Sons de espadas a esgrimir, histórias de corsários, narrativas medievais. Letras surrealistas, cenas ficcionais em que uma pessoa petrifica ao ver o sorriso de outra no interior de um bar, resumos possíveis da humanidade (em “Arco da Velha”), um capitão de navio chamado António Faria e “um tal de Mendes Pinto”. Junta-se a isto tudo uma espécie de rock progressivo à anos 1970, mas com coros e personagens bem portuguesas e aqui e ali até com um ou outro apontamento sociopolítico mordaz, e temos um dos melhores discos feitos em Portugal no último ano: Spazutempo, álbum de uma trupe quinteto chamada Zarco.

O disco já foi descrito por alguns sites nacionais especializados em música — e até por amigos e parceiros de editora, membros da banda Capitão Fausto — como uma espécie de cruzamento entre música e “prog” dos anos 1970, nomeadamente o rock desvairado e sem freios de Frank Zappa e dos The Mothers of Invention, com as narrativas epopeicas de Fausto Bordalo Dias e o canto levemente “rappado” de Sérgio Godinho. São descrições assertivas, que sintetizam bem este disco que revela os Zarco como banda que é preciso seguir na música portuguesa.

A capa de ‘Spazutempo’, primeiro álbum da banda portuguesa Zarco

Mesmo num país que em 2018 tinha apenas uma quota de mercado de apenas 0,66% da totalidade do mercado de música gravada no seu continente, a Europa — mas que, para contrastar, é já o 17º do continente europeu neste setor em termos de receitas, tendo crescido 28,35% entre 2014 e 2018, segundo um relatório recente da Comissão Europeia —, as bandas aparecem como cogumelos. Os Zarco, cujo nome é inspirado pelo antigo navegador português João Gonçalves Zarco, são mais uma dessas bandas; não são é só mais uma.

Desde que a internet apareceu e o consumo de música se tornou predominantemente digital, a música portuguesa tem assistido a uma explosão de discos lançados e de bandas a emergir com canções originais — como aliás se atesta no já referido crescimento de quase 30% do mercado de música gravada entre 2014 e 2018, percentagem que exclui maioritariamente as em tempos tão em voga (e ainda não desaparecidas) bandas de versões de bar.

À margem das editoras tradicionais, utilizando redes sociais para se promoverem e plataformas de streaming como Spotify e Bandcamp para alojarem a sua música, entrando em novas estruturas “familiares” (porque pequenas) de promoção de música, os novos artistas pululam como cogumelos. Isso acontece mesmo em géneros musicais como o pop-rock, que tem vindo a perder considerável espaço para o hip-hop como banda sonora popular e de eleição da juventude.

Os Zarco são uma dessas novas bandas e um dos grupos novos que mais originalidade e qualidade denotam. Não soam a cópia de ninguém. Têm um EP (ou mini-álbum) intitulado Zarcotráfico. Têm o primeiro álbum completo que revelaram em 2019, já mais apurado. Já fizeram concertos em salas como o Teatro Ibérico e Musicbox, em Lisboa, o Hard Club e o Plano B, no Porto, a Sociedade Harmonia Eborense, em Évora, e o Teatro Aveirense, em Aveiro, tendo atuado ainda no festival Super Bock em Stock (antigo Mexefest). Já fizeram uma espécie de espetáculo musico-teatral, apresentado em data dupla no Chapitô, em Lisboa. Compuseram canções para um filme. Agora, andam numa odisseia para compor 27 temas para um teatro-musical que se estreará este ano. Os objetivos de futuro são simples: andar por aqui bons anos, tocar tanto quanto possível, conseguir que a música seja ouvida e descoberta.

Os Zarco no concerto dado a 23 de novembro na Garagem EPAL, em Lisboa, durante o festival Super Bock em Stock (@ JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR)

Uma banda “super democrática”, com gente “do bigode. E saudosistas”

O esboço do que viriam a ser os Zarco começou cedo. Sentado numa esplanada no bairro de Alvalade, em Lisboa, onde a banda grava as suas canções, Gastão Reis, baixista que como outros membros da banda também canta, conta ao Observador como começou este projeto que o une atualmente aos restantes quatro membros, João Sala (teclas e voz), Fernão Biu (guitarra e voz), “Joe Sweats” (guitarra e voz) e Pedro “Pete” Santos (bateria). É o mais novo elemento do clã Zarco, com 23 anos, menos um do que Joe, Pete e João Sala — que têm 24 — e menos três do que o mais velho, Fernão Biu, de 26 anos.

Começámos a tocar quando fui convidado para tocar nos anos de um tio meu. Não tinha banda, já tinha tido uma antes mas tinha acabado. Tive de juntar um grupo. Lembrei-me do Joe, que já tinha tocado comigo na banda anterior. Precisava de um baterista e já conhecia o Pedro (‘Pete’), não sabia como tocava mas chamei-o. O Joe trouxe o Manuel, que já saiu; foi o teclista antes do Sala. Formámos o grupo, tocámos nessa festa e começámos a tocar. Mais tarde, o Sala entrou para o lugar do Manuel e em 2016 juntou-se o Fernão, que conheci na faculdade”, conta Gastão Reis.

