Vai "Watchmen" ocupar o lugar de "Guerra dos Tronos"? Criador e elenco explicam o que aí vem /premium

O que dizem os super-heróis de nós? E se fossem humanos a lidar com o racismo em Oklahoma, EUA? Damon Lindelof, Regina King e Jeremy Irons apresentam-nos a grande aposta da HBO.

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Se a série é um mistério, um longo novelo que começa por parecer impercetível e se começa a desfazer e revelar com o decorrer dos episódios — e é o próprio criador que admite, em conversa com o Observador e outros meios de comunicação, que o intuito aqui era que, ao fim da primeira hora e meia, ninguém percebesse exatamente o que se está a passar —, talvez a melhor maneira de começar este texto seja com uma série de perguntas.

E se a revolucionária série de banda desenhada Watchmen, publicada nos anos 1980 e tida como obra de culto do género, capaz de humanizar e dar complexidade a super-heróis discutindo o mundo através deles, chegasse à televisão como sequela já com poucas personagens originais? E se os protagonistas desta nova série fossem maioritariamente novas figuras, super-heróis que são humanos sem poderes especiais e vivem num país, EUA, simultaneamente muito diferente e muito parecido com o atual? E se a produtora, estação e plataforma de streaming norte-americana HBO entregasse a missão de transformar a série de banda desenhada em série de televisão a um argumentista, escritor e produtor, com “Lost” (em português, “Perdidos”) e “The Leftovers” no currículo, conhecido pelas narrativas intrincadas e pelo gosto em atirar espectadores para fora de pé?

Tudo isto aconteceu e “Watchmen”, a grande aposta da HBO depois do final de “Guerra dos Tronos” e do sucesso de “Chernobyl” — até ao fim do ano deverá ainda chegar mais uma aposta forte, “His Dark Materials”—, está mesmo a chegar aos ecrãs de televisão, começando a ser transmitida em Portugal na próxima segunda-feira, dia 21, na plataforma portuguesa da produtora e distribuidora.

[O trailer da nova série da HBO, que chega a Portugal na próxima segunda-feira:]

Chamar-lhe adaptação seria pouco rigoroso: o que Damon Lindelof (o criador), Regina King (a grande protagonista), Jeremy Irons e companhia fizeram com “Watchmen” foi criar um universo novo apropriando-se do espírito geral da banda desenhada original. O que aconteceu nos anos 1980, com a caça aos vigilantes mascarados (e reformados) que estavam longe de ser os super-heróis impolutos que pululam em tantas outras obras do género, ficou para trás. Tal como o mundo hoje é diferente do mundo nos anos 1980, 30 anos depois dos acontecimentos de “Watchmen” também a linha narrativa é outra, os conflitos são diferentes, os receios já não são os mesmos, o contexto em que as personagens se movem é incomparável.

Na série de televisão que está prestes a ir para o ar, a protagonista é uma mulher negra, Angela Abar, que se torna “Sister Night” quando mascarada. Só é super-heroína se o conceito de super-herói for, como o era para Alan Moore (autor da banda desenhada original) e como o é para Damon Lindelof, bastante lato, abarcando gente com convicções e dúvidas, força e debilidades, protagonistas de uma história com cenas de ação com fartura. Angela Abar, interpretada pela premiada e “Oscarizada” Regina King, é apenas uma detetive disfarçada do departamento de polícia de Tulsa, que finge ser empresária com tenções de abrir uma padaria — e que precisa de se mascarar para atuar como polícia.

Na cidade que é Tulsa, Oklahoma, em 2019 e em “The Watchmen”, os polícias são como ela [Angela Abar, interpretada pela atriz Regina King]: têm restrições ao uso de armas, têm de se mascarar para proteção própria e enfrentam um grupo de supremacistas brancos

Na cidade que é Tulsa, Oklahoma, em 2019 e em “The Watchmen”, os polícias são como ela: têm restrições ao uso de armas, têm de se mascarar para proteção própria e enfrentam um grupo de supremacistas brancos que funciona como uma espécie de Ku Klux Klan. Também eles, indignados pela sua perda de privilégios — aqui traduzida numa lei que recompensa economicamente as vítimas e descendentes de vítimas do massacre de negros que aconteceu em Tulsa, a “Black Wall Street”, nos anos 1920 —, querem restituir uma normalidade antiga, mais velha do que a idade que têm.

O desafio de criar um novo universo e novas personagens para discutir um dos grandes temas da banda desenhada dos anos 1980 — o que significa e implica a ação dos super-heróis vigilantes, que fazem justiça pelas próprias mãos e à margem das leis e burocracias — é grande o suficiente para o escritor original de “Watchmen”, Alan Moore, ter dito em tempos que achava que adaptar a história ao cinema ou televisão mudando-lhe o contexto era praticamente impossível. Tal não impediu o realizador Zack Snyder de tentar, com um filme de 2009 (bastante respeitador para os entusiastas, transposição algo servil da história original para os críticos) que, como todas as tentativas de adaptação e apropriação do universo original, não levou a bênção de Moore.

