Título: & etc. Magazine das artes, das letras e do espectáculo
Autores: Aníbal Fernandes, Rocha de Sousa e outros
Editores: Jornal do Fundão e Canto Redondo
Apoios: Câmara Municipal do Fundão e Fundação Calouste Gulbenkian
Páginas: 252, facsimiladas
Preço: 35 €

A capa de “& etc. Magazine das artes, das letras e do espectáculo”

Este é o tipo de livro que convém apanhar antes que esgote. Não é caso para menos começar desta maneira porque, na era das hemerotecas digitais, tão ágeis no resgate de velhas publicações que qualquer um passa a poder ler em qualquer parte, mas em geral pobres na devida e fundamental contextualização — excepção feita às notícias históricas que Rita Oliveira tão bem escreve para a Hemeroteca Municipal de Lisboa —, o trabalho aqui realizado consegue dar-nos memória viva desse tempo antigo através de depoimentos de colaboradores sobreviventes do suplemento cultural do Jornal do Fundão, de 1967 a 1971. Ora, isso aparece-nos como algo inesperado, raro e talvez até improvável, tanto mais que foi levado a cabo por pequeníssima e iniciante casa editorial, a quem importa felicitar pelo empreendimento, pois tem também, além do mais, um excelente efeito gráfico.

O impulso pioneiro de Pedro Piedade Marques para reavaliar e historiar o meio editorial português da chamada “era marcelista”, que fez pela Liberdade o que militares fariam anos mais tarde pela sua carreira e privilégios, está agora a desdobrar-se em iniciativas de outros, descortinando-se — meio século depois — a obscuridade de chumbo por regra ou preconceito atribuída à década de 1960. Que esse esclarecimento tenha tardado tanto é que bem nos deveria incomodar, pois entretanto muito se perdeu inevitavelmente, neste país antigo que cuida com particular descuido da sua memória histórica.

Da mesma maneira que o primeiro modernismo esperou quase um século para ser profundamente reconhecido e escrutinado, também a vida artística e literária de 1945 a 1974 precisa ainda de muita “arqueologia” e reavaliação historiográfica para se perfilar devidamente em perspectiva, sacudindo mitificações de resistência e apropriações abusivas que conseguiram firmar reputações indevidas. Mais do que a crise académica de 1962, ou o comunismo clandestino, foram as experiências editoriais na imprensa e no livro, o galerismo de arte, o cineclubismo e o teatro em franca expansão e contemporaneidade que rasgaram de alto a baixo novas frestas de liberdade, vigiada e censurada é certo, mas também vista muito de esguelha pela ortodoxia dum certo activismo político comandado a longa distância, por serem afinal expressões culturais arredias ao longo, igualmente nefasto e também ele já decrépito domínio neo-realista. Não é de somenos sublinhar isto. A situação do país em 1974 era já bem a consequência duma década de ampla renovação da vida cultural e dos modos de viver (e em Angola e Moçambique mais ainda), do que o triunfo claro e efectivo duma “resistência antifascista” que cobrou — e cobra ainda — pesadamente os seus sacrifícios: extraporâneo e com fragilidades de monta, dificilmente consertáveis, o museu no forte de Peniche vai torturar as finanças públicas até ao terror da delapidação, sem que haja ou possa haver futura responsabilização dos seus fautores, que o conceberam e concederam — quarenta anos depois de “Abril” — como estrita e despudorada contrapartida duma negociação política de ocasião.

Vítor Silva Tavares — esse sim, um homem profundamente livre — é que nunca pediu nem precisou de prebendas ou condecorações (que recusaria) para nos deixar, em lição conversada, uma práxis editorial que faz dele, em perspectiva histórica, sem qualquer dúvida umas das figuras mais fascinantes no nosso meio cultural das últimas décadas, alguém apetrechado com uma crucial cultura visual e não só para ser um “faz-tudo” de serviço, como Pedro Piedade Marques lhe chama em artigo do Público de 2 de Março passado (p. 35), que merece ser guardado dentro deste & etc… beirão facsimilado, também ele a colocar na estante — apesar dos seus  35 x 25,5 cm… — ao lado de outras duas publicações recentes que fizeram a história das aventuras seguintes, muito bem calibradas por esta: a da revista lisboeta & etc, e a da editora com o mesmo nome, que perdurou até ao fim da vida de Silva Tavares, em Setembro de 2015.

Foram 26 suplementos mensais, de 8 páginas cada, em que uma grande panóplia de temas, certa heterodoxia no leque dos colaboradores e a desconcertante ilustração entre vinhetas antigas e desenhos de artistas novos — criando uma publicação sem precedentes conhecidos entre nós, além de Almanaque — parecem ter sido a maneira hábil de trocar as voltas à Censura (toda «uma coreografia de ataque e defesa», nas palavras de Júlio Moreira, p. 24), ao mesmo tempo que em secções como “Campanha Alegre” e “Colecção [de] Doidices Literárias” ferroadas e alfinetadas legítimas eram dadas em figuras das artes & letras nacionais. “Fulgurante incomodidade”, como lhe chama o sempre exacto Aníbal Fernandes (p. 31), está muito bem visto. Já considerá-lo um “ariete” da revolução cultural que antecede a revolução política de 1974, como faz Emanuel Cameira no título do seu ensaio (pp. 14-27), é que me parece excessiva medalha para um magazine que no fundo reflecte (da melhor maneira, é certo) o novo ambiente cultural desde inícios de década de 1960, a par de outros protagonistas igualmente determinantes — Ernesto de Sousa, por exemplo, nas páginas da Vida Mundial e não só —, e num cenário de irrefutável mudança, expresso até numa publicação de craveira e colaboração internacional que não merece ser esquecida, a Colóquio Artes. E sem esquecer que Silva Tavares coordenava o suplemento literário do Diário de Lisboa enquanto fazia mensalmente o & etc…, ou que o capitalista Manuel Vinhas patrocinou uma folha cultural em Luanda onde escreveram Luiz Pacheco, Alexandre O’Neill e outros. Etc., etc., etc. (já agora…)

O editor do magazine também tinha o seu grupo, em que valerá a pena destacar Herberto Helder, Luiz Pacheco e Ernesto Sampaio (1935-2001), todavia eclipsado nos depoimentos preliminares, e aparece-nos ele próprio no magazine enquanto seu crítico cinematográfico residente — intervenção igualmente deixada de lado nas apreciações históricas prévias ao facsímile — e que, aliás, tarda em ser valorizada com uma edição específica e autónoma (vejam-se “Ti-Tati-Ta”, sobre Jacques Tati, a 7 de Abril de 1968; “The Blow-up ou as obsessões capitais”, sobre Antonioni, logo a 26 de Março de 1967; ou “Mudar de vida”, sobre Paulo Rocha, a 21 de Maio seguinte).

Autores há, como Almeida Faria, João Medina e Jorge Silva Melo, que reconhecem em depoimentos nas páginas iniciais que os seus textos no & etc… foram escritos «por um outro que fui eu», num baixar de cabeça que Eduardo Prado Coelho talvez partilhasse diante da evidência confrangedora do seu “Mas, afinal, o que é o estruturalismo?”, de 11 de Junho de 1967. Mas também aí está, ou esteve, o ar do tempo que o magazine tentou aspirar, abrindo portas a colaboradores de 20 e poucos anos, ou mais novos ainda, como foi o caso de António Sena, depois galerista, fotógrafo, historiador de fotografia e eremita picoense, que aos 15 anos assinou “O gafanhoto”, acolhido “com forte júbilo” porque “não muito à semelhança de outros consegue escrever novo” (6 de Abril de 1969).

É também desse novo português nos anos 1967-71 — o possível novo português, mas claramente afirmativo e refrescante — que esta bela iniciativa editorial nos dá conta, inesperadamente como convém.