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"Quente e Frio", tarde de sexta-feira com a Filomena Martins. Olá, Filomena.
Olá, Nelson.
Parece que a chuva vai mesmo regressar em duas fases. A partir de quando?
Há novidades importantes nas previsões, portanto, acertaste, porque a chuva pode começar já esta sexta-feira, logo à noite, em algumas zonas do interior, e depois vai estender-se por mais distritos este sábado e concentrar-se sobretudo no Algarve e no Baixo Alentejo no domingo. Mas depois há uma segunda mudança, como falaste, que merece tanta ou mais atenção, porque duas frentes de duas tempestades vão chegar a meio e no final da próxima semana, e essas sim, devem nos atingir com chuva mais frequente, mais intensa. A primeira frente deve chegar na quarta-feira, dia 21, pelo Noroeste, lá em cima, e a segunda entre sexta-feira, 23, e sábado, 24, ainda não se sabe bem por onde, porque esta ainda demora.
O próprio mapa do IPMA já mostra aqui um bocadinho nesta sexta-feira alguns pinguitos de chuva, ali mais para o interior, não é? Na Guarda, mais ou menos.
É possível, sobretudo, que chova nessa região da Guarda, mas vai ser uns pingos, uns chuviscos. A chuva fraca e moderada é só durante a tarde. No resto do país, a sexta-feira vai continuar ainda seca, embora já começam a aparecer nuvens por todo lado. As temperaturas ainda vão ficar quentinhas para o outono em várias regiões. E atenção!
Oh, não.
Poeiras do Saara vão atravessar Portugal quer sexta-feira, quer sábado, e degradam bastante a qualidade do ar, portanto nada de fazer corridas ainda. E a Direção-Geral de Saúde já emitiu avisos para ter janelas fechadas, as pessoas mais velhas terem cuidado, as crianças também. Portanto, é só ir ver os conselhos habituais. E não lavar o carro, não vale a pena.
Pois, porque depois ficam os carros todos pintados.
Nem estender a roupa.
Também, é verdade. No sábado, onde é que pode chover? Estava aqui a ver, parece que é também um bocadinho mais para o interior, não é?
É interior norte, Bragança, Vila Real. Depois à tarde esta chuva já se pode estender a Viseu, Guarda, Castelo Branco, Coimbra, Leiria e pode chegar também a Santarém e a Portalegre. É importante não falar desta chuva como um episódio de chuva generalizada, não é. Deve ser muito irregular e haver episódios aqui e ali, mas sem ser uma chuva prolongada. E as temperaturas aqui também começam a mudar. Não também ao mesmo tempo em todo o país, mas em Lisboa e o Alentejo vão começar a arrefecer. O Porto ainda pode ficar, por exemplo, com 25 graus. Aqui é um bocadinho ao contrário do que costuma acontecer.
É verdade. E no domingo continua a ser o Algarve a região que mais preocupa, não é?
Sim. Faro apresenta uma possibilidade de chuva de 90% para domingo e Lisboa, por exemplo, só tem 4%, Coimbra 2% e o Porto nada. Portanto, podemos ter um domingo com uma grande diferença entre regiões, o Norte e parte do Centro praticamente sem chuva, e o Sul com condições muito fortes para haver aguaceiros e provavelmente trovoadas também no Baixo Alentejo. Isto porque eu acho que tem muito a ver com o que se vai passar em Espanha, já lá iremos.
Esta questão aqui de domingo, Filomena, fiquei é com dúvidas se, por exemplo, Faro tem uma probabilidade de chuva de 90%, mas não sabemos se vai chover muito ou pouco, não é?
Não, neste momento a probabilidade de chuva está muito condicionada e quando são trovoadas é muito difícil dizer quanto vai chover e onde mesmo vai chover. O mais possível de prever será a chuva de uma trovoada, mas há certas zonas do distrito de Beja, e sobretudo ali junto à fronteira com Espanha, com previsões para 15 litros por metro quadrado, 10 litros por metro quadrado em Portalegre.
Isto não é muito, pois não?
Ainda é bastante.
É, já é uma quantidade considerável.
Mas não é para cheias.
Exato.
E uma probabilidade muito elevada de chover não significa que haja uma grande quantidade de chuva. E depois, isto pode evoluir por causa do que se está a passar com a probabilidade de chuvintência em Espanha e isto vir mais para o lado de cá, qualquer quilómetro, qualquer vento mais forte fará com que isso aconteça.
Já lá vamos. Antes, perceber como é que vai ser o início da semana, porque pelo que percebi aqui pelas tuas notas, segunda-feira vamos continuar a ter aqui a região mais a sul do Algarve com bastante instabilidade.