Não querendo uma “adaptação” ingénua, fazer entretenimento asséptico e ligeiro, Damon Lindelof tentou apoderar-se do espírito original e também ele construir uma narrativa revolucionária, nova, que falasse ao coração da América atual, que discutisse os traumas passados e presentes do seu país (maioritariamente, embora temas como a violência e os limites legais à justiça, também presentes, não se circunscrevam geograficamente). Numa carta aberta aos fãs de “Watchmen”, disse-lhes para não esperarem uma “adaptação” da história original, que é “terreno sagrado”. Moore escreveu o “nosso Antigo Testamento”, Damon Lindelof tentou agora escrever o “novo Testamento”, sabendo que de alguns fãs terá “uma inevitável rejeição e aversão” ao que fez.

Sentado no quarto 1727 do 17º piso do hotel Gramercy, em Nova Iorque, em conversa com o Observador e com outros meios de comunicação internacionais, usou o humor para assumir o risco. Se foi desafiante pegar em material (para tanta gente) sagrado? “Bom, sim, mas a boa notícia é que faço sempre programas de televisão que o público não percebe”. Damon Lindelof riu-se. Estava com vontade de falar e explicar os seus propósitos, as ideias que deram origem a tudo isto, mesmo sabendo que ao fim e ao cabo o espectador irá “ver o que quer ver”.

O humor é menos auto-depreciativo do que parece, Lindelof sabe que há expectativa quanto à série e está convencido que esta “iria falhar” se se alheasse do mundo e da América de hoje, abstendo-se de o abordar. O que subentende que está convencido que tem hipóteses de não falhar. Como titulava o The New York Times esta quarta-feira, aproveitando um trocadilho com a expressão “winter is coming” da série “Guerra dos Tronos” (uma das grandes apostas da HBO nos últimos anos), Watchmen is coming. E vem com tudo, com ambição de conquistar o mundo.

Damon Lindelof: “Os nossos deuses são os super-heróis”

Se “Watchmen” é tido como uma das bandas desenhadas de super-heróis mais complexas entre todas as que existiram até então, com referências literárias e políticas pelo meio, levar este universo para a televisão em 2019 exigia um conhecimento profundo da narrativa de Alan Moore, que foi complementada à época com os desenhos Dave Gibbons (com quem Lindelof falou) e a técnica de coloração de John Higgins. Gibbons, por sinal, terá dado mesmo uma bênção implícita a Lindelof, quando numa ida recente à Comic Con nova-iorquina legitimou a forma como o criador desta nova série usou a máscara utilizada por Rorschach — uma das personagens da banda desenhada, que além de intempestiva era “definitiva, consistente e hipnoticamente segura do que faz”, segundo o autor dos desenhos originais — como símbolo de um movimento supremacista, racista e violento chamado “Seventh Kalvary”.

Damon Lindelof é “um grande fã” da narrativa original desde a adolescência, tendo  também”consumido praticamente todas as entrevistas dadas pelos criadores” da banda desenhada, como confessou numa conferência de imprensa com jornalistas em que o Observador esteve presente. “Ler aqueles doze fascículos foi um momento cultural importância na minha formação, durante a adolescência. Tem uma qualidade absurda que tentámos criar também aqui. É bastante claro, quando se lê a narrativa original, que foi feito por pessoas que amam a arte da banda desenhada e dos heróis da banda desenhada, mas olham para tudo isso de uma forma muito mais introspetiva e profunda, que baralha tudo”.

Depois de "Lost" e "The Leftovers", "The Watchmen" é o novo grande projeto televisivo de Damon Lindelof

Alberto E. Rodriguez

O guionista e criativo norte-americano de 46 anos admite, aliás, que a sua escrita e produção televisiva devem muito à obra de Alan Moore, Dave Gibbons e John Higgins. A série “Lost” (“Perdidos”), por exemplo, que idealizou com J. J. Abrams e Jeffrey Lieber, foi “influenciada” por Watchmen “de muitas formas”, que Lindelof especificou: “Quase todos os fascículos de Watchmen diferenciavam-se por se centrarem numa personagem. No fim, não tínhamos um herói único, mas sim perspetivas múltiplas sobre o que acontecia. Em ‘Lost’ isso acontecia, havia um episódio mais dedicado a uma personagem, outro a outra. Também terá influenciado na opção por uma narrativa não linear, com flashbacks, e na criação de uma personagem como o Desmond, que foi bastante inspirada pela forma como o Dr. Manhattan [personagem de Watchmen] lidava com o tempo. Além disso, o facto de ‘Watchmen’ ser uma obra misteriosa, em que não se sabe exatamente o que se está a passar e qual é a grande conspiração por detrás de tudo o que acontece, certamente influenciou ‘Lost’ e muitas outras coisas que fiz”.

