Em condições normais, a conferência de imprensa da UEFA esta segunda-feira seria apenas e só para apresentar o novo modelo competitivo da Liga dos Campeões para os próximos anos. Afinal, esse acabou por ser quase um assunto secundário perante um tema principal que tem marcado as últimas horas: a nova Superliga Europeia. E o presidente do órgão que tutela o futebol europeu não poupou nas palavras contra a ação dos 12 “dissidentes” que anunciaram na noite deste domingo a competição, assegurando que terão sanções pesadas pela frente.

“São momentos dramáticos e cruciais. Começámos este projeto para modernizar o processo das nossas provas. Tínhamos o apoio da Associação de Ligas Europeias (ECA). Todos os clubes conseguiam a classificação pelo seu mérito, não como uma tenda fechada. Jogar na Champions depende dos resultados no relvado. O futebol tem de estar unido contra a desgraça depois da postura de uns clubes com interesses particulares. O mundo do futebol está unido, os governos estão unidos, a sociedade está unida. Estamos de acordo que a Superliga Europeia é um projeto sem sentido. FA, La Liga, Serie A, FIFA, FEF, Premier League… Todos estão contra estes planos cínicos. Não vamos permitir esta mudança”, começou por destacar Aleksander Ceferin, líder da UEFA.

“A Superliga é sobre o dinheiro dos 12 [clubes fundadores], não lhes quero chamar os ‘Dirty 12’, a UEFA quer desenvolver o jogo. Para algumas pessoas, a solidariedade não existe, a união não existe, a única coisa que existe são os bolsos deles. Esta ideia é cuspir na cara dos adeptos e na sociedade. Não vamos permitir que nos tirem isso. As equipas vão sempre qualificar-se e competir nas nossas provas com base no mérito, não pela ganância de alguns. Estamos unidos contra este disparate de projeto. Temos as federações inglesa, espanhola, italiana, FIFA, todas as 55 federações unânimes contra este plano”, destacou o dirigente esloveno.

Preparámos uma Liga dos Campeões moderna e atrativa, na qual todos podem participar e ganhar”, assegurou o líder da UEFA, a propósito do novo modelo competitivo da prova.

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“Os jogadores que entrem nessa liga [Superliga] serão banidos de entrar em Mundiais e Europeus. Pedimos a todos que nos apoiem para garantir que isto nunca aconteça. Acredito que as mudanças que vamos anunciar são as necessárias. E quero sublinhar algo que os fãs não sabem: a UEFA devolve cerca de 90% de todas as receitas para o jogo. Quem pensa que a Superliga é sobre dinheiro e a UEFA também, está enganado. Esses 90% que são distribuídos são para a formação, para fundações de crianças, para o futebol feminino… Queremos preservar os campeonatos domésticos, é esse o caminho para garantir a qualificação [para a Champions]. Deve ser assim e nunca vai mudar. Estamos a adaptar as competições europeias mas o principal não muda: a solidariedade. Para alguns não existe essa solidariedade, só existem os seus bolsos”, garantiu o responsável da UEFA.

“Vi coisas muito graves na minha vida porque fui advogado durante 20 anos mas nunca tinha visto algo igual a isto antes. O Ed Woodward [diretor executivo do Manchester United] ligou-me na quinta-feira, disse-me que concordava com as mudanças e que estava muito feliz. O Agnelli [presidente da Juventus, vice-presidente da Superliga Europeia e líder demissionário da Associação de Ligas Europeias] é a maior desilusão de todos. Nunca vi uma pessoa a mentir tantas vezes. Falei com ele no sábado à tarde, disse que eram apenas rumores, que me ligava daí a uma hora e desligou o telefone. Vi muitas coisas na minha vida, mas nunca nada assim, a ganância é tão forte que os valores humanos evaporaram-se”, apontou Ceferin, que não esqueceu também Florentino Pérez.

“A ideia da Superliga Europeia começou muito antes do Covid-19, é uma ideia que anda a ser cozinhada há anos