Sim, é a que vai ficar mais instável e o Baixo Alentejo também. 60% de possibilidade de chover na zona de Faro, 40% na zona de Beja, Lisboa muito baixa ainda, 4%. As temperaturas é que vão ser já muito baixinhas, vão andar nos 22 graus em Faro, 24, 25 em Lisboa e 21 no Porto. E, portanto, chuva a persistir no sul, mas ainda sem se estender a todo o território. Depois isso vai acontecer o resto da semana.
Assim vai ser o início da semana, mas vamos aqui olhar então para o lado, aqui para Espanha, onde o cenário parece que é um bocadinho mais grave.
Sim, e os dias mais complicados serão domingo e segunda-feira, com este episódio de chuvintência outra vez. Não é uma DANA, são duas. São duas depressões isoladas em altitude. Uma delas vai deslocar-se da região de França para o norte da península Ibérica e a outra está posicionada ali junto ao Golfo de Cádiz, não muito longe de nós. A interação delas com ventos úmidos vindos do Mediterrâneo devem trazer, de facto, chuva muito intensa, trovoada, chuva persistente. A AEMET, que é o Instituto de Meteorologia espanhola, prevê 150 a 250 litros de água por metro quadrado, sem excluir valores superiores.
Isto sim, já para cheias, se calhar.
Isto sim, para cheias Portanto, as zonas são as habituais na Catalunha, Comunidade Valenciana, Alicante, Múrcia, Costa do Sol e Baleares, sobretudo Ibiza e Formentera.
Quando é que termina este episódio em Espanha?
Eles apontam para sábado e segunda-feira serem os dias mais intensos e no domingo haver precipitação torrencial.
Isto pode afetar Portugal?
Para já não há nada que faça prever isso, mas o Algarve poderá ter as tais chuvas e trovoadas por alguns restos destes sistemas atmosféricos. Mas depende muito da posição das depressões, da direção do vento, da quantidade de humidade disponível.
Já olhámos um pouco para a chuva e para o que vai acontecer neste fim de semana e no início da próxima semana, mas quanto a calor, continuamos com temperaturas ainda um pouco acima da média, vão começar a descer?
Vão começar a descer. Vai-se notar mais no início da próxima semana, sobretudo no interior norte e no centro, mas a diferença entre as máximas destes dias e as previsões para a segunda-feira vão ser as tais dos 10 a 12 °C. Bragança passa de 29 para 16 °C, Vila Real de 29 para 17 °C e na Guarda as máximas não passarão dos 14 °C. E as noites também, já tinha falado nisso, vão ficar nos três, quatro °C nestas zonas.
É uma grande mudança que chega com a nova semana, mas prevêem-se mais lá para meio da próxima semana. E aqui o Atlântico com alguma influência, não é?
É isso. É precisamente que está aqui uma das notícias mais importantes das previsões. Os modelos apontam já claramente para essa alteração da circulação atmosférica do Atlântico Norte e que vai favorecer a aproximação de frentes a Portugal. A primeira pode chegar na quarta-feira, dia 21, e há uma segunda que se está a formar e que se vier para estes lados, chegará sábado da próxima semana. E se isto se confirmar, vamos passar de alguns locais aqui e ali para chuva a sério, já associada a estes sistemas frontais. E não estamos a falar de uma depressão isolada, é mesmo uma sucessão de sistemas de baixa pressão, que é aquele chamado comboio de tempestades.
Comboio de tempestades no Atlântico, é o fenómeno que trazes para hoje. O que é isto, afinal, de um comboio de tempestades?
Ano passado ouviste falar imenso dele, agora toda a gente está a falar de comboio de tempestades. É uma expressão que os meteorologistas usam, já usavam, para descrever uma sucessão de depressões que se formam no Atlântico e avançam em direção à Europa, muitas vezes seguindo trajetórias que são quase iguais, são quase sempre as mesmas, o caminho é o mesmo. Parece que é uma autoestrada e que elas vêm sempre por ela, seguindo sempre aqueles passos. Uma depressão passa, outra aproxima-se, uma terceira pode já estar a desenvolver-se mais a oeste e pronta para vir. É uma circulação atmosférica que favorece estes movimentos durante vários dias, semanas, às vezes, e por isso é que temos aqueles episódios de chuva, vento e agitação marítima durante muito tempo. Não quer dizer que todas as depressões sejam tempestades severas. Algumas até são fracas, outras podem aprofundar-se muito e produzir condições meteorológicas muito complicadas e com grande impacto.
