Contida, morna, pouco entusiasmante, monótona — das muitas regras que orientam a grande noite do cinema, não cair em nenhuma destas categorias devia ser uma delas. Infelizmente, parece que se perdeu qualquer coisa. Ou as estrelas andam preguiçosas ou a Academia mudou o briefing, afinal costumava ser esta a mais cintilante e glamorosa gala da sétima arte. Os Óscares já não são o que eram ou talvez a 92ª edição tenha tido um percalço. Será falta de inspiração dos stylists e designers? Talvez o brilho de uma noite de festa já não seja assim tão desejável. Sem vestidos memoráveis, pode ser que Hollywood queira dirigir o foco para outras prioridades.

A trabalheira de Janelle Monáe e a galeria das quase notáveis

O brilho não se perdeu, pelo menos se nos centrarmos no sentido mais literal possível. Janelle Monáe e Ralph Lauren trabalharam para que tal não acontecesse. No total, o vestido da cantora, a quem coube abrir a cerimónia deste domingo à noite, tinha mais de 168.000 cristais Swarovski e aplicá-los fez com que o atelier do designer norte-americano lhe dedicasse cerca de 600 horas de trabalho. No final, o resultado assemelhou-se a uma armadura medieval, mas numa versão de baile, claro. As costas eram recortadas, o capuz fez lembrar as mais icónicas imagens de Grace Jones.

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Muitas surpresas vieram de nomes absolutamente insuspeitos. Olivia Colman, vencedora do Óscar de Melhor Atriz em 2019, impressionou, em primeiro lugar, pela mudança de visual. Com o cabelo loiro, escolheu um Stella McCartney para revisitar a passadeira vermelha do Dolby Theatre, um ano depois. Kristen Wiig protagonizou um raro episódio de excentricidade. O volume, o vermelho e a estrutura deixaram pouca margem para dúvidas — a escolha da atriz recaiu sobre uma criação de Pierpaolo Piccioli para a Valentino. No campeonato das quase irrepreensíveis esteve ainda a jovem Zazie Beetz. As joias e o vestido Thom Browne fizeram um bom trabalho, mas é preciso reconhecer que o cabelo da atriz fez metade do look.

A liga Chanel

É mais ou menos óbvio que, numa gala desta categoria, existe sempre um esquadrão Chanel e ser-se vestida pela emblemática marca francesa é um critério de admissão absoluto. Contudo, não é garantido que uma estrela de Hollywood coberta de Chanel da cabeça aos pés passe com distinção no crivo do estilo. Penélope Cruz, uma veterana deste clube, é o melhor exemplo de que escolher o vestido errado fala bem mais alto do que está escrito na etiqueta. Sem que o comprimento da saia lhe favorecesse a estatura, a atriz espanhola ficou àquem do esperado.

Quem também não impressionou foi Margot Robbie, umas das protagonistas da noite. Com um vestido azul marinho, sem alças e com uma pedra pendurada no cento do decote, a atriz fez-nos questionar: “O que é feito do tempo em que pelo menos as nomeadas davam tudo na red carpet?

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Reerguemos ligeiramente a cabeça com Margaret Qualley e sorrimos ao avistar Billie Eilish. Uma noite especial celebra-se com peças especiais e a cantora de 18 anos provou que até um clássico como o tailleur Chanel pode ser desconstruído e transformado em algo novo e diferente e quem nem o seu estilo com referências no streetwear fecha a porta ao velho tweed. Ver a artista do momento e a histórica maison entrarem juntas numa misturadora foi uma das melhores sensações da noite. Talvez seja este o futuro (e o novo presente) dos Óscares, sem o glamour de antigamente, mas com outro tipo de rasgo.

Charlize não entusiasmou, Zellweger gelou as expectativas

A relação entre a Dior e o corpo de Charlize Theron dura há anos. A primeira parece entender de olhos fechados as linhas e curvas do segundo e, o que quer que aconteça quando os dois se juntam, o resultado é irrepreensível, mesmo quando a atriz sul-africana pisa a passadeira vermelha com um vestido preto, do qual nada ressalta além de um corte e de uma confeção exímios. A elegância é um dado adquirido. O que será dos Óscares se um dia ela nos falhar?

