A dada altura, parecia que a cerimónia de este domingo à noite (madrugada em Portugal) dos prémios Emmy resumir-se-ia a uma só série. O próprio apresentador, Jimmy Kimmel, brincou com o assunto: “Por mim, já chega de canadianos. Ganharam todos os Emmys esta noite”.

O mote da piada foi a noite de glória de “Schitt’s Creek”, série de Dan e Eugeny Levy — pai e filho — que arrecadou os primeiros sete galardões entregues numa cerimónia que decorreu virtualmente, com os vencedores e nomeados a acompanhar os Emmys online para fomentar o distanciamento social devido à Covid-19.

“Schitt’s Creek” foi nada menos do que arrasadora: venceu todos os Emmys referentes a séries de comédia, algo que nunca tinha acontecido na história dos galardões que tiveram este ano a sua 72ª edição. Parecendo reconhecer a excecionalidade de tantos Emmys conquistados, rodeado de elementos da equipa que se juntaram em Toronto para assistir à cerimónia, Dan Levy disse a certa altura: “A internet está prestes a virar-se contra mim, lamento imenso”.

Se o domínio de “Schitt’s Creek” nas categorias de séries de comédia foi absoluto e histórico, sendo também inesperado — tinha como concorrentes séries como “Calma, Larry”, “Insecure” ou “The Marvelous Mrs. Maisel ” —, a cerimónia que anualmente distingue os melhores programas e séries da indústria televisiva coroou ainda “Watchmen” e “Succession” como grandes vencedoras.

“Watchmen”, que reinventa as convenções das séries de super heróis recordando um massacre de 1921 em Tulsa, Oklahoma, para salgar a ferida aberta dos conflitos raciais e da violência sobre negros nos EUA, foi dominadora na sua categoria, a de séries de curta duração (as chamadas limited-series), arrecadando 11 prémios, sete dos quais em categorias técnicas entregues antes da cerimónia.

Já “Succession”, por sua vez, arrecadou menos prémios mas venceu naquela que é para muitos a categoria mais prestigiada e desejada dos prémios Emmy, a de melhor série de drama — sucedendo assim a “Guerra dos Tronos”, que tinha vencido em 2019.

Os vencedores foram muitos ao longo da noite e também a produtora e plataforma de streaming HBO e a atriz Zendaya terminaram a noite de entrega dos Óscares da televisão com motivos para sorrir: a HBO por ter “Watchmen” e “Succession”, duas das grandes vencedoras da noite, no seu cardápio, e a atriz de 24 anos nascida em Oakland, no estado da Califórnia, por ter-se tornado a mais jovem vencedora de sempre da categoria  “Melhor Atriz Principal de uma Série de Drama”. Entre os restantes atores que conquistaram prémios nesta 72ª edição dos Emmys estão Regina King, Uzo Aduba, Eugene Levy, Catherine O’Hara e Jeremy Strong.

A grande concorrente da HBO nos serviços de produção e exibição em streaming de séries, a Netflix, acabou por terminar a noite com o sucesso de “Schitt’s Creek” como trunfo, mas sem muito outros motivos para festejos. A série, aliás, não foi produzida originalmente pela Netflix: teve uma estreia discreta nos ecrãs, tendo começado a ser transmitida na plataforma de streaming em 2017. Os prémios Emmy distingiram agora a temporada mais recente (a 6ª) da série.

Pode consultar a lista com  todos os vencedores principais, anunciados na cerimónia, no final deste texto.

Pandemia, eleições e tensões raciais: os três temas omnipresentes

Ao longo da cerimónia, que este ano decorreu sem convidados e com os nomeados a assistirem a partir dos seus computadores — a maioria pronta a entrar em direto caso vencesse um galardão —, três assuntos foram predominantes.

Um dos temas incontornáveis, nos discursos e nos segmentos apresentados ao longo da cerimónia, era a pandemia da Covid-19, que obrigou os três organizadores dos prémios (Academia das Artes e Ciências da Televisão, Academia Nacional das Artes e Ciências da Televisão e Academia Internacional da Artes e Ciências da Televisão) a reformularem todo o programa dos prémios, vetando a presença de convidados e cancelando a habitual “passadeira vermelha”.