Destruir deuses, explicou Lindelof, seria sempre "complicado" — e é preciso "continuar a ir à igreja" —, mas há "histórias mais interessantes para contar, como se está a ver com coisas como o Joker", cujo sucesso mostra que o público está disponível para ver os seus "deuses" reinventados

Quando foi desafiado pela HBO a fazer a sua versão de “Watchmen” em televisão, Damon Lindelof teve uma coisa em conta: a liberdade criativa que teria ou não na “adaptação”. Sendo um fã de obras de ficção com super-heróis, um género “que está vivo e bem” mas que pela dimensão que ganhou na indústria de entretenimento “parece não permitir tanta experimentação como permitia nos anos 1980”, o criador da série estava ciente de que “os nossos deuses são super-heróis, na América temos uma relação muito mais íntima com o Iron Man do que com a maior parte das religiões organizadas”.

Destruir deuses, explicou Lindelof, seria sempre “complicado” — e é preciso “continuar a ir à igreja” —, mas há “histórias mais interessantes para contar, como se está a ver com coisas como o Joker”, cujo sucesso mostra que o público está disponível para ver os seus “deuses” reinventados. Acresce que se com personagens como “o Batman ou o Super Homem” seria “mais difícil” arriscar, pelo modo como se inscreveram no imaginário popular e coletivo, com personagens que não ficaram tão “icónicas” como as de Watchmen “era mais fácil” contar histórias novas e surpreendentes.

A inspiração para fazer de “Watchmen” uma série ficional passada em Tulsa no ano de 2019, proveio, em parte, de um texto que Damon Lindelof leu na revista Atlantic, escrito pelo jornalista e escritor norte-americano Ta-Nehisi Paul Coates. O artigo, intitulado “The Case for Reparations”, revia o massacre da comunidade negra e próspera de Tulsa, Oklahoma — chamada de “Wall Street negra” — em 2021. Lindelof interessou-se sobre o assunto, leu um livro que o abordava (chamado “The Burning”) e quando se deparou com a hipótese de falar da América atual em “Watchmen”, pensou: porque não centrar a história num local onde os conflitos raciais, que hoje são ainda um trauma presente para os Estados Unidos da América, tiveram contornos de matança? E, já agora, porque não colocar as personagens de uma série de super-heróis longe de Nova Iorque, já que “estas séries acontecem sempre em Nova Iorque, e quando não é aí, é em Gotham ou Metropolis, que fazem partem de Nova Iorque”? Afinal, “o que é que se passou e o que é que se passa no resto dos EUA, em Oklahoma, em Tulsa”, de que valha a pena falar?

A série, passando-se em 2019, teria de responder a uma pergunta, explicou o criador: "Culturalmente, que momento estamos a viver nos EUA atuais? O que está a acontecer, o que está a causar ansiedade?". A resposta daria o tom à narrativa: "Para mim, é inegavelmente as relações raciais e a falta de confiança nas autoridades, não só policiais mas também governativas"

Se há alvo que Damon Lindelof não queria falhar nesta nova série era o presente americano. A banda desenhada original tinha as tensões nucleares entre EUA e Rússia nos anos 1980 em pano de fundo. A série, passando-se em 2019, teria de responder a uma pergunta, explicou o criador: “Culturalmente, que momento estamos a viver nos EUA atuais? O que está a acontecer, o que está a causar ansiedade?”. A resposta daria o tom à narrativa: “Para mim, é inegavelmente as relações raciais e a falta de confiança nas autoridades, não só policiais mas também governativas. Sendo esses os assuntos prementes da América atual, pegámos nessas ideias e infundimo-las nas bases fundadores já existentes de Watchmen“.

Entre a ideia e a concretização, foi preciso convencer, claro, a HBO — mas isso não foi particularmente difícil, explicou Damon Lindelof quando questionado pelo Observador sobre as primeiras reações a este projeto de adaptação livre. “A primeira pessoa com quem falei foi um tipo chamado Jeff Jensen, que é meu amigo e que acabou por participar na escrita da série. Conheci-o quando era jornalista, escreveu sobre ‘Lost’. É a única pessoa que conheço que era ainda mais fã de ‘Watchmen’ do que eu”, recordou. Os dois encontraram-se no escritório de Lindelof e este contou a Jensen os planos que tinha. “Disse-me: és louco, porra… posso trabalhar contigo nisto? Fui para casa e tive uma reunião na HBO com umas sete pessoas. Cinco delas não sabiam nada de ‘Watchmen’, as outras conheciam bem a história. Expliquei-lhes os meus planos para a temporada durante uns 19 minutos e os sete ficaram entusiasmados, acharam que podíamos levar as pessoas a vê-la”, contou ainda.

