A coreografia “Mal — Embriaguez Divina”, de Marlene Monteiro Freitas, com múltiplas referências às ambivalências do mal, do sádico ao cometido com boas intenções, tem esta quinta-feira estreia nacional na Culturgest, em Lisboa.

Depois da estreia mundial em agosto, em Hamburgo, no Internationales Sommerfestival 2020, a mais recente criação da premiada coreógrafa cabo-verdiana estará no palco da Culturgest esta quinta-feira, na sexta-feira e no sábado, e nos dias 29 e 30 de outubro, no Rivoli – Teatro Municipal do Porto.

O título desta criação de Marlene Monteiro Freitas — baseado na obra La littérature et le mal (A Literatura e o mal), de George Bataille — faz múltiplas referências à ambivalência do mal, que pode significar mal-estar, desconforto, dor, sofrimento, agonia, tristeza, tormento, carência, horror, mas também o mal em si mesmo. Por outro lado, “Embriaguez Divina” marca o mal como “um estado de delusão divina, de êxtase dionisíaco”, segundo a descrição de um texto da Culturgest.

Em palco, “um grupo de pessoas — para explorar as várias formas do mal — afoga-se num mar de papel e transforma-se num coro, numa tribuna, numa tonalidade prenunciadora de melancolia, [e] é assaltado por visões, ao mesmo tempo que permanece observado e vigiado”, acrescenta o texto de apresentação.

Segundo a coreógrafa, citada neste texto: “A forma como Bataille escreve sobre o mal emociona-me muito. Por exemplo, quando ele distingue entre o mal sádico e o mal cometido com boas intenções; ou entre o mal em si, e a forma do diabo. O diabo pode ser engraçado. Ele esgueira-se e brinca connosco. Se as coisas não fossem tão más, o diabo seria um personagem ótimo, divertido e colorido. Gosto muito de todas essas pequenas variações do mal”.

“Mal — Embriaguez Divina” tem coreografia de Marlene Monteiro Freitas e, como intérpretes, Andreas Merk, Betty Tchomanga, Francisco Rolo, Henri “Cookie” Lesguillier, Hsin-Yi Hsiang, Joãozinho da Costa, Mariana Tembe, Majd Feddah e Miguel Filipe.

O desenho de luz e espaço é de Yannick Fouassier, o apoio à criação do espaço de Miguel Figueira, a direção de cena de André Calado, o desenho de som de Rui Dâmaso, a pesquisa de Marlene Monteiro Freitas e João Francisco Figueira, a dramaturgia de Martin Valdés-Stauber. A peça tem produção de P.OR.K (Bruna Antonelli, Sandra Azevedo, Soraia Gonçalves — Lisboa) e Munchner Kammerspiele (Munique)

A coreógrafa — que tem sido considerada pela crítica de dança como uma das vozes mais originais da atualidade, galardoada com o Leão de Prata da Bienal de Veneza, em 2018 — cria “mundos opulentos e poéticos” e inspira-se em motivos mitológicos, ao mesmo tempo que brinca com referências da alta cultura e da cultura pop, como fez, por exemplo, em “Marfim e carne — As estátuas também sofrem” (2014) e “Bacantes — Prelúdio para uma Purga” (2017).

Marlene Monteiro Freitas, 40 anos, nasceu em Cabo Verde, onde cofundou o grupo de dança Compass e é cofundadora da P.OR.K, estrutura de produção sediada em Lisboa.

Em 2018, quando foi galardoada com o Leão de Prata da Bienal de Veneza, pela carreira, o júri destacou a “presença eletrizante e o poder dionisíaco” das suas produções, considerando-a “uma das mais talentosas da sua geração”, interessada na “metamorfose e deformação”, que “trabalha mais com as emoções do que [com] os conceitos, e que apaga as fronteiras do que é esteticamente correto”. O seu trabalho, que combina por vezes o drama e a comédia, elogiado pela crítica internacional pela expressividade e criatividade, tem sido apresentado em vários países, desde Portugal aos Estados Unidos, Canadá, Israel, Espanha, Itália e Coreia do Sul.