O romance de estreia do brasileiro Itamar Vieira Júnior, Torto Arado, é o principal vencedor deste ano do Prémio Oceanos, um dos mais importantes galardões da literatura de língua portuguesa, anunciou a organização nesta sexta-feira ao fim da tarde (hora de Lisboa), através de uma transmissão online a partir do Brasil e de Cabo Verde.

Itamar Vieira Júnior, nascido na Bahia há 41 anos, foi ainda há poucas semanas distinguido com o Prémio Jabuti de Literatura 2020, no que se torna um dos mais destacados autores brasileiros contemporâneos. Vai receber um montante de cerca de 19 mil euros. O segundo prémio do Oceanos 2020 foi para A Visão das Plantas, da portuguesa nascida em Angola Djaimilia Pereira de Almeida (cerca de 13 mil euros). Em terceiro, ficou Carta à Rainha Louca, da brasileira Maria Valéria Rezende (oito mil euros).

O livros foram lidos e avaliados pelos professores portugueses Joana Matos Frias e Carlos Mendes de Sousa, pela professora santomense Inocência Mata, pela poetisa brasileira Angélica Freitas e pelos professores brasileiros João Cezar de Castro Rocha e Viviana Bosi.

Estavam a concurso 10 finalistas:

  • A Cidade Inexistente, de José Rezende Jr.;
  • A Ocupação, de Julián Fuks;
  • A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida;
  • As Durações da Casa, de Júlia de Souza;
  • As Solas dos Pés de Meu Avô, de Tiago D. Oliveira;
  • Autobiografia, de José Luís Peixoto;
  • Carta à Rainha Louca, de Maria Valéria Rezende;
  • Obnóxio, de Abel Barros Baptista;
  • Sombrio Ermo Turvo, de Veronica Stigger;
  • Torto Arado, de Itamar Vieira Junior.

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Torto Arado, que em 2018 tinha recebido o Prémio Leya, conta a história de Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores de uma fazenda no sertão da Bahia, “descendentes de escravos para quem a abolição nunca passou de uma data marcada no calendário”.

Em mensagem de vídeo, transmitida nesta sexta-feira após o anúncio, Itamar Vieira Júnior disse-se um “leitor voraz de etnografias” e deu nota do apreço pelas “permanências”, a “ligação à família, às tradições e à terra”. Notou que Torto Arado estabelece um “diálogo com o Brasil de hoje” e fez uma breve análise aos efeitos do colonialismo.

“Ao longo da minha vida pude andar pelo interior do Brasil e percebi que é um país ainda marcado profundamente pelo seu passado colonial, pelo sistema esclavagista, que deixou como legado a vulnerabilidade populações no campo. Muitas vezes, estas pessoas têm o seu trabalho explorado, as suas vidas exploradas, tocadas de uma forma muito dura. Este é o Brasil de hoje, um país anacrónico, que avança em alguns sentidos, retrocede noutros, noutros permanecem as mesmas desigualdades do passado, legado de todo este nosso passado colonial.”

Depois de ter visto reconhecido pelo Oceanos em 2019 o romance “Luanda, Lisboa, Paraíso”, Djaimilia Pereira de Almeida volta a ser eleita em 2020, desta vez em segundo lugar

Em mensagem  pré-gravada, Maria Valéria Rezende destacou que Carta à Rainha Louca é um livro sobre travessias de oceanos e remeteu influências para os sermões de Padre António Vieira e outros “pregadores famosos” cuja “linguagem, vocabulário e estrutura” ela “ouvia às vezes do povo com o qual convivia”.

Djaimilia Pereira de Almeida, também em vídeo transmitido após o anúncio, referiu que o seu livro parte de um parágrafo de Os Pescadores, de Raul Brandão, e de uma figura que aí surge: um homem chamado Celestino, de passado feroz, que termina os seus dias a cultivar um jardim com delicadeza. “A Visão das Plantas imagina os últimos dias de Celestino, no seu jardim, assombrado por fantasmas que o consolam, que o embalam até à morte.”

Mais curadores e jurados em 2021

O Prémio Oceanos já distinguiu, entre outros, Gonçalo M. Tavares (2007), António Lobo Antunes (2008), Chico Buarque (2010), Valter Hugo Mãe (2011), Eucanaã Ferraz (2013), Bruno Vieira Amaral (2018), Djaimilia Pereira de Almeida (2019) e Dulce Maria Cardoso (2019). Foi notada em 2017 a recusa de Maria Teresa Horta. A escritora portuguesa não se conformou com o quarto lugar ex-aequo que então lhe atribuíram.

Devido à pandemia, o anúncio desta sexta-feira foi feito pela internet, em direto através do YouTube. Os resultados chegaram pelas vozes dos curadores do prémio: Adelaide Monteiro (Cabo Verde), Manuel da Costa Pinto e Selma Caetano (ambos do Brasil). A curadora portuguesa Isabel Lucas não pôde estar presente devido a um “problema familiar”, foi referido.

Segundo Selma Caetano, o Oceanos pretende em 2021 “expandir a estrutura institucional”, no sentido de “ter mais curadores e mais jurados dos países membros da CPLP”. A curadora chamou a atenção para o facto de, apesar das políticas de apoio à tradução e edição, os governos lusófonos não terem ainda ultrapassado a falta de “intercâmbio literário”. “Precisamos de lutar por políticas públicas e privadas para criação e fomento de mecanismos facilitadores da internacionalização da nossa literatura”, defendeu.

“O Brasil tem vários prémios literários”, disse Manuel da Costa Pinto, mas do Oceanos vem a singularidade de que “nasceu já com vocação para ir além-fronteiras”. “Existe um prémio para a língua portuguesa, que é o Prémio Camões, para o conjunto da obra. O prémio para a produção contemporânea da literatura em língua portuguesa, constituindo uma espécie de radiografia da produção literária num período de um ano, é o Oceanos”, sublinhou o curador.

O Oceanos — Prémio de Literatura em Língua Portuguesa foi criado no Brasil em 2003 sob o nome Prémio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. Em 2007 passou a contemplar livros escritos em língua portuguesa publicados no Brasil, tendo depois contemplado também obras de autores africanos de expressão portuguesa.

Em 2015, com a saída do Brasil da operadora de telecomunicações Portugal Telecom, o prémio ganhou a nomenclatura atual e o patrocínio do Itaú Cultural, instituto com sede em São Paulo. Desde 2017, o Oceanos acolhe inscrições de livros em língua portuguesa publicados em qualquer parte do mundo. O galardão é patrocinado pelo Banco Itaú e pelo Governo português e apoiado pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde e pela CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).

Concorreram à edição 2020, a 17ª, 1.872 obras de dez países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Letónia, Moçambique e Portugal, além de Macau. Os dados da organização mostram um total de 450 editoras inscritas, o maior número de sempre. Já as edições de autor somaram 162 títulos. Chegaram à fase semifinal 22 romances, 22 livros de poesia, cinco livros de contos e cinco de crónicas.