O criador da série, Damon Lindelof, ao lado da protagonista, Regina King

FilmMagic

O trabalho para construir uma série que é uma aposta forte da reputada produtora e distribuidora norte-americana foi intrincado. Damon Lindelof contou ao Observador que contratou um conjunto de pessoas para trabalhar na escrita do argumento e que “só quatro delas, eu incluído, eram homens brancos. Tentei trazer para a discussão outras perspetivas, culturais e pessoais. Uma das pessoas, por exemplo, era um ex-polícia, achei importante ter alguém com essa experiência a trabalhar comigo. Ia perguntando a pessoas: esta história faz sentido para ti? Se me dissessem que não, estavam contratados [sorriso], porque se conseguisse que aquilo fizesse sentido para eles, tinha a missão cumprida”.

Regina King: “Não sabia que raio de projeto iria liderar”

É a super-heroína da série, se por super-heroína entendermos uma pessoa com as suas debilidades, mas com uma força (não só física, mas também a física impressiona) e códigos morais poderosos. É, também, a “líder do elenco”, como lhe chamou um dos outros atores em declarações aos jornalistas, Tim Blake Nelson, que interpreta outro dos proto-super heróis da série, chamado Looking Glass. Regina King apareceu no quarto 1727 do hotel Gramercy, em Nova Iorque, sorridente — e com uma assistente por perto que tinha o cronómetro a contar e anunciaria mais tarde o fim da sessão de perguntas e respostas com jornalistas.

"O Damon disse-me, e estou a parafrasear uma nota que escreveu, que este era um projeto que lhe era muito querido, que ia ser o seu próximo trabalho e que não conseguia imaginar fazer isto com outra pessoa que não eu. Portanto, inicialmente não sabia que raio de projeto iria liderar, só sabia que ok, estou cá para ele".
Regina King

A atriz de 45 anos, que se estreou na televisão nos anos 1980, passou pelo cinema e teve em 2018 um ano de aclamação na indústria do entretenimento — ganhou um Óscar e um Globo de Ouro de Melhor Atriz Secundária pela interpretação da personagem Sharon Rivers em “Se Esta Rua Falasse”, de Barry Jenkins —, foi desafiada por Damon Lindelof, com quem já tinha trabalhado em “The Leftovers”, a ser protagonista desta série. E de uma forma a que não resistiu, como confessou aos jornalistas em Nova Iorque: “Disse-me, e estou a parafrasear uma nota que escreveu, que este era um projeto que lhe era muito querido, que ia ser o seu próximo trabalho e que não conseguia imaginar fazer isto com outra pessoa que não eu. Portanto, inicialmente não sabia que raio de projeto iria liderar, só sabia que ok, estou cá para ele”.

Regina King não tinha lido a banda desenhada original e também não tinha visto o filme de Zack Snyder antes de ser convidada por Damon Lindelof para a série. Por isso, o que a motivou a aceitar o desafio foi simplesmente “o Damon querer que liderasse o elenco, por assim dizer” e “o apelo pelo ideia de ser parte de um mundo que nunca tinha visto, mas que se propunha a entreter ao mesmo tempo que abordava assuntos tão sérios e atuais”. E que assuntos são esses? O discurso estava afinado com o do criador da série: “Neste momento, não há nada que crie mais ansiedade no meu país do que questões raciais e policiais. Abrir com um evento histórico como [o massacre de] Black Wall Street não significa apenas que esse é o ponto de partida desta história alternativa de ‘Watchmen’, significa que devemos lembrar-nos de quão longe chegámos e crescemos e do quão a história dos EUA pode ser revista e lembrada dependendo de quem a evoca”.

Regina King é a protagonista da série

Getty Images

Sobre a sua personagem, a atriz disse que é “uma mulher que está a descobrir de onde vem, qual é a sua família e a sua origem”. É uma “metáfora perfeita para a existência de pessoas negras na América que foram tiradas da nossa história, que não a conhecem” e é mais um projeto televisivo da atriz, que gosta de pensar em si como “uma das primeiras a voltar à televisão, depois de estar no grande ecrã”, decisão que tomou no passado por “querer passar tempo em casa com o meu [seu] filho”. Agora, “toda a gente faz filmes mas também televisão — e acho que isso acontece porque as histórias que se estão a contar na TV, nos canais por cabo, no streaming, abriram o horizonte das coisas, tornaram esse horizonte maior. E a maioria dos atores o que quer mesmo é fazer parte de projetos com histórias bem contadas”.

