No almoço dos Óscares, um evento sobre o qual não haveria nada a dizer não fosse por este episódio, Brad Pitt andou o tempo todo com um crachá ao peito. Um crachá que dizia… Brad Pitt. Pondo a hipótese de alguém não o reconhecer, ainda por cima num evento de Hollywood, o ator achou melhor andar identificado. E as câmaras adoraram. E as redes sociais divertiram-se. E Brad Pitt, que tem andado a exibir o sentido de humor (e o sentido de vitória) em todos os eventos da temporada dos prémios de cinema, voltou a lembrar o mundo de como é bom tê-lo de volta.

Pode parecer estranho dizer isto sobre um ator de 56 anos, com 30 anos de carreira, que, além disso, é uma das pessoas mais famosas do mundo e já participou em dezenas de filmes memoráveis – qualquer pessoa (isto é um desafio) consegue dizer o nome de cinco filmes com Brad Pitt em menos de um minuto, sem pesquisar no Google. Mas é muito provável que só agora, ao longo de 2019, tenhamos realmente vivido o ano de Brad Pitt.

Dois papéis de destaque – um astronauta em “Ad Astra” e um duplo de cinema em “Era Uma Vez em… Hollywood” –, um Óscar de Melhor Ator Secundário (finalmente), vários galardões arrecadados em todos os prémios para que foi indicado, além de uma conquistada e publicamente celebrada sobriedade depois de muitos anos de má relação com o álcool.

[o trailer de “Era uma vez… em Hollywood”:]

Não admira que ande bem disposto o suficiente para se passear com um crachá que não diz apenas aos outros o seu nome – diz também que Brad Pitt está ali, um homem de meia idade muito confortável por já não estar nas listas dos mais bonitos do mundo, feliz sem precisar de um papel principal e cada vez mais consciente do que quer fazer. Não deixa de ser irónico que o Óscar chegue no momento em que a preocupação do actor em relação a prémios de representação parece ser inversamente proporcional à sua preocupação sobre o que estava dentro da caixa que lhe entregaram no final de “Seven – Sete Pecados Mortais”.

[O que explica o sucesso de Parasitas e a derrota de Joe Pesci, que “faz um papel muito melhor que Brad Pitt”. “O discurso de Joaquin Phoenix piorou as coisas”. E “a humilhação anual de Scorsese”. Pode ouvir aqui o Pop Up especial Óscares transmitido esta manhã na Rádio Observador, com Bruno Vieira Amaral, Maria Ramos Silva, Pedro Boucherie Mendes e Tiago Pereira]

O alegre caminho dos prémios

Há quem diga que para saber quem vai ganhar os óscares é preciso estar de olho nos resultados dos Globos de Ouro. Há quem diga que o verdadeiro barómetro são os SAG Awards. Há até quem ache que a verdade só pode vir de fora dos EUA, como é o caso dos BAFTA. Seja como for, as contas eram favoráveis a Brad Pitt. Ganhou tudo. E, melhor do que isso, divertiu-se em cada um desses momentos.

O referido crachá é apenas mais um sinal desta caminhada descontraída e avassaladora de Brad Pitt rumo ao seu primeiro Óscar de representação (já tinha sido nomeado sete vezes, a primeira das quais em 1995, com o papel no filme “Doze Macacos”, mas só tinha ganhado uma vez, e como produtor do filme “Doze Anos Escravo”).

[o discurso de Brad Pitt:]

Se tem havido discursos poderosos sobre a ausência de mulheres na categoria de realizador, outros sobre a exclusividade de atores brancos nas categorias de representação, ecologia, política, o estado das artes, tudo como convém nestes eventos, houve também Brad Pitt e a sua catarse pública. Na cerimónia dos National Board of Review Awards aproveitou logo para agradecer a Bradley Cooper pela ajuda no percurso para se livrar do álcool: “Fiquei sóbrio por causa deste homem. E cada dia tem sido mais feliz desde então.” Em conformidade com estas palavras, este tem sido um caminho alegria a espalhar.

Nos Globos de Ouro, brincou com Leonardo DiCaprio, com quem contracena em “Era Uma Vez em… Hollywood”, o filme que lhe tem valido todas as nomeações: “Tenho de agradecer ao meu irmão de armas, LDC… de qualquer forma, também não teria partilhado a porta com ele”, numa referência à icónica cena de Titanic. Nos SAG Awards foi ainda mais longe: “Tenho de adicionar isto ao meu perfil do Tinder.” E mais real no talento para a comédia autodepreciativa: “De facto, era um papel difícil. Um homem que abusa de substâncias, anda de tronco nu e não se entende com a mulher… é pedir muito.” E até nos BAFTA, onde não esteve presente, pediu à colega de filme Margot Robbie que fosse receber o prémio e lesse uma nota de humor adaptado ao país anfitrião: “Ele diz que vai batizar este galardão de Harry, porque está muito entusiasmado por poder levá-lo para a América.” Até o príncipe William, que estava no público, deu uma gargalhada.

[o discurso de Margot Robbie em nome de Brad Pitt, nos BAFTA:]

Uma verdadeira história de Hollywood

Para lá dos papéis, da carreira, do estatuto de galã, há em Brad Pitt um irresistível apelo hollywoodesco que se sente desde a sua estreia no grande ecrã, em 1991, no filme “Thelma e Louise”, o que torna ainda mais estranho que tenha passado ao lado dos prémio do meio por tanto tempo.