Vestida por Giorgio Armani, Laura Dern tornou-se especialista em passar despercebida. A última noite não foi exceção — a atriz levou para casa a sua primeira estatueta, mas esteve longe de se destacar na passadeira vermelha. A regra da neutralidade aplicou-se a outras estrelas — Scarlet Johansson, que nos Óscares, tal como nos Globos de Ouro, optou por visuais mais sóbrios, Brie Larson, Saoirse Ronan, Regina King e Natalie Portman, que optou por um visual um tanto ou quanto clerical ao colocar uma capa sobre o vestido Dior. Na realidade, esta segunda peça foi usada pela atriz com segunda intenções. Na extremidade, carregou consigo nomes de mulheres que ficaram de fora do rol de nomeados ao Óscar de Melhor Realizador, incluindo Greta Gerwig (“Mulherzinhas”), Lorene Scafaria (“Ousadas e Golpistas”) e Lulu Wang (“A Despedida”).

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Renée Zellweger foi a desilusão da noite. Não que o vestido Armani fosse criminoso, mas sobretudo porque se esperava mais da favorita ao Óscar de Melhor Atriz. A britânica atravessou a temporada de premiações com escolhas sóbrias e elegantes, de um azul pastel nos Globos de Ouro a um cor-de-rosa bebé nos BAFTA. Pena que o vestido escolhido para os Óscares tenha sido o mais desinteressante de todos, sobretudo porque dificilmente se empunha a estatueta dourada duas vezes na vida, proeza que a eterna Bridget Jones acabou por alcançar.

As não recomendáveis

São as vantagens de uma passadeira vermelha com fraca pulsação — não há lugar para o êxtase, mas também poupa-se o mundo a eventuais atrocidades. Não as houve, embora Salma Hayek continue a escolher vestidos que lhe encurtam a silhueta e convidadas como Blac Chyna tenham sido livres de exercer o seu gosto pessoal. Por explicar fica também o Louis Vuitton de Léa Seydoux.

[Ouça aqui o Termómetro especial sobre a passadeira vermelha dos Óscares]

Quem não arrasou na passadeira vermelha dos Óscares

Em noite de joias e vestidos, eles também brilharam

Em noite de Óscares, pouca ou nenhuma atenção é dada às escolhas do guarda-roupa masculino. Porque será? Raramente fogem ao tradicional smoking, tornando difícil (por vezes impossível) a tarefa de encontrar um detalhe que distinga o mais galardoado dos atores do mais inócuo acompanhante. Contudo, há evidências que não se contornam — Brad Pitt, Leonardo DiCaprio e George MacKay, entre outros, exibiram belas obras de alfaiataria. Inconfundíveis? Nem por isso.

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Mas nem todos seguiram o dress code expectável, a começar pelo exuberante Billy Porter, que conduziu a emissão da ABC em plena red carpet. A parte de cima estava coberta de penas douradas, a parte de baixo era uma reprodução do teto de uma das salas do Palácio de Kensington (a monarquia britânica arranja sempre forma de estar representada, seja qual for o fuso horário). A obra-prima foi assinada por Giles Deacon, curiosamente o mesmo criador do vestido de noiva de Pippa Middleton.

Timothée Chalamet não fez por menos e trouxe a informalidade de um jovem ator de 24 anos — que é também já um ícone mais ou menos incontestável do mundo da moda — para o centro da passadeira vermelha. Num fato Prada, composto por calças e blusão mas com um toque acetinado, Chalamet invocou um visual moderno e futurista. O contraste surgiu com o tesouro da Cartier que o ator usou ao peito: uma pregadeira de 1955 em ouro branco, platina, rubis e diamantes.

Por sua vez, Spike Lee aproveitou a indumentária para homenagear Kobe Bryant. No fato roxo e amarelo, as cores do equipamento dos Los Angeles Lakers, exibiu o número 24 na lapela e nas costas, conhecido por ser o da camisola do jogador que morreu num acidente de helicóptero há precisamente duas semanas. Lee completou o visual com uns ténis de basquetebol.

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Na fotogaleria, veja os visuais que marcaram a passadeira vermelha da 92ª edição dos Óscares.