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Pouco passava das 12h quando Jorge Jesus aterrou no aeródromo de Tires, em Cascais, ao lado de Luís Filipe Vieira. A viagem durou pouco mais de nove horas num jato privado, que tinha saído às 23h do Rio de Janeiro, sem que nenhum dos intervenientes prestasse declarações a alguns jornalistas à espera no aeroporto, incluindo um da Globo que ainda perguntou ao presidente do Benfica se iria contratar mais algum jogador do Flamengo. “Sim, a Nossa Senhora de Fátima”, ironizou, antes de entrar na zona de embarque onde já se encontrava Jesus.

Junto ao aeródromo de Tires estiveram cerca de duas dezenas de adeptos e vários jornalistas à espera de Jesus que acaba de chegar a Portugal depois de longas semanas de negociações para regressar ao Benfica.

As últimas horas de Jesus no Rio

“É emocionante, é fora do normal. Foram sempre assim comigo, com uma paixão muito grande. Claro que foi difícil, quem está no paraíso e toma estas decisões tem sempre de ser difícil”. Na última vez em que entrou pela porta principal do Ninho do Urubu, Jorge Jesus fez questão de tirar fotografias e dar autógrafos a todos os adeptos presentes, com um cartaz de agradecimento ao treinador pelos cinco títulos conquistados em pouco mais de um ano no comando técnico do Flamengo. Muita emoção à mistura, várias palavras de apoio, uma resposta que não trouxe propriamente “a” resposta quando lhe perguntaram se tinha sido complicado mudar de ares. Mas ainda havia mais momentos como este à espera, sobretudo com as pessoas mais próximas que teve no Brasil.

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Depois da conquista do Campeonato Carioca na noite de quarta-feira, naquele que era um dos poucos títulos que ainda lhe faltava (desta forma, o currículo só não encheu o cartão devido à derrota no prolongamento frente ao Liverpool), os “42 milhões de torcedores” do Flamengo foram vivendo variados estados de espírito: alegria, receio, apreensão, descrença, espanto, uns pozinhos de raiva e amargura neste caso destilada pelas redes sociais e com os clubes portugueses ao barulho. Apesar de todo o ruído, a perceção que existia dentro do clube não era a mesma do que fora dos rubro-negros, pelo que o mundo desabou na passada sexta-feira quando, em apenas duas horas, Flamengo, Benfica e o próprio Jorge Jesus confirmaram a mudança para Portugal. Aceite a inevitabilidade, sobrou sobretudo a gratidão, como se viu à entrada do centro de estágio – e a esperança de uma boa sucessão.

“Bem-vindo, JJ!”. Benfica confirma contratação de Jorge Jesus, Flamengo já se despediu do “vitorioso técnico”

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, e Marcos Braz, vice com a área do futebol, deverão viajar ainda esta semana para a Europa para encontrar o sucessor para Jorge Jesus onde estão também nomes portugueses mas que têm uma probabilidade muito reduzida de poderem aceitar ou ser convidados para agarrarem o projeto. Não será fácil, não só pelas alterações substanciais que o agora técnico do Benfica promoveu mas também pelos números com que sai do Brasil. Dois exemplos: teve mais títulos (cinco) do que derrotas em jogos (quatro) em pouco mais de um ano; conseguiu um aproveitamento de 81,6%, um recorde no país desde 2003, ano que marca uma espécie de viragem no futebol brasileiro por passar a ter um Campeonato com 20 equipas a duas voltas.

A mensagem de despedida de Jesus: “Foram 13 meses de uma união perfeita, o rompimento que não deixará cicatrizes”

Na noite desta segunda-feira, Jesus tinha estado a jantar com Marcos Braz num conhecido restaurante na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Os jornalistas apareceram no final mas, ao contrário do que pensavam, Luís Filipe Vieira não se juntou à dupla. No final, o dirigente do Flamengo abordou não só a saída mas também o interesse do Benfica em alguns jogadores da equipa. “O Benfica tem de pagar a multa rescisória [cláusula de rescisão], mas já se posicionou e acho que não vai ter problema nenhum. O Jorge Jesus não é mais um problema nosso, agora é problema do Benfica. Sucessor? É melhor aguentar a pressão da imprensa, dos torcedores e escolher com calma do que errar na escolha ou ser menos atento para daqui a quatro ou cinco meses dar algum problema no meio do Campeonato Brasileiro, da Copa do Brasil ou da Libertadores”, destacou.

Um dia, Jesus não atendeu Vieira. Durante um ano, mal se falaram. Uma década depois, são amigos como sempre – e vão juntar-se na Luz

“Jogadores para acompanhar Jesus? Todo o elenco do Flamengo interessa mas não tem ninguém à venda. Não tem qualquer tipo de interesse oficial por jogadores nossos e se tiver também, para ser educado, eu vou falar que vai ser difícil sair, para não falar de outra maneira. Se quiser levar jogador do Flamengo vai lá e paga a multa rescisória [cláusula], não é pouca. Acho pouco provável um time ter essa condição hoje”, acrescentou o dirigente.

Além do almoço de confraternização com alguns jogadores, funcionários e responsáveis do Ninho do Urubu, Tiago Oliveira passou pela praia da Barra da Tijuca e houve depois música dada pelos próprios jogadores, com Rafinha a tocar cavaquinhos, Vitinho a brilhar no pandeiro e Pedro no tantan, como conta o Globoesporte. Não estiveram presentes apenas os atletas que, aproveitando a folga, estavam ausentes do Rio de Janeiro. Jorge Jesus assinou ainda uma bandeira à saída com a dedicatória “Sempre no meu coração” que, a partir do momento em que voltem os jogos com público, será levada para a zona das claques do topo do Maracanã. Rodolfo Landim e Marcos Braz voltaram a marcar presença. Agora a equipa será dirigida por Maurício Souza, técnico dos Sub-20.

“Vou ver se me consigo aguentar… É a nossa despedida, vocês são um grupo maravilhoso porque estão num clube maravilhoso. Não são só os jogadores que contam, não é só o treinador que conta, nesta altura toda a estrutura está no caminho certo para não parar mais. Vocês são a mola real do clube mas isto só se consegue com o trabalho de muita gente e esta é uma demonstração do que é este clube e do que vai ser este clube no futuro: ninguém mais vai parar o Flamengo, o Flamengo vai ser imparável”, disse no discurso de despedida, já visivelmente emocionado e agarrado a dois dos jogadores mais próximos que tinha no plantel, Éverton Ribeiro e Rafinha.

Já de noite em Portugal, Jorge Jesus, Luís Filipe Vieira (que respondeu com humor à pergunta de um jornalista da Globo que queria saber se levaria mais alguém, dizendo “Nossa Senhora de Fátima”) e os restantes elementos da equipa técnica embarcaram para Portugal num voo privado disponibilizado pelo Benfica para trazer os treinadores, como tinha sido noticiado pelo Observador na sexta-feira. Na partida, Jesus não quis fazer mais declarações à imprensa, sendo que apenas este tem ainda a sua situação por resolver à espera que o Benfica pague a cláusula de rescisão (além do pormenor de ter também no vínculo os direitos de imagem, ao contrário dos adjuntos). Fechou-se uma página na carreira, vai agora começar a abrir-se outra que já não é desconhecida.