Ela nem esperava muito do Natal, só havia uma coisa de que ela precisava. Nem estava muito preocupada com as prendas, espalhadas debaixo da árvore de Natal. E apesar disso, e de Mariah Carey alegadamente só ter um desejo festivo, aquele que por esta altura já está toda a gente a cantarolar, acabou por conseguir muito mais do que isso – 25 anos depois de lançar o disco que continha o single “All I Want for Christmas Is You”, ela continua a ser a Rainha do Natal.

A cada ano que passa, o desafio é, na verdade, conseguir atravessar a época natalícia sem ouvir a canção em algum lado, missão que implicaria, durante cerca de três meses, não ligar o rádio, não entrar em estabelecimentos comerciais e não frequentar redes sociais em geral. O mais provável, portanto, é que, se ainda não a ouviu até agora, isso esteja prestes a acontecer. É não oferecer resistência e aceitar que está perante um clássico que já se tornou inquestionável.

A situação tornou-se ainda mais definitiva agora, em 2019, com o aniversário redondo dos 25 anos, data que já se traduziu na edição do álbum Merry Christmas 25th Anniversary Deluxe Edition, que inspirou o mini-documentário “Mariah Carey is Christmas!”, anunciado esta semana pela Amazon Music para contar toda a história do hit, e que fez com que o single escalasse até ao cimo do top da Billboard mais cedo do que nunca, logo a 1 de Novembro. Nada mau para uma música que, de acordo com a Business Insider, já tinha rendido mais de 60 milhões de dólares (sem contar com concertos e com os lucros das plataformas de streaming) desde o lançamento, em 1994, até ao Natal de 2018. E a contagem continua.

Com todos os seus mitos – as árvores e gambiarras que Mariah Carey terá levado para estúdio para se inspirar durante a gravação, a cabra inglesa que encheu as notícias em 2010 por comprovadamente produzir mais leite enquanto ouvia a música em loop, ou a falta de fé do seu parceiro de composição, Afanasieff, nas brincadeiras vocais que a cantora fez questão ainda assim de manter –, e com todos os recordes que vai batendo – é já oficialmente a música de Natal com mais downloads da história –, “All I Want for Christmas is You” vai-se tornando tão essencial para as festas como o bacalhau, a árvore ou as barbas brancas e o barrete vermelho.

Havia Natal antes de “All I Want for Christmas Is You”?

Um clássico é um clássico ainda antes de o ser. Talvez seja esta uma das formas possíveis de estabelecer o que é o cânone (no caso, o cânone natalício). A maioria de nós viveu muitos Natais antes de Mariah Carey se tornar a Mãe Natal do mundo, mas a longevidade de um verdadeiro hit tem mais a ver com apagar a memória da sua ausência no passado do que com garantir presença no futuro, essa entidade impalpável.

Basta pensar assim: também há quem tenha vivido Natais sem o “Last Christmas”, dos Wham, e sem o “Do They Know It’s Christmas”, da BandAid, e até mesmo sem “Jingle Bells” ou “Santa Baby”, e por aí fora. A nível mais local, é quase certo que tenha existido Natal antes dos concertos do Coro de Santo Amaro de Oeiras. Mas todo esse tempo de trevas foi apagado pela certeza absoluta de estas músicas existirem desde sempre. E esse é um dos grandes milagres natalícios de Mariah Carey: criar um original que, desde o início, tem sabor a clássico.

Tudo parece ter começado com uma intenção simples: fazer um disco inspirado pelo álbum de 1963 A Christmas Gift for You from Phil Spector. Hoje em dia, e sobretudo em Portugal, este nome pode não dizer muito à maioria das pessoas. E na época em que foi lançado também terá sido um flop de vendas. Mas basta dizer que foi neste álbum que nasceram êxitos como “Santa Claus Is Coming to Town”. E que Mariah Carey queria fazer o mesmo – mas nos anos 90.