“Bem-vindos aos PandEmmys”

A Covid-19 obrigou, desde logo, Jimmy Kimmel a estar sozinho no pavilhão Staples Center, em Los Angeles — e não, como habitualmente, com nomeados e convidados no Microsoft Theater. Frente a uma plateia sem público, recebendo apenas em palco algumas figuras públicas do setor do entretenimento que apresentaram alguns dos vencedores, o apresentador e humorista que já tinha apresentado os Emmys em 2012 e 2016, fez uma piada com a pandemia logo no arranque: “Bem-vindos aos PandEmmys”.

No seu monólogo inicial, Kimmel começou em tom jocoso, troçando da pertinência de uma cerimónia como estas neste contexto: “Não é possível ter-se um vírus sem se ter um host [que pode ser traduzido para anfitrião ou hospedeiro]. Porquê ter uma cerimónia de prémios no meio de uma pandemia? A sério, porquê? E que raio estou eu a fazer aqui?”. Feita a piada, deu a resposta: “O que se passa hoje à noite não é importante, mas é divertido. Precisamos disso”, notou, lembrando que num ano marcado por “divisões, injustiças, doenças, escola por Zoom, desastres e mortes”, quem esteve confinado, “mantido em casa como prisioneiro, num túnel escuro e solitário” pôde ter a companhia de “um amigo que está disponível para nós 24 horas por dia: a nossa velha amiga televisão”.

O mundo, reconheceu Jimmy Kimmel no seu monólogo inicial, “pode estar terrível” — e está mesmo —, “mas a televisão nunca esteve melhor”. Daí ser preciso que ele estivesse ali “sozinho”, “tal e qual como no baile de finalistas”, porque “isto não é uma convenção MAGA [Make America Great Again, o slogan de Donald Trump], claro que não temos público presente”.

A pandemia trouxe um desafio especial aos organizadores e produtores de toda a cerimónia. Foi preciso enviar mais de 100 kits com material de transmissão — como computadores e microfones apropriados — para os nomeados, para assegurar que estariam prontos para entrar em direto com som e imagem de qualidade a qualquer momento. Num grande ecrã, os nomeados eram apresentados em pequenos “quadrados”, sendo percetível que a escolha do cenário de cada um foi bastante livre: tanto se via gente em casa, com a companhia da família, do cão ou dos filhos no sofá como se via gente em mesas de esplanadas exteriores.

Bem-vindos de volta aos prémios sem pessoas. Antigamente dizia-se que o riso era o melhor remédio, mas este ano aprendemos que isso não é verdade — até porque provavelmente o riso ajuda a espalhar o vírus”, diria ainda Jimmy Kimmel mais tarde.

A pandemia do novo coronavírus dominou tematicamente o monólogo inicial do humorista e apresentador da cerimónia, mas não só: ao longo da cerimónia, alguns segmentos previamente gravados homenagearam os “trabalhadores de serviços essenciais” que continuaram a trabalhar mesmo em período de confinamento e que têm um papel essencial de serviço à comunidade. Foram ouvidos, por exemplo, um camionista de transporte de bens — Tim Lloyd, do Abalama — e uma professora de história, que enviou uma mensagem aos “atuais e antigos alunos”: “Adoro-vos e tenho saudades vossas”.

“Black Lives Matter”, apelos ao voto e o discurso de Mark Ruffalo

Os discursos dos vencedores, por sua vez, focaram-se muito mais em outros temas, como a importância de votar — os apelos ao voto foram inúmeros e constantes ao longo da noite —, os conflitos raciais e a importância de fomentar a diversidade de origens e tons de pele nas histórias que são contadas na televisão.

A maioria dos agradecimentos foram concisos e semelhantes entre si, com os ingredientes habituais de cerimónias como os Emmys, como elogios aos restantes nomeados e uma lista de agradecimentos vasta que incluía de colegas a familiares e produtores televisivos.