Há o lado sombrio, claro, do homem a lutar contra o seu vício ou da relação tormentosa com o filho mais velho (tem seis filhos, três deles adotados); há o lado arisco e altruísta, da superestrela que nem quer muito sê-lo apesar de o ser, e que tenta retribuir à sociedade; há os romances complexos e sempre muito escrutinados com outras superestrelas, como Gwyneth Paltrow, Jennifer Aniston ou Angelina Jolie; mas há também a história das origens, do rapaz simples que entretanto dá por si a ser o actor-fetiche de David Fincher e uma pessoa que até tem um palacete com vinhas algures no mundo.

[Brad Pitt em “Thelma & Louise”:]

Nada de muito complicado: cresceu em Springfield, classe média, família cristã, o pai era dono de uma empresa de camiões e a mãe trabalhava numa escola. Depois da universidade, foi para Los Angeles ter aulas de representação e tentar ser ator. E conseguiu. O resto da carreira é história, e conta-se com um punhado daqueles títulos que toda a gente reconhece em maior ou menor grau: “Entrevista com o Vampiro”, “Doze Macacos”, “Seven – Sete Pecados Mortais”, “Sete Anos no Tibete”, “Clube de Combate”, “Tróia”, “Mr. e Mrs. Smith”, “O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford”, “O Estranho Caso de Benjamin Button”, “Sacanas Sem Lei”, “Moneyball – Jogada de Risco” ou os vários desdobramentos da saga “Ocean’s”.

Ainda assim, o maior “filme” nesta sua dimensão de amor do público reacendeu recentemente com um simples reencontro público, aquele que é, no universo hollywoodesco, “O” encontro, assim com letra maiúscula e tudo. Mais ainda do que o muito aguardado confronto na tela, no mesmo filme, entre Pitt e DiCaprio, os dois meninos bonitos da sua era. Trata-se do encontro com Jennifer Aniston, a sua primeira ex-mulher, o romance terminado do qual parece que ninguém recuperou – a não ser, provavelmente, os seus dois protagonistas –, nem mesmo durante a longa relação que se seguiu de Pitt com Jolie.

Tudo aconteceu durante a cerimónia dos SAG Awards, de onde Jennifer Aniston e Brad Pitt saíram vencedores nas respetivas categorias, e foi apenas um breve olá, sorrisos trocados, uma mão na mão – nada de mais, mas o suficiente para desencadear uma imparável onda de análise semiótica de cada imagem e uma torrente de hashtags românticos e esperançosos. Afinal, mesmo sem o serem, os “breniffer” continuam a ser os verdadeiros namoradinhos de Hollywood.

Mesmo ao lado do holofote

Há atualmente em Brad Pitt – ou talvez sempre tenha havido – uma certa despreocupação em relação a certas dimensões da profissão que pode significar alguma coisa sobre o verdadeiro papel que ele acha que deve ser o seu – uma descontração bem simbolizada pelo já mítico episódio da sua ausência na cerimónia dos óscares em 2017, quando “Moonlight”, filme feito pela sua produtora, foi o grande vencedor da noite. A justificação para não estar lá: até estava em Los Angeles, mas preferiu ir a uma jantarada de esparguete que já tinha combinado na casa de uns amigos.

É tudo uma questão de prioridades, dirão. É também uma perspetiva muito própria sobre as coisas do cinema que também pode ter alguma coisa a ver com uma estranha qualidade recentemente realçada pela jornalista Alison Willmore num artigo do Buzzfeed: a capacidade de ser melhor ator de suporte do que ator principal. As provas apresentadas: “Doze Macacos”, “Clube de Combate” e até o recente “Era Uma Vez em… Hollywood”. É difícil não ser sensível ao argumento.

[Brad Pitt em “Fight Club”:]

Com toda a sua natural predisposição para ser uma estrela de Hollywood, como já referido antes, desde o desenho do maxilar e dos abdominais à complexidade empática da sua personalidade pública, Brad Pitt parece estar mais na posse do seu talento quando não está ele debaixo do foco. “É um ator de personagem preso no corpo de uma estrela de cinema”, diz a jornalista no artigo, identificando nesta predisposição para o papel secundário a “grande contradição” da sua longa e proveitosa carreira.

Também ele, numa entrevista ao New York Times já em 2019, o ano da sua graça, fez uma constatação que mais soa a profecia: “A representação é para os homens novos.” O significado é duplo, porque Brad Pitt não só quer fazer outras coisas com os seus cinquenta anos, como tenciona de facto reduzir o número de papéis que aceita como ator – que já não eram tantos assim, para o estatuto que tem em Hollywood.

E tendo em conta o sucesso das apostas da Plan B Entertainment, a produtora que dirige (fundada com a ex-mulher Angelina Jolie, mas que agora segue sem ela), que, além dos já referidos, é responsável por filmes como “The Departed – Entre Inimigos”, “Charlie e a Fábrica de Chocolates” ou “A Árvore da Vida”, é muito certo que seja esse o caminho. “Produzir significa que não tenho de me levantar demasiado cedo nem usar maquilhagem.”

O mundo tem Brad Pitt de volta no seu ano de graça, é verdade. Agora é alinhar na boa disposição e descontração do próprio e aproveitar enquanto é tempo disso, porque, com Óscar ou sem Óscar, a grande estrela do cinema parece mais andar a preparar-se para aquele que será o grande papel da sua carreira – ficar fora do ecrã.