Jeremy Irons: “Um tipo fazia televisão e perguntava-se: para que é que me dei ao trabalho?”

Nos primeiros episódios de “Watchmen”, a participação de Jeremy Irons é reduzida, pese embora seja um dos atores mais conhecidos do elenco. Isso não o impediu de interpretar Ozymandias, a personagem da banda desenhada de Alan Moore que no final exila-se para Marte. É a única personagem da série que não está em Tulsa, nesta nova série da HBO. O próprio criador de “Watchmen”, Damon Lindelof, brincou com isso em conversa com jornalistas, quando disse, sorridente: “Obviamente o Jeremy Irons não está em Tulsa. Não sei onde está, mas em Tulsa não está”.

"Almocei com o Damon Lindelof em Los Angeles e ele falou durante uma hora e meia com imenso entusiasmo e com uma imaginação extraordinária. O meu papel não era sequer completamente claro, mas achei que seria interessante fazer parte disto porque o entusiasmo dele era contagioso."
Jeremy Irons

Mais do que o papel, o que levou o reputado ator inglês, que ao longo da carreira tem feito sobretudo teatro e algum cinema (A Paixão de Swann, Reino dos Céus e Comboio Noturno para Lisboa, entre outros), a aceitar o desafio de Damon Lindelof para entrar na série, foi a fé no entusiasmo que este lhe mostrou: “Almocei com o Damon Lindelof em Los Angeles e ele falou durante uma hora e meia com imenso entusiasmo e com uma imaginação extraordinária. Fiquei meio inebriado com as ideias e o entusiasmo dele. O meu papel não era sequer completamente claro, mas achei que seria interessante fazer parte disto porque o entusiasmo dele era contagioso. Depois, claro, percebi que a minha personagem tinha qualidades enigmáticas, interessantes, bizarras, que havia aqui uma oportunidade para fazer comédia inesperada. Houve muitas coisas que me interessaram”, recordou.

Com uma classe inigualável, cumprimentado pessoalmente todos os jornalistas e querendo saber de onde todos vinham — “adoro Lisboa”, disse-nos, antes de testar brevemente o seu francês em conversa com um jornalista da estação France Info —, Jeremy Irons contou ao Observador que nunca foi um fã devoto de super-heróis e até de banda desenhada, apesar de em criança ter lido fascículos “do Eagle” e do The Dandy”. Enquanto cresceu, não ganhou o hábito e “Watchmen foi o primeiro romance em banda desenhada que li”. Achou interessante, mas a experiência não é para repetir: “Prefiro apenas as palavras escritas como método para contar as histórias, suponho que seja porque não estou habituado ao formato BD”.

A outro jornalista, que insistia em perceber porque não ficou siderado com o modelo de banda desenhada, Irons respondeu: “Não estou habituado. Tenho a idade que tenho e estou preso nas minhas maneiras. Estou habituado a ler livros que têm aquele tamanho específico e que contam a história com palavras e não com imagens, é só isso, pronto”. Do original reteve, ainda assim, “a estrutura, com os flashbacks, que obrigam a estar sempre atento — e acho que o Damon traduziu bem isso para o ecrã”. Perguntámos-lhe então se o que o convenceu foi, portanto, isto não ser exatamente uma série de super-heróis tradicional. O ator respondeu: “Talvez, acho que sim. A forma como ele subverteu aquele universo original e o reconstruiu de forma artística é algo de que gostei, que encaixa no meu modo de pensar bastante bem”.

O ator britânico Jeremy Irons na série "Watchmen", que estreia na próxima segunda-feira em Portugal

Colin Hutton

A popularidade dos filmes e séries de super-heróis, contudo, não lhe tem passado ao lado. “Costumava ser westerns, não era? Toda a gente costumava fazer westerns, toda a gente amava westerns, agora a febre é com super-heróis. Penso que isso terá a ver com os direitos [de adaptação e distribuição] que foram adquiridos pelas empresas de filmes, que agora querem recuperar o dinheiro e apresentam-nos todas estas histórias. Acho que também tem algo a ver com um desejo que as pessoas que vivem em cidades têm de escapar ao quotidiano, de imaginar-se com poderes ilimitados, porque vivem em sociedades nas quais os poderes individuais têm diminuído cada vez mais”.