Um dos discursos mais distintivos, mais longos e mais aplaudidos foi o de Mark Ruffalo, que venceu na categoria de Melhor Ator Principal de uma Série ou Filme de Curta Duração pelo desempenho em “I Know This Much Is True”. Não deixando de fazer os elogios e agradecimentos habituais, ainda que com menos qualidade de som na transmissão do que os restantes vencedores, Ruffalo explicou que a série que protagoniza é sobre “família” e sobre “um homem que luta para ajudar um irmão que enfrenta uma doença mental”. Assumindo a premissa da série, aplicou-a à América:

Há uma grande questão aqui: como é que vamos curar, honrar e tomar conta uns dos outros, em especial dos nossos mais vulneráveis? A maneira de fazermos isso é com amor, com compaixão, lutando por eles. É isso que temos de fazer hoje. Se temos privilégios, temos de lutar por aqueles que têm menos sorte e que estão mais vulneráveis. O que é incrível na América é a sua diversidade. Somos mais fortes juntos quando nos amamos e quando respeitamos as diferenças que temos entre nós”, apontou.

Embalado, Mark Ruffalo terminou com um apelo ao voto: para se combater o ódio e as divisões, a solução é “levantarmo-nos e irmos votar, votando pela compaixão e pela bondade”. Os aplausos foram audíveis e até Jimmy Kimmel comentou a intervenção: “That was nice“.

O tema dos conflitos e desigualdades raciais que provocaram um tumulto de protestos nos Estados Unidos da América em 2020 também foram explicitamente abordados. Foram-no, por exemplo, por Damon Lindelof, criador da série “Watchmen”, que aborda temas como os movimentos supremacistas brancos, as “reparações históricas” e o massacre da comunidade negra e própsera de Tulsa, em Oklahoma, nos anos 20. Mas foram-no também no pavilhão Staples Center, em LA.

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Em palco, junto a Jimmy Kimmel, o ator, humorista e escritor Anthony Anderson, que estava nomeado (mas não venceu) pelo desempenho na série “Black-ish”, lembrou que este ano os Emmys tinham atingido “um recorde de nomeados negros, o que é fantástico”.  Irónico, chamou a atenção do apresentador: o momento em que disse isto era o momento em que “a malta branca começava a aplaudir e a acenar a cabeça” se a cerimónia tivesse público. Esta edição, continuou, era suposto fazer de 2020 o ano “dos Emmys mais negros de sempre” — mas a pandemia veio estragar a festa. O assunto, sério, foi abordado humoristicamente, mas terminou com o ator e com Jimmy Kimmel a proferirem o slogan “Black Lives Matter”.

Também Cord Jefferson e Damon Lindelof, argumentistas de “Watchmen”, abordaram o tema do racismo sistémico nos EUA ao longo da noite. O primeiro foi o primeiro a falar, assumindo o papel de porta-voz depois da vitória da dupla na categoria de Melhor Argumento de uma Série ou Filme de Curta Duração. Homenageando “os homens e mulheres que morreram no massacre de Tulsa”, conhecida à época como “a Wall Street negra”, Cord Jefferson afirmou: “Este país negligencia e esquece-se da sua própria história. Acho que nunca nos deveríamos esquecer disto”. Já Lindelof falou depois de “Watchmen” arrecadar o prémio de Melhor Série de Curta Duração, abordando o tema das reparações históricas que também tratou na série:

Consulte aqui a lista de todos os vencedores dos prémios Emmy:

Melhor Ator Principal de uma Série ou Filme de Curta Duração:
Jeremy Irons (“Watchmen”)
Hugh Jackman (“Bad Education”)
Paul Mescal (“Normal People”)
Jeremy Pope (“Hollywood”)
Mark Ruffalo (“I Know This Much Is True”)

Melhor Atriz Principal de uma Série ou Filme de Curta Duração:
Cate Blanchett (“Mrs. America”)
Shira Haas (“Unorthodox”)
Regina King (“Watchmen”)
Octavia Spencer (“Self Made”)
Kerry Washington (“Little Fires Everywhere”)

Melhor Ator Secundário de uma Série ou Filme de Curta Duração:
Dylan McDermott (“Hollywood”)
Jim Parsons (“Hollywood”)
Tituss Burgess (“Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. the Reverend”)
Yahya Abdul-Mateen II (“Watchmen”)
Jovan Adepo (“Watchmen”)
Louis Gossett Jr. (“Watchmen”)

Melhor Atriz Secundária de uma Série ou Filme de Curta Duração:
Holland Taylor (“Hollywood”)
Uzo Aduba (“Mrs. America”)
Margo Martindale (“Mrs. America”)
Tracey Ullman (“Mrs. America”)
Toni Collette (“Unbelievable”)
Jean Smart (“Watchmen”)

Melhor Ator Principal de uma Série de Comédia:
Anthony Anderson (“Black-ish”)
Don Cheadle (“Black Monday”)
Ted Danson (“The Good Place”)
Michael Douglas (“The Kominsky Method”)
Eugene Levy (“Schitt’s Creek”)
Ramy Youssef (“Ramy”)

Melhor Atriz Principal de uma Série de Comédia:
Christina Applegate (“Dead to Me”)
Rachel Brosnahan (“The Marvelous Mrs. Maisel”)
Linda Cardellini (“Dead to Me”)
Catherine O’Hara (“Schitt’s Creek”)
Issa Rae (“Insecure”)
Tracee Ellis Ross (“Black-ish”)

Melhor Ator Secundário de uma Série de Comédia:
Andre Braugher (“Brooklyn Nine-Nine”)
William Jackson Harper (“The Good Place”)
Alan Arkin (“The Kominsky Method”)
Sterling K. Brown (“The Marvelous Mrs. Maisel”)
Tony Shalhoub (“The Marvelous Mrs. Maisel”)
Mahershala Ali (“Ramy”)
Kenan Thompson (“Saturday Night Live”)
Dan Levy (“Schitt’s Creek”)

Melhor Atriz Secundária de uma Série de Comédia:
Betty Gilpin (“GLOW”)
D’Arcy Carden (“The Good Place”)
Yvonne Orji (“Insecure”)
Alex Borstein (“The Marvelous Mrs. Maisel”)
Marin Hinkle (“The Marvelous Mrs. Maisel”)
Kate McKinnon (“Saturday Night Live”)
Cecily Strong (“Saturday Night Live”)
Annie Murphy (“Schitt’s Creek”)

Melhor Ator Principal de uma Série de Drama:
Jason Bateman (“Ozark”)
Sterling K. Brown (“This Is Us”)
Steve Carell (“The Morning Show”)
Brian Cox (“Succession”)
Billy Porter (“Pose”)
Jeremy Strong (“Succession”)

Melhor Atriz Principal de uma Série de Drama:
Jennifer Aniston (“The Morning Show”)
Olivia Colman (“The Crown”)
Jodie Comer (“Killing Eve”)
Laura Linney (“Ozark”)
Sandra Oh (“Killing Eve”)
Zendaya (“Euphoria”)

Melhor Ator Secundário de uma Série de Drama:
Giancarlo Esposito (“Better Call Saul”)
Bradley Whitford (“The Handmaid’s Tale”)
Billy Crudup (“The Morning Show”)
Mark Duplass (“The Morning Show”)
Nicholas Braun (“Succession”)
Kieran Culkin (“Succession”)
Matthew Macfadyen (“Succession”)
Jeffrey Wright (“Westworld”)

Melhor Atriz Secundária de uma Série de Drama:
Laura Dern (“Big Little Lies”)
Meryl Streep (“Big Little Lies”)
Helena Bonham Carter (“The Crown”)
Samira Wiley (“The Handmaid’s Tale”)
Fiona Shaw (“Killing Eve”)
Julia Garner (“Ozark”)
Sarah Snook (“Succession”)
Thandie Newton (“Westworld”)

Melhor Série de Competição ou Talentos:
“The Masked Singer”
“Nailed It”
“RuPaul’s Drag Race”
“Top Chef”
“The Voice”

Melhor Série de talk-shows
“Daily Show with Trevor Noah”
“Full Frontal with Samantha Bee”
“Jimmy Kimmel Live”
“Last Week Tonight with John Oliver”
“Late Show with Stephen Colbert”

Melhor Série de Curta Duração:
“Little Fires Everywhere”
“Mrs. America”
“Unbelievable”
“Unorthodox”
“Watchmen”

Melhor Série de Comédia:
“Curb Your Enthusiasm”
“Dead to Me”
“The Good Place”
“Insecure”
“The Kominsky Method”
“The Marvelous Mrs. Maisel”
“Schitt’s Creek”
“What We Do in the Shadows”

Melhor Série de Drama:
“Better Call Saul”
“The Crown”
“The Handmaid’s Tale”
“Killing Eve”
“The Mandalorian”
“Ozark”
“Stranger Things”
“Succession”