Título: Tono-Bungay
Autor: H. G. Wells
Editora: Antígona
Ano da Edição: março de 2020
Páginas: 472
Preço: 19€

O romance Tono-Bungay, de H. G. Wells, é considerado por muitos a sua obra-prima

H. G. Wells é uma figura incontornável da ficção científica, partilhando com Júlio Verne o epíteto de “pai” deste género literário. As suas obras deram origem a inúmeros mundos onde o humano é obrigado a confrontar-se com o “outro”. Em A Guerra dos Mundos e The First Men in the Moon esses outros são formas de vida alienígenas, hostis à vida humana. Em The Time Machine e The Island of Doctor Moreau o confronto é com o humano mutante, deformado. Com Tono-Bungay, H. G. Wells subverte as expetativas e coloca a sociedade inglesa sua contemporânea sob uma dura análise.

O protagonista é George Ponderevo, uma personagem a quem Wells atribuiu muito da sua própria vida e personalidade. Durante a primeira parte da obra assistimos à infância e adolescência de George, a que podemos chamar uma autobiografia ficcionada do autor. Filho de uma governanta numa grande casa senhorial, George cresce rodeado pela alta sociedade, sempre consciente, no entanto, da sua própria classe, naturalmente mais baixa. É por desafiar estes pressupostos de classe que George é expulso de casa e passa a viver com seu tio, Edward Ponderevo, um excêntrico proprietário de uma boticária.

É aqui que a vida de George muda drasticamente. O seu tio inventa Tono-Bungay, um remédio que promete rejuvenescer e que rapidamente se torna num sucesso de vendas. Edward convida George para dirigir a empresa resultante deste sucesso, pedido a que o sobrinho acede relutantemente, pois rapidamente se apercebe de que o produto não passa de uma vigarice.

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George, num momento de clarividência, e quase podemos dizer, presciência, reflete sobre a natureza imoral e perigosa da publicidade agressiva a produtos que não têm qualquer valor, cujo único propósito é fazer enriquecer o seu criador e investidores. Vê o sistema económico como corrompido, pois só consegue sobreviver através da mercantilização destes produtos desprovidos de valor. É neste ponto que se vai tornando óbvio como a visão política do autor do mundo entra na sua obra. Wells era um conhecido socialista, e por isso altamente crítico da sociedade capitalista do mundo Ocidental.

George, no entanto, renega às suas opiniões políticas. Num momento que nos recorda o Fausto, de Goethe, o protagonista como que vende a sua alma, tornando-se naquilo que criticava. George faz isto para poder convencer uma mulher a casar com ele. Porém, rapidamente chega à conclusão que a sua esposa não é mais que um produto desta sociedade consumista e virada para o produto. Apercebe-se então que não fez mais que comprar a sua mulher, que não aceitou casar consigo até lhe dar um preço razoável.

Tono-Bungay é uma obra extremamente centrada no desenvolvimento das personagens, deixando a narrativa acontecer à volta delas e não o contrário. Usando A Guerra dos Mundos como um exemplo do oposto, nesta obra o protagonista é colocado numa situação, numa narrativa, para com a qual tem de agir. Com Tono-Bungay isto não acontece. Num estilo entre o épico tolstoiano e o bildungsroman dickensiano, acompanhamos as personagens ao longo da sua vida, nas suas várias fases, amores e dissabores.

É claro que Wells não consegue separar-se de todo do género de ficção científica, e ao longo da obra vão surgindo alguns elementos que nos fazem lembrar o Wells mais conhecido. George começa a interessar-se por aviação e pensa em construir um avião, numa altura em que esses assuntos ainda estavam muito subdesenvolvidos. O seu interesse por ciência leva-o a experiências científicas, que mais tarde o levarão à construção de máquinas de destruição. Todos os seus desgostos e desilusões levam-no a uma posição altamente cética para com a sociedade, acabando por vender estas invenções a quem der mais dinheiro.

Wells leva-nos através da psique humana, na sua forma mais complexa, à total destruição de um bom caráter através da enorme pressão à sua volta. É o caso do diamante que se torna em carvão. Em Tono-Bungay, Wells associa, como nunca antes, a sua visão política com a sua arte, numa obra de elevado valor estético e literário.