[o álbum “A Christmas Gift for You”, de Phil Spector:]

Depois dela, a porta dos clássicos de Natal parece ter-se fechado para sempre. Já lá vão 25 anos e nenhuma canção posterior conseguiu ascender ao panteão dos hits da época. E não tem sido por falta de vontade – os Anjos, com o saudoso “Nesta Noite Branca”, que o digam. Justin Bieber tentou (“Mistletoe”), Adriana Grande tentou (“Santa Tell Me”), os The Killers tentaram (“A Great Big Sled”), até Lady Gaga tentou (“Christmas Tree”), mas o nosso sapatinho continua sem ter um grande êxito natalício do século XXI.

[“Nesta Noite Branca”, Anjos e Susana:]

Harmonia nostálgica + Natal dos Crescidos – Religião = Fórmula de Sucesso

Se houvesse uma fórmula exata para criar um novo grande êxito natalício, Mariah Carey seria a atual detentora do segredo e da chave para entrar nas playlists da Lapónia. Segundo a própria, o ingrediente base é muito acessível: “Escrevi a música simplesmente por amor ao Natal e por adorar músicas de Natal desde criança”, disse em 2015 no programa Good Morning America. E a verdade é que, em 1994, quando quis fazer o disco, as pessoas à sua volta esperavam mais uma tragédia do que uma glória – incluindo o marido, Tommy Mottola, dirigente da Sony, que deixou esse desabafo registado no seu livro de memórias (apesar de aparecer no videoclipe vestido de Pai Natal).

Há quem tente perceber o segredo de “All I Want for Chrismas Is You” de forma quase científica, como nesta teoria sobre a letra apresentada por Tynan Sinks, jornalista de lifestyle, à revista Time:

“Ela escreveu de facto esta música. Não é de doidos? Soa tanto a um clássico que as pessoas pensam que é uma cover, mas é um original. Ela sentou-se um dia e inventou o Natal.”

Em 2015, a revista Slate esmiuçou o poder quase mágico de pôr toda a gente em sintonia com a época a partir da harmonia, que terá cerca de 13 acordes diferentes, incluindo um muito específico, subdominante, que a revista define como “o mais natalício de todos os tempos”, e que se encontra noutros clássicos, como “White Christmas”.

A revista Quartz, através do musicólogo Nate Sloan, aprofunda ainda mais esta análise técnica, referindo a presença de uma estrutura musical antiga, que Carey terá ido recuperar em busca de um toque nostálgico, uma estrutura dos Abba muito popular nos anos 40 e 50, e que foi também aplicada em músicas de Natal como “Frosty the Snowman” ou “Rudolph the Red-Nosed Reindeer”. Mas há, claro, possibilidades de análise menos matemáticas, mais místicas, nomeadamente quando se pensa no verdadeiro twist que “All I Want for Christmas Is You” tem em relação às duas também músicas referidas neste parágrafo – uma abordagem natalícia feita exclusivamente para os adultos.

[o trailer de “Mariah Carey is Christmas”:]

Pela letra, pela intérprete, pela maneira de cantar, a música de Natal ascendeu a toda uma nova demografia que, pelos vistos, estava a precisar dela. E, como acrescenta Andrew Mall, professor de música na Northeastern University, no mesmo artigo, esta “não é uma música religiosa. Fala de Natal, mas de forma secular. Na verdade, é uma música de amor.”

Em 2019, como aos dez anos de existência da música lhe aconteceu com o sucesso do filme “O Amor Acontece”, onde “All I Want for Christmas Is You” tem um papel fundamental, há um novo combustível para a longevidade – é que, a tudo o que já foi referido, pode juntar-se agora a muito contemporânea nostalgia pelos anos 90. Felizmente para muitas coisas deste género, os hipsters têm tendência para oferecer a sua capacidade de amar ironicamente a tudo o que soa a kitsch.

Contas feitas, prevê-se que daqui a outros 25 anos muita gente continue a querer apenas uma coisa para o Natal – uma música de Mariah Carey.