque se move nos seus níveis mais baixos. É pena que passe tão pouco tempo nas suas memórias.

Ainda que não esteja completamente desprovido de razão em alguns pontos, nesta obra Bret Easton Ellis é tudo menos irreverente ou disruptivo, pois limita-se a papaguear o que já muitos atrás dele disseram. Apesar de tentar passar, ao longo do texto, uma imagem de alguém que usa a objetividade e a razão para abordar este tema, Ellis não consegue fugir de um tom que por vezes roça o apocalíptico, qual avô conservador que acha que o mundo está por um fio quando o neto aparece com um brinco na orelha, ou neste caso, quando grita por uma injustiça em vez de seguir passivamente em frente.

Não nos podemos esquecer que um dos passatempos preferidos dos iluminados desta vida é discorrer longamente sobre como os millennials, geração da qual eu faço parte, são uns frustrados, fascistas, comunistas, mariquinhas, sensíveis que não sabem aceitar uma crítica. Entretanto cá vamos andando, a viver como podemos, num mundo que cada vez pede mais de nós, e que em troca pouco oferece.