O problema aqui é que elas vêm todas em filinha, não é? Por que elas seguem todas esta trajetória?
Uma das explicações é a tal corrente de jato, que estamos fartos de falar. A faixa de ventos fortes que circulam em grande altitude, nove, 10, 11, 12 km acima da superfície, e que ajuda a orientar esta deslocação das depressões. Elas vêm com esta faixa. E como esta circulação anda onde andam as massas de ar, com características muito diferentes dessas massas de ar, quando a corrente já se posiciona de determinada forma sobre o Atlântico Norte, faz a tal autoestrada, o tal corredor para essa deslocação sucessiva de pressões. É o corredor que dá origem depois à imagem do comboio. Parece que é um carril.
E como é que elas se formam assim tão seguidinhas?
O Atlântico Norte é uma zona de contraste de massas de ar frio, que vêm de latitudes mais elevadas e massas de ar relativamente quentes que vêm de sul. E estes contrastes fornecem energia para que se desenvolvam estas depressões extratropicais. Basta que haja condições favoráveis para uma destas perturbações se intensificar e estar logo atrás dela outra a intensificar-se também. Portanto, em alguns casos, a pressão atmosférica desce muito e há aquelas ciclogeneses explosivas, os ciclones-bomba, e isto intensifica-se quando chega aqui à Península Ibérica, por exemplo, se o caminho estiver direcionado para cá, há um problema.
E isto pode acontecer durante semanas.
Pode. No outono e no inverno, quando a circulação atlântica está muito ativa, é possível termos várias depressões sucessivas a atingir-nos, a atingir a Europa Ocidental, e Portugal pode receber durante vários dias com períodos de chuvas separados por pequenos intervalos. É um padrão que faz lembrar o que aconteceu o outono e o inverno passados. Apenas uma diferença importante é identificar o padrão favorável e depois prever o impacto das tempestades.
Até porque se calhar os modelos ainda não preveem com grande certeza que vamos de facto ter este comboio de tempestades.
Não. Mas os mapas meteorológicos para a segunda metade da próxima semana sugerem esta circulação mais dinâmica no Atlântico e a possibilidade de formação de depressões profundas. As trajetórias, a intensidade e os efeitos para Portugal ainda podem mudar ligeiramente. O sinal relevante que já existe é que duas frentes, entre quarta e sábado, estão ali a formar-se e é bem provável que venham chegar cá.
Vamos à curiosidade de hoje e vamos falar do Glaciar Perito Moreno. Está a perder a estabilidade que o tornou famoso, é um glaciar na Patagónia. Durante décadas resistiu ao recuo, que é observado noutros glaciares, mas agora parece que também está a recuar. O que é que mudou?
O Perito Moreno não é um dos glaciares mais famosos do mundo. Temos sempre a ver aquelas imagens das pessoas que vão lá ver cair blocos de gelo. Durante muitos anos foi considerado uma exceção de facto, porque enquanto grande parte dos glaciares, mesmo da Patagónia, perdia gelo e recuava, o Perito Moreno estava ali estável. Era conhecido pelas paredes de gelo que terminam no lago, pelos grandes blocos que se desprendem e caem à água. Só que essa estabilidade começou a desaparecer.
E quanto gelo é que já perdeu? Dá pra calcular?
Sim, um estudo de 2025 viu um recuo de 800 metros numa parte da frente do glaciar. E há um outro lado impressionante, a velocidade com que o glaciar está a perder espessura aumentou muito. Entre 2000 e 2019, cerca de 34 centímetros de altura por ano, que é muito, porque essa perda passou para aproximadamente 5,5 metros por ano.
Por que este glaciar resistiu durante tanto tempo, até agora?
Porque ele assentava numa configuração especial do terreno, que era uma elevação rochosa submersa que estava por ali e que o mantinha estável. E com o recuo do gelo, esse suporte deixou de existir. Portanto, agora isso vai acelerar o recuo. Não quer dizer que ele esteja a desaparecer, quer dizer que a forma de terreno onde estava suportado debaixo do gelo já não serve para o suportar.
O que se espera que aconteça? Que possa desaparecer completamente?
Que vá desaparecendo aos bocadinhos. Aquela tua viagem pra Patagónia, se fores lá ao lago ver um pouquinho da queda do Perito Moreno na altura em que ele cai, talvez já não vás a tempo.
Perito Moreno dá nome de coquetel. Falamos de um glaciar na Patagónia com nome de coquetel no fim deste "Quente e Frio", edição desta sexta-feira com a Filomena Martins. Voltamos a falar de meteorologia na segunda-feira. Bom fim de semana, Filomena.
Bom fim de semana.