O novo filme realizado e escrito pela actriz francesa Jeanne Balibar, que também faz uma das personagens principais, parece uma resposta optimista e positiva ao acre e pessimista “Os Miseráveis”, de Ladj Ly, rodado no mesmo subúrbio de Paris, e em que aliás Balibar também entra, no papel de uma comissária de polícia. A esquerda radical e alternativa adora pensar o mundo em termos de “utopia”, e “As Maravilhas de Montfermeil” é isso mesmo, o retrato de uma autarquia enquanto visão utópica: multicultural, fofinha, harmoniosa, feliz, sem polícia nem crime e onde toda a gente, independentemente de raça, crenças e cultura, se dá como Deus e os anjos. São os antípodas do bairro de “Os Miseráveis”, minado pelo crime, pelas tensões raciais e pelo desemprego, e onde fundamentalistas islâmicos e traficantes de droga disputam os favores dos jovens,

[Veja o “trailer” de “As Maravilhas de Montfermeil”:]

Uma nova equipa chegou ao poder em Montfermeil, e está em marcha uma revolução. Liderado por uma algo ninfomaníaca Presidente de Câmara (Emmanuelle Béart) que tem um busto de Lenine na secretária, o novo conselho municipal é composto por pessoas que oscilam entre o estado de infantilismo mental permanente e o de negação da realidade. Os feriados tradicionais são abolidos e substituídos por dias que celebram a “diversidade” e em que toda a gente tem que andar de quimono ou de “kilt”; é instituída a sesta obrigatória e criado um serviço para garantir a satisfação sexual dos munícipes. Não se vê um polícia, já que nesta Montfermeil irreal basta ir falar com os membros dos “gangs” e dizer-lhes que têm que se portar como deve ser, e abrir canais de comunicação com as várias etnias que lá vivem, para ficar logo tudo bem no melhor dos mundos e toda a gente andar aos beijinhos.

[Veja uma entrevista com Jeanne Balibar e Emmanuelle Béart:]

“As Maravilhas de Montfermeil” é uma comédia em dose dupla. Primeiro, porque Jeanne Balibar, que interpreta uma atontada perita em “wellness” que se está a divorciar do marido, Kamel (Ramzy Bedia), também ele conselheiro municipal, assim o quis; e depois, involuntariamente, porque só mesmo a rir é que podemos encarar este beatífico “wishful thinking” político-social enfeitado com muita declamação de poesia, e rematado com uma execração de Emmanuel Macron, sob a forma de um busto com uma fotografia do dito atada, sobre o qual os autarcas e os membros da feliz, harmónica e modelarmente diversa comunidade de Montfermeil partem ovos.

[Veja mais cenas do filme:]

Esta fita filia-se num certo cinema francês utópico-anarquizante dos anos 70, exemplificado por “L’an 01”, escrito pelo desenhador e autor Gébé com base no seu livro e realizado por Alain Resnais, Jacques Doillon e Jean Rouch, “Themroc”, de Claude Faraldo, ou “Não Toques na Mulher Branca”, de Marco Ferreri, mas atualizado e adaptado às causas do momento. E se o fundo é o que é, da forma, então, nem se fala. Logo no início, alguém comenta que Joelle, a personagem de Balibar, é “desconjuntada”. Chamar isso ao filme é elogiá-lo. “As Maravilhas de Montfermeil” é um caos pegado, uma manta de retalhos visual em que os retalhos nem sequer estão devidamente cosidos uns aos outros.

As interpretações são quase todas tão más como o filme, algumas mesmo embaraçosas. Mas a culpa não é dos atores, antes das personagens pretensamente cómicas e cândidas, mas na verdade patetas, caricaturais ou insofríveis que lhes deram para interpretar (as de Balibar e Bedia são das poucas mais “normais”). Ao despautério municipal e ao delírio ideológico, “As Maravilhas de Montfermeil” junta o desmazelo cinematográfico. É de fazer fugir os eleitores a sete pés.