Como foi, já agora, interpretar “o homem mais inteligente do mundo”?, perguntou-lhe um dos jornalistas. “Foi difícil, porque não tive muitas oportunidades de mostrar que o era. E não estou certo que essa caracterização não fosse irónica, acho que provavelmente sê-lo-ia. Ele está numa localização particular, sem tecnologia, não pode fazer grande coisa, vive com um sentimento de frustração e aborrecimento. Está preso ali, ainda por cima com dois companheiros muito aborrecidos, e passa o tempo a pensar em como pode sair. Portanto, vira-se para a escrita de peças de teatro, o que acho que nunca mais devia fazer”, afirmou, bem-humorado.

"Costumava evitar a televisão. Por mais esforço que se colocasse numa série ou num filme televisivo, acabava a noite e toda a gente já estava a ver futebol. Um tipo perguntava-se: para que é que me dei ao trabalho?", contou Jeremy Irons ao Observador

Questionado pelo Observador sobre a forma como vê a influência crescente das séries de televisão como opção preferencial de entretenimento, em detrimento dos filmes, o ator britânico confessou que “costumava evitar a televisão”, já que “por mais esforço que se colocasse numa série ou num filme televisivo, acabava a noite e toda a gente já estava a ver futebol. Um tipo perguntava-se: para que é que me dei ao trabalho?”.

Agora, porém, com o streaming e a possibilidade de ver séries “anos depois” de estas serem exibidas, tudo mudou. Além disso, “os argumentistas e os orçamentos das séries passaram a ser parecidos com os de filmes pequenos e artísticos — ou até, em alguns casos, com os dos filmes maiores. Há melhores argumentos, melhores orçamentos, atores a trocarem o cinema pela televisão: foi isso tudo que mudou. Sou um dos que acha isso ótimo, que acha que ainda estamos a falar de cinema, embora não haja nada como sentarmo-nos num grande auditório com muitas outras pessoas a partilhar um grande ecrã. Só que isso está-se a tornar cada vez mais raro. Passo muito tempo em salas vazias a ver filmes, por estes dias. Espero que as pessoas recuperem o hábito de sair e partilhar a vida juntas, em vez de ficarem sentadas em frente aos seus ecrãs nas suas casas”.

As reticências ao trabalho em televisão, particularmente em séries, está por vezes relacionado com o receio dos atores em comprometerem-se com um projeto que pode levar vários anos. Mas quanto a isso Jeremy Irons está descansado: “Mais temporadas? Vamos ver se existirão mais e se estarei envolvido em mais. Acho que fiquei com a opção de decidir isso, se me fosse pedido. É algo que por exemplo o meu filho está a passar, está a fazer uma série que o ocupará durante cinco anos e está no segundo. É mais do que o que gosto de fazer…”, respondeu a um jornalista. Já a reação do público ocupa-lhe mais o pensamento: “Não sei há quanto tempo sinto isto, mas com o meu trabalho no teatro fiquei a sentir que dependia das pessoas serem recetivas. Este trabalho é uma conversa entre atores e público e nessa conversa é preciso que as pessoas estejam abertas às posições do outro. Defendo isso também na política, as pessoas têm de estar disponíveis para mudarem as suas ideias. A minha crença é que o melhor que se pode fazer é não ter opiniões inalteráveis, estar disposto a mudar”.

Hong Chau e Louis Gassett Jr., uma dupla a falar de um “elenco diverso”

Apareceram em dupla, ele especialmente brincalhão, de língua afiada, impecavelmente vestido, feliz por fazer parte do elenco de “Watchmen”. Não é caso para menos: ao contrário de outros atores, apesar da reputação resultante da longa carreira no cinema (vencendo até um Óscar de Melhor Ator Secundário nos anos 1980, com o filme Oficial e Cavalheiro), Louis Gassett Jr. entrou em “Watchmen” porque se candidatou a isso. “Consegui que algumas pessoas pusessem o meu nome na lista e foi mágico, pude interpretar este tipo que tem 105 anos, está numa cadeira de rodas e é muito misterioso. É um prazer!”, apontou aos jornalistas em Nova Iorque, sorridente.

A personagem que Louis Gassett Jr. interpreta, e a que o ator se referia, apropria-se de alguns elementos da história biográfica de Bass Reeves, o primeiro deputy marshall negro da história dos EUA — que, não por acaso, trabalhou sobretudo em Oklahoma e morreu na cidade de Mukosgee, desse mesmo estado, em 1910. À imprensa, o ator começou logo por dizer que quando foi convidado por Damon Lindelof para “Watchmen” não “conhecia nada” da banda desenhada — “conheço a HBO, conheço a história dos bombardeamentos de Tulsa, e conheço a história do Bass Reeves, o marshall mais bem sucedido do Oeste. É há muito um sonho interpretar o Bass Reeves. Achava que a oportunidade tinha passado mas apareceu o Damon, com a sua mente brilhante”. Para Louis Gassett Jr., “sabe-se muita coisa de todos aqueles tipos, o John Wayne e assim, mas ninguém fala do Bass Reeves. Pude apropriar-me de elementos dele, o Damon acrescentou à sua mente criativa esses elementos para contar a outra história que tinha pensado [para a personagem]”.