Os cinco membros atuais da banda andaram juntos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e foi lá que começaram a levar os Zarco mais a sério. O que os unia à época é ainda o que os une hoje: por um lado a amizade, por outro o gosto pela música. Gastão diz: “Eu e o Joe tivemos sempre o mesmo gosto. Ouvíamos a mesma música, víamos os mesmos concertos”. Que música era essa? “O rock dos anos 1970, o rock progressivo, o Frank Zappa… também tivemos uma panca a dada altura por Queens of the Stone Age, desert-rock stoner-rock.”

A atenção à música portuguesa foi sendo incutida por familiares de elementos da banda, antigos músicos que os inspiraram a ouvir artistas como Fausto Bordalo Dias, José Mário Branco e Sérgio Godinho. Foi o caso do pai de Joe, que “tocava com o Fausto” e fez com que a sua infância fosse muitas vezes “ir para a praia a ouvir, sei lá, o Frank Zappa“.

Quatro dos cinco capitães do navio Zarco, banda cujo nome é inspirado pelo navegador português João Gonçalves Zarco, no Mercado de Alvalade, em Lisboa (@ JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR)

Antes da edição do primeiro álbum, houve a edição de um EP (mini-álbum) em 2017, intitulado Zarcotráfico. O EP assinalou a primeira colaboração registada da banda com o veterano produtor de som José Moz Carrapa, que tem longo currículo musical, tendo participado nas bandas Salada de Frutas e Ala dos Namorados, colaborado com os Ena Pá 2000 e sido produtor residente da editora Valentim de Carvalho, trabalhando assim em álbuns marcantes da música portuguesa como Anjo da Guarda, de António Variações, e Guardador de Margens, de Rui Veloso.

A importância de José Moz Carrapa no crescimento do grupo foi grande, defendem os membros dos Zarco. “É o nosso mentor… da vida, no fundo. É um grande amigo do meu pai, já produziu imensos artistas e tocou com o meu pai imenso tempo. Tem imensa paciência”, diz Joe.

O método de composição de canções como as que se ouvem no álbum Spazutempo, editado no ano passado, é variado. “Há músicas que fizemos todos juntos, outras que escrevemos parte da letra juntos, outras que fui eu que fiz. Mas as coisas partem sempre de malhas”, começa por dizer o mais velho, Fernão, para logo de seguida acrescentar: “A ‘Arco da Velha’ [tema do álbum], por exemplo, começou com o Gastão a enviar-me uma mensagem de voz, ‘tararara’. Ainda no outro dia o Joe mandou-me a gravação de uma linha de guitarra, eu harmonizei no piano, fiz uma letra… é assim que funciona, as canções vão crescendo”.

A banda, vincam os elementos dos Zarco, é “super democrática” e quando há discordâncias “vai-se a votos”. “É normal que alguém tenha uma ideia em que se calhar brilha mais e queira pôr, só que depois o resto da malta acha que não fica tão bem e um gajo tem de pensar sempre no grupo”, explica Gastão. Do que não abdicam é de tentar contar histórias em canções. “Há um gosto literário nas músicas. Acho que isso é muito importante, ter um gosto literário, querer contar e inventar histórias”, prossegue Gastão. Ao seu lado, sentado à mesa de café, Fernão acrescenta: “E usar um léxico enriquecedor, pá…”. Isto é gente, garantem eles em tom já só semisério, “bastante do bigode. E saudosistas”.

Já a possibilidade de editarem os seus discos e canções com o selo do coletivo Cuca Monga, fundado por membros da banda Capitão Fausto, surgiu através de um dos elementos da banda, João Sala. Antigo baixista, entrou para as bandas Zarco e Ganso para tocar teclados. Ora, “a malta dos Ganso já era amiga do Tomás [Wallenstein], do Domingos [Coimbra], da malta dos Capitão Fausto e da Cuca Monga. Rapidamente a Cuca Monga levou os Ganso para a alçada deles. Em ocasiões meramente sociais também os começámos a conhecer — e a à malta dos Ganos, que não conhecíamos”, explica Gastão.

Forjou-se uma amizade entre todos, começou-se a elaborar uma teia e começou-se a falar dos Zarco [para a Cuca Monga]. Só que Zarco de início não tinha nada para mostrar. Quando o álbum ficou pronto e o gravámos com o Diogo [Rodrigues, produtor musical associado à Cuca Monga), mostrámos e decidiu-se. A Cuca Monga também se abriu nessa altura a receber outras bandas”, acrescenta o músico.

