Durante uns tempos, foi uma espécie de profeta do futuro, a anunciar as mudanças que estavam por vir. Pegou em histórias de gente real e deu-lhes a volta, confrontando-as com a sua América natal, captando-as a partir de um ângulo que quase nunca era o mais previsível. Com o tempo foi-se tornando esquivo, menos claro, tentando explicar que nem tudo era preto ou branco e nem tudo tinha de ser percetível. A banda apoiava, mas na dianteira estava sempre ele, o destaque era evidentemente ele, a voz e a guitarra, primeiro acústica e depois elétrica.

Hoje, 60 anos passados desde que pegou trouxas, abandonou a faculdade a meio do primeiro ano e rumou a Nova Iorque porque queria era ser músico, Bob Dylan soa a outra coisa: a um profeta do passado, ao ancião que conta e canta a história honrando a tradição oral, a um já homem-fantasma que revê a história ocidental e os ecos (memórias, referências, símbolos) da sua longa vida com um tom de despedida, rodeado de uma banda que desacelerou, que hoje sabe como poucas a importância de não tocar nota nenhuma mas também, quando as toca, de as tocar tempo suficiente para nos arrepiar.

É arriscado fazer previsões quanto ao que será o futuro de Bob Dylan. Será Rough and Rowdy Ways, o novo álbum que edita esta sexta-feira — o 39.º álbum de estúdio —, o último de originais que grava? Coloca-se na balança a idade (79 anos) e o facto de ser o primeiro disco de canções próprias em oito anos, depois de andar entretido a cantar o cancioneiro americano clássico que ouviu em Sinatra e companhia, e a dúvida torna-se legítima.

A boa notícia? Se for uma despedida — batamos três vezes na madeira para não dar azar — é uma despedida em grande, um disco absolutamente único, que sugere que à beira dos 80 anos Bob Dylan voltou a encontrar um novo tom para a sua música. O que não quer dizer que alguém deva ficar surpreendido se Bob Dylan vier a lançar mais discos e a reinventar-se outra vez, tantas foram as peles diferentes que já teve, musicais e de personalidade.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.