O ator Louis Gassett Jr. interpreta uma das personagens mais misteriosas da série

Ao lado de Louis Gassett Jr., Hong Chau, que também faz parte da série (interpreta Lady T.), ia falando ocasionalmente. Dizia que também ela “não conhecia a história de ‘Watchmen’ de todo” mas que ficou contente por “o Damon querer que a série seja acessível também a quem não fazia parte da base de fãs devotos da novela gráfica”. Defendia que “Watchmen” é uma oportunidade “para falar destes assuntos tão importantes que se estão a discutir hoje, mas que já vêm de há muitas, muitas gerações”, descrevendo-os como “traumas familiares, geracionais e históricos com os quais todos temos de lidar. E acrescentava que para interpretar a sua personagem, uma trilionária que “admira bastante o Ozymandias” — como a introduziu um jornalista —, inspirou-se “nos bilionários de tecnologia atuais, como o Elon Musk e o Mark Zuckerberg. A minha personagem também tem grandes ideias, tem a responsabilidade de salvar o mundo. Isso é uma ambição tão exigente que apesar de ter benevolência, também é rígida e implacável. Em teoria, o que ela faz é por um bem maior, mas vamos ver se os seus métodos são corretos ou desagradáveis”.

O “show”, contudo, era sobretudo de Louis Gassett Jr., que falava com visível prazer e pouco filtro. “Fazer isto é como passar de um clima demasiado quente para um clima agradável e moderado”, disse a um jornalista. “Esqueçam o dinheiro”, dizia a outro, que lhe perguntava sobre o que achava da lei de reparações que, na série, prevê isenções fiscais a quem foi vítima ou descende de vítimas do massacre de Tulsa, “o importante é que todas as crianças do mundo deviam ter acesso a saúde gratuita, habitação, roupa, comida e educação. Deem-lhes isso! Não é preciso darem-nos dinheiro, é mais simples do que tendemos a pensar”.

"Quando comecei seria impossível fazer algo assim, mas haver hoje a consciência que se pode fazer algo para substituir a 'Guerra dos Tronos' com um elenco tão diverso, com uma história como esta, era impensável [nesta indústria do entretenimento] até há dez ou 15 anos. E agora é necessário", afirmou Louis Gassett Jr., em resposta ao Observador

Ao Observador, que o questionou sobre como tem vivido por dentro as mudanças na indústria do cinema e o aparecimento de séries que se propõem a ter elencos com diversidade (racial, etária e de género) e a abordar o problema da desigualdade racial, respondeu que está “extremamente entusiasmado com a HBO e com as outras pessoas que estão a tentar competir com a HBO, que também têm feito coisas ótimas. Quando comecei seria impossível fazer algo assim, mas haver hoje a consciência que se pode fazer algo para substituir a ‘Guerra dos Tronos’ com um elenco tão diverso, com uma história como esta, era impensável [nesta indústria do entretenimento] até há dez ou 15 anos. E agora é necessário. Portanto, estou muito orgulhoso por a nossa indústria ter crescido e querer contar histórias relevantes”.

Jean Smart, 68 anos: “Não voltarão a oferecer-me um papel de uma agente durona do FBI”

Tim Blake Nelson, no elenco de “Watchmen”, é quase caso único. Ao contrário da maioria dos atores do elenco, o norte-americano, que até nasceu em Tulsa, Oklahoma, e que tem estado em grande destaque nos cinemas no último ano e meio (com filmes como A Balada de Buster Scruggs, dos irmãos Cohen, The Report e o mal recebido pela crítica mas popular As Vigaristas), conhecia a banda desenhada antes de ser convidado por Damon Lindelof para a série. “Tenho três filhos, li-a e vi o filme do Zack Snyder. Portanto o universo de Watchmen tem sido eternizado em minha casa há anos. Quando li o guião [da série], a minha reação foi de total espanto por ser convidado para fazer parte disto”, disse aos jornalistas.