Desde que editaram Spazutempo, a jovem banda portuguesa tem vindo a colher algumas críticas positivas. Gastão diz que “a receção tem sido boa” e que “as pessoas têm ouvido um bocado pelo passa palavra e vão dizendo coisas boas”. Não é de estranhar, dado que para além da estética original das canções (pouco coladas a referências “escolásticas”) o disco evidencia engenho quer no talento dos jovens músicos — a guitarra elétrica é o âmago e os ‘riffs’ de notório bom gosto, ao passo que as teclas levam estas epopeias rock portuguesas para o espaço — quer nos detalhes da construção dos temas, como os coros, os sons inesperados e a relação das harmonias das vozes com os instrumentos. Oiça-se a jam de “Schicksalsrad”, se a ideia é tirar dúvidas sobre os dotes da banda…

O concurso, o teatro, a evolução, o futuro e um sonho: feiras medievais

No ano em que editaram o primeiro mini-álbum — que continha canções como “Música Bipolar Portuguesa” e “Sem Nome” —, 2017, os Zarco também foram também à final do concurso de bandas cujo vencedor tinha direito a gravar um álbum pela editora Sony Music Portugal e a atuar ao vivo nos festivais NOS Alive e Mad Cool Festival. Gastão diz que “a ideia era ganhar, claro” e que o apelo em participar estava na oportunidade de fazer a nossa música chegar a mais gente. Já Fernão conta que “chatearam” amigos nas redes sociais para votarem neles na primeira fase, mas na segunda fase do concurso já não o fizeram. “Deixámos de lado. Passado um mês, recebemos outro e-mail: parabéns, vocês estão na final. Ou seja, sem saber ler nem escrever chegámos lá”, acrescenta.

Paralelamente, a banda compôs ainda temas para uma curta-metragem que veio a ser exibida “numa pequena projeção em Cannes, uma pequena mostra para novos filmes”. A história desse feito só pode ser contada parcialmente, diz Gastão: “Aqui há uns anos conhecemos um grupo de polacos cá em Lisboa, em circunstâncias que nem vale a pena estar a contar ou entrar em detalhes. Foi de noite… basicamente fizemos uns amigos polacos na altura de fim de ano, estivemos uns dias com eles, mostrámos-lhes as nossas músicas. Uma das raparigas desse grupo adorou e disse: um dia ainda vou fazer um filme, uma curta-metragem, e vocês vão fazer a banda sonora”. Dois anos depois, já esquecidos dessa promessa, receberam uma mensagem no Facebook que dizia o seguinte: “Olha, já tenho o filme pronto, como é de músicas?”.

Também a composição de canções para espetáculos teatrais e performativos ao vivo, que não concertos, tem sido habitual nos Zarco em anos recentes. Em 2018, um ano depois da edição do primeiro EP, a banda apresentou-se no Chapitô em duas datas com um espetáculo chamado “Conflitos de Armando Piranha”. A performance consistia em “tentar encontrar histórias e coisas que ligassem as músicas do EP” e apresentá-las introduzindo personagens que tinham nomes como “Germano Bigorna” e “Armindo Piranha”. Tratou-se, explica Gastão, de “encontrar uma narrativa que trespassasse todas as músicas do EP, uma história em que todas as histórias das canções estivessem incluídas”. Por outras palavras, conceberam uma espécie de conjunto de monólogos debitados entre temas, que iam acrescentando detalhes sobre a vida das personagens.

Segue-se agora um trabalho de composição musical para uma peça da companhia de teatro As Crianças Loucas. Chama-se Lisboawood e deverá ser apresentada ao vivo ainda este ano. “É um desafio novo. São músicas que são direcionadas para um tipo de espetáculo diferente, um teatro musical. Temos de fazer música que, sendo ainda dos Zarco, seja pensada para estruturas diferentes”. Um exemplo é “Lisboawood”, tema já revelado deste projeto. Outro é “A Menina do Arame”. No final do projeto, as canções deverão ser agrupadas e reveladas na totalidade em disco.

Uma das coisas que mais tem mudado na banda desde que os cinco capitães Zarco eram ainda imberbes marujos da Faculdade de Letras de Lisboa  foi “a atenção dada às canções”, diz Gastão. “Deixou de ser só curtir, malhar uns acordes rockalheiros… a ‘cena’ começou a ser mais pensada, gradualmente. Fomos crescendo. Com as entradas do Sala e do Fernão e com a experiência a coisa começou a ficar mais consistente e mais interessante, na minha opinião”, prossegue o músico.

Para o futuro a breve prazo, os planos dos Zarco passam por “tocar o mais possível” já neste ano de 2020 e “trabalhar muito para Lisboawood”. Mais para a frente, há o sonho de “fazer uma digressão de feiras medievais”, porque, diz Gastão, “somos apaixonados por esses universos medievais”. A banda quer continuar a fazer música enquanto isso lhes der gozo e já tem algumas ideias sobre o próximo disco. Não querendo aprofundar ainda o que aí vem, Fernão conta que “as próximas coisas que estão a ser feitas, pelo menos na minha ideia, são músicas que têm temas e melodias que já cá estão dentro: são dos avós, são melodias de trabalho e coisas que são facilmente relacionáveis”. Algo que, aliás, já é percetível por exemplo na cadência do canto no tema “Feira das Memórias”, que faz parte deste Spazutempo que parece não ter nem época nem prazo de validade.