É um dos artistas portugueses mais destacados e premiados, dos mais conhecidos da atualidade, um dos principais artistas da sua geração. As fórmulas utilizadas em catálogos, entrevistas e notas biográficas para descrever Pedro Cabrita Reis dão quase todas um lugar privilegiado a este artista visual nascido há 63 anos no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, e com um currículo vasto onde cabe a representação de Portugal na Bienal de Veneza em 2003. Por estes dias, ele encontra-se no Porto, onde inaugurou duas exposições, e foi a partir daí que falou ao telefone com o Observador, acabando por explicar que os pequenos prazeres da vida também participam na criação artística.

As exposições inauguradas são “Cabrita – Um Olhar Inquieto“, no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, e “Faianças Brancas“, na Galeria Pedro Oliveira, ambas abertas ao público desde quarta-feira (imagens no topo desta notícia). A primeira mantém-se até 22 de março do próximo ano, enquanto a segunda vai até 11 de janeiro. Em ambos os casos, o artista surge identificado simplesmente como Cabrita. É a primeira vez que isso acontece, desde que começou a expor, em 1981. Será que, de repente, mudou de nome? Tudo indica que sim.

“O Pedro Cabrita Reis está cheio de saúde e vivacidade, continua a gostar dos seus amigos e também de alguns dos seus inimigos”, começou por responder, no tom irónico que lhe é característico. Acrescentou em seguida uma explicação mais demorada.

“O trabalho de um artista ao longo da trajetória de vida é no sentido de depurar e encontrar o núcleo forte, o centro vital de onde nasce a força da obra e hipoteticamente a sua qualidade”, apontou. “O nome próprio e as palavras que nomeiam a realidade, pedras, pessoas ou nuvens, são uma convenção de entendimento e estão sujeitas a um exercício de despojamento, para apurarem o seu sentido. Já fiz tudo o que tinha a fazer na criação artística, uma vezes melhor, outras não tão bem, mas sempre numa trajetória de depuração, numa ambição de aperfeiçoamento qualquer, através do progressivo abandono das coisas que se foram revelando não importantes.” E isso agora chegou ao nome.

O facto de afirmar que já fez o que tinha a fazer não significa que esteja a pensar sair de cena. “Tenho enorme prazer em ser o que fui, sou e serei, e não tenho outra forma de estar na vida que não seja ser artista”, comentou. Provavelmente, este é apenas o ponto de partida para outra fase da vida, se bem que o criador não saiba ainda precisar qual. “Cabrita é Pedro Cabrita Reis e mais outra coisa qualquer”, acrescentou, em tom enigmático.

“Revisitação caótica”

A exposição na Galeria Pedro Oliveira resulta de uma amizade de 40 anos entre o galerista e o artista e do gosto que ambos nutrem pelas “artes menores ou artes decorativas”, na expressão do próprio Cabrita. “Tenho inclinações,  às quais não fujo, para a prática da cerâmica e da criação de objetos de vidro”, resumiu. No último verão, esteve na fábrica Bordallo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, e “por puro prazer pessoal” fez um conjunto de faianças, que agora surgem na galeria portuense.

Quanto a “Cabrita – Um Olhar Inquieto” (ou, em inglês, “Cabrita – A Roving Gaze”, como também surge identificada) marca o regresso do artista a Serralves, duas décadas depois da abertura do museu portuense, onde então mostrou “Da Luz e do Espaço”, com curadoria de Vicente Tódoli e João Fernandes. Agora a exposição é comissariada por Marta Moreira de Almeida, diretora-adjunta da instituição.

Em concreto, trata-se de uma instalação composta por 100 estruturas metálicas que sustentam objetos, documentos e materiais. Abarca a ala esquerda do edifício do museu, num total de 1500 metros quadrados, repartidos por quatro salas e alguns corredores. Sobre os 100 painéis estão colados, agrafados ou aparafusados objetos tão díspares como tijolos, um aparelho de ar condicionado, um cesto de palha, garrafas, uma roseira viva num vaso, limões, laranjas, partes de automóveis, restos de uma mesa de madeira, fotografias, pinturas, desenhos.

“Convoca-se nesta obra única uma multiplicidade de momentos e coisas, é uma revisitação intensa, labiríntica e caótica de um conjunto de referências que fui encontrando e guardando ao longo dos anos, porque sabia que mais cedo ou mais tarde quereria fazer uma obra desta natureza”, explicou Cabrita, destacando que o visitante é convidado a fazer um périplo pelos painéis sem orientação determinada e sem hierarquia de valor entre eles. Na suas palavras, é “um convite ao visitante para um caminho sem destino”.

Só o tempo poderá dizer se esta obra tem qualidade, disse o artista, que ambiciona com ela atingir a “obra de arte total”, que junta várias linguagens e leva à imersão total do público. “Não sou o único na história de arte com esta ambição. A expressão vem do fim do século XIX, com o romantismo alemão, o Wagner, etc., e marcou toda uma escola de pensamento. É ainda um fim a alcançar para muitos criadores”, referiu.

Charutos, vinhos e passeios

Conhecido por tirar do lixo ou de amontoados de entulho os objetos que depois utiliza na suas obras, diz-se “totalmente curioso e atento” ao que o rodeia, “estimulado por aquilo que ao caso da vida de todos os dias” vai encontrando. Seja um objeto velho na rua, sejam conversas que escuta ao acaso, seja a projeção da sombra de uma varanda sobre um edifício.

Essa curiosidade particular por sobras e detritos parece advir da enorme sensibilidade do artista. Mas ele também costuma ser descrito como criador ligado à força bruta, talvez pela sensação provocada por algumas das suas esculturas maciças. Há nisto contradição? Uma vez mais, Cabrita socorreu-se de vocabulário elaborado e dissertou sobre o valor das palavras.

“A palavra ‘sensibilidade’ parece ter hoje um sentido negativo, porque aparentemente pretende enunciar um significado próximo de uma qualquer histeria ou fragilidade mental, decorrente de um modelo romântico. Aceito a utilização da palavra no sentido em que a sensibilidade do artista é uma forma de inteligência em permanente laboração, a qual atribui importâncias diversas às coisas que virão a ser recuperadas para o trabalho e redimidas da sua qualidade de lixo abandonado. Ao recolher na rua coisas de que outras pessoas se desembaraçam, acho que estou a apanhar pedaços da vida de pessoas que jamais conhecerei, coisas que para mim são luzes, com histórias e sentidos. Compete-me enquanto artista reutilizá-los numa nova dimensão”, pormenorizou.

Cabrita é formado em pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e tem origem algarvia, mas nasceu e vive em Lisboa — nasceu em casa, como gosta de referir. Mantém desde há cerca de 20 anos um atelier na zona de Marvila, onde também mora. Gosta de estar perto do rio Tejo, que classifica como “a melhor parte de Lisboa”.

Do outro lado do telefone, garantiu estar a saborear um charuto, acessório que há muito o caracteriza. “Sempre tive da vida uma perspetiva e um uso de índole hedonista, no sentido clássico do termo, não no sentido de superficialidade”, comentou. “O hedonismo é uma harmonia de vida. Para uns, isso passa pelo desporto, pela contemplação interior, pelo cozinhar em casa para si, para a família ou para os amigos. Para mim, passa por fumar charutos, beber bons vinhos e andar a passear com as pessoas de quem gosto ou no campo com os meus cães.” Estes prazeres ajudam-no na criação artística. Aliás, “tudo na vida de um artista é criação, não há qualquer hiato entre o ato de criar e o facto de viver”, afirmou.