A seu lado, durante os cerca de 20 minutos de perguntas e respostas, Tim Blake Nelson tinha a atriz Jean Smart, que faz o papel de Laurie Blake — uma versão uns anos mais velha de Laurie Juspecyk (conhecida como Silk Spectre), que aparecia na banda desenhada original. Jean Smart, cujos primeiros momentos na série são passados a encarnar uma agente durona do FBI, não conhecia a narrativa de Alan Moore ou a personagem em que a sua se inspira. “Às vezes trabalhamos melhor quando não temos tempo para pensar muito tempo nas coisas”, respondeu, admitindo ainda que não teve tempo de ler a obra de Moore antes do início das filmagens. A seu lado, Tim Blake Nelson deixava-lhe rasgados elogios, absolutamente merecidos daquilo que o Observador já pôde ver de “The Watchmen”: “Impressionou-me mesmo que a Jean, que interpreta a Laurie Blake de uma forma tão completa, belíssima e profunda, não conhecesse [a história] e conseguisse sacar uma interpretação destas. Teve uma curta de aprendizagem incrível”, apontou, ouvindo da colega um “obrigado”.

Jean Smart interpreta a agente do FBI Laurie Blake em "Watchmen"

Se da personagem de Jean Smart já falámos, valerá a pena falar da figura encarnada por Tim Blake Nelson, um proto-super herói que nenhum criminoso consegue enganar — é uma espécie de detetor de mentiras humano, perspicaz na análise corporal e facial do inquirido — e que se chama Looking Glass. “É, na verdade, um detetive do departamento de polícia de Tulsa, que trabalha num momento em que os polícias usam compulsivamente máscaras para esconder a sua identidade. Porque é um detetive, pode escolher a sua máscara, que é inteiramente reflexiva e portanto inteiramente opaca”. Funciona, na verdade, como espelho: quem fala com ele a ver-se refletido na máscara. Daí o nome, “Looking Glass”, que em português significa precisamente espelho. Super-herói? Nada disso, pelo menos um super-herói tradicional: “Se fiz o meu trabalho corretamente, é um ser humano com nuances. E é isso que acho mesmo interessante: no contexto de um mundo cheio de ação, caos e violência, temos uma série que explora as nuances do que é um vigilante mas que é extremamente humanística”.

Inicialmente, a personagem de Tim Blake Nelson não era inteiramente clara, a ponto de o ator ter ouvido a produção de “Watchmen” avisá-lo que talvez fosse melhor não aceitar o papel, por Damon Lindelof não ter para ele, numa fase inicial, um papel de destaque. Mais tarde, foi-lhe prometido que a personagem cresceria e teria papel de relevo, o que levou o ator a aceitar. Agora, Tim Blake Nelson “adora” o universo em que foi colocado: “Parece-me que a transposição do Damon daquele mundo original para o que poderia ser o futuro [pós-narrativa de Moore], que é o nosso presente, pareceu-me inteligente, adequada, correta e um pouco perigosa. E portanto, consequentemente, pareceu-me irresistível”, disse ao Observador.

"Sei que, nesta fase do jogo [ou carreira], não voltarão a oferecer-me um papel de uma agente durona do FBI", confidenciou-nos a atriz Jean Smart, que interpreta Laurie Blake em "Watchmen"

Ao contrário do que aconteceu com o colega, Jean Smart recebeu o convite com uma proposta mais ou menos clara do que seria a sua personagem — embora Damon Lindelof tenha incluído nuances da atriz em Laurie Blake, como confidenciou Tim Blake Nelson. Questionada pelo Observador sobre o que é que a levou então a aceitar o papel — não conhecendo “Watchmen” —, se foi sobretudo a confiança no trabalho de Lindelof ou o prestígio dos outros atores do elenco, Jean Smart disse a criatividade do criador de “Watchmen” foi decisiva, mas que também “a popularidade” da banda desenhada, de que se veio a aperceber, teve influência. Assim como foi importante outro fator, a hipótese quase única de, com 68 anos, interpretar uma personagem destas: “Sei que, nesta fase do jogo [ou carreira], não voltarão a oferecer-me um papel de uma agente durona do FBI”.

Mas, afinal, que interpretação fez Damon Lindelof da América atual para tornar “Watchmen” numa série destas — e que capacidade terá uma série que aborda assuntos sociais e culturais prementes de cativar jovens espectadores fãs de super-heróis? Tim Blake Nelson respondeu assim ao Observador: “Não acho que [como tínhamos dito] a série subverta o texto original, acho que o avança. O texto original do Alan Moore já subvertia a ideia de super-heróis, porque aí as personagens eram quase todas humanos que ou eram muito intuitivos, ou muito inteligentes ou fisicamente muito fortes — mas também tinham falhas e também se questionava de forma dolorosamente complexa toda a ideia do vigilantismo. E o que o Damon conseguiu aqui parece-me quase um truque de magia. Estamos num mundo em que o medo do outro está muito presente — mesmo fora da América, com a questão dos refugiados, com o racismo que existe em todos os pontos do globo. A forma como ele examina estas questões valida ‘Watchmen’ como algo muito atual”. Ora bem. O resto, depende da interpretação de quem estiver no sofá.

O Observador viajou a convite da HBO

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