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Título: Corpos Celestes
Autor: Jokha Alharthi
Editora: Relógio d’Água
Ano da Edição: janeiro de 2020
Páginas: 240
Preço: 17€

O romance foi publicado em janeiro em Portugal pela editora Relógio d’Água

Desde há muito tempo que o Médio Oriente tem sido, pelo menos para nós ocidentais, fonte tanto de fascínio como de repúdio. As lendas de tesouros escondidos, alcançáveis através de palavras secretas, de oásis paradisíacos perdidos no meio do deserto, ou das odaliscas que dançam sensualmente e servem o seu senhor, o sultão, habitam o mesmo espaço imagético que o extremista religioso, a guerra ou a intolerância. É por isso que, muitas vezes, se perde o que está no meio, um mundo habitado por pessoas reais, com ambições, medos e contextos que, ainda que à superfície sejam muito diferentes dos nossos, reportam ao que de mais natural existe no ser humano. É neste mundo que o leitor se encontra em Corpos Celestes. Talvez algumas palavras e nomes nos soem estranhos, algumas atitudes e elementos culturais pareçam muito bizarros, mas todas essas coisas são secundárias, pois são apenas revestimento para as relações humanas mais básicas, comuns a todos.

Este mundo aparentemente distante do nosso, torna-se mais próximo também devido à familiaridade da autora com a realidade por ela escrita. Jokha Alharti nasceu em Omã, país onde se desenrola a narrativa do seu livro, e é percetível a naturalidade com que todas as interações são descritas, a proximidade com os rituais, o conhecimento, por experiência própria, da estrutura de classes dessa comunidade. Nenhum aspeto da sociedade omanense é tratado com simplicidade, ainda que as situações narradas sejam as do dia a dia.

Corpos Celestes narra a história de várias famílias omanenses, da aldeia al-Awafi, quase sempre do ponto de vista das mulheres. Todas estas famílias estão interligadas graças aos casamentos de três irmãs, Mayya, Asma e Khawla. A evolução social de Omã é refletida nestes casamentos, pois cada irmã enfrenta o matrimónio de forma diferente. Mayya aceita rapidamente o noivado que lhe é proposto pela família, mas torna-se alvo dos olhares desconfiados da vizinhança, e do próprio marido, Abdallah, ao decidir chamar London à primeira filha, não só um nome estrangeiro, mas ainda por cima referente a uma cidade dos “cristãos”.

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Asma, a irmã mais instruída, apaixonada por livros, que mais facilmente poderia pôr em causa as tradições mais enraizadas, não oferece qualquer resistência perante o noivo apresentado pela família, um homem que ela mal conhece. Para ela, um casamento é apenas um meio para chegar ao estado de maternidade, algo pelo qual ela anseia desde que a sua irmã se tornou mãe.

Khawla é a irmã que mais se afasta do que dela é esperado, recusando todos os casamentos que lhe são propostos, pois para ela o amor é essencial para um casamento. Ela espera o regresso do seu amado de infância, emigrado no Canadá, e só esse tipo de amor profundo a poderá satisfazer. É também ela a única a divorciar-se, assim que percebe a vacuidade do amor que sentia.

A estas três mulheres, que são o fio condutor de toda a narrativa, junta-se um grande número de personagens que preenchem este quadro da vida em Omã. É dado um grande destaque ao marido de Mayya, Abdallah, o único a quem é oferecida a possibilidade de falar na primeira pessoa, e que tem consciência do passado, presente e futuro, fazendo a ligação entre os dois extremos. Com Zarifa, escrava do pai de Abdallah, temos acesso ao mundo da escravatura, que apesar de oficialmente abolida, continua a ser praticada nas localidades mais remotas. Salima e London, mãe e filha de Mayya, representam os opostos da sociedade omanense, uma mulher agarrada ao mundo do campo, cheio de tradições e rituais, e uma jovem médica, que se casa e divorcia antes de chegar aos 20 anos.

Jokha Alharti consegue reunir um conjunto de personagens bastante díspares, onde cada uma desempenha um papel específico, não havendo nenhuma que represente apenas o papel de figurante. Mesmo estando nós culturalmente tão longe destas pessoas, a autora descreve os comportamentos humanos com tal naturalidade, que não podemos deixar de nos identificar com uma ou outra personagem.

É importante não deixar de referir que uma das questões que vai atravessando todo o livro é o que significa ser mulher. Será que a mulher se esgota no casamento, na maternidade, ou tem de ir para lá disso, para uma vida virada também para si própria e para o seu crescimento pessoal? Não é dada uma resposta concreta, pois Alharti não julga o rumo de vida das suas personagens, limita-se a mostrar-nos uma possibilidade.

Esta obra é essencial para o desenvolvimento de uma visão cada vez mais completa do Médio Oriente, e para uma humanização do outro. O facto de estarmos neste momento a ler a obra de uma mulher muçulmana, que acabou de ganhar o Booker International Prize 2019, é algo a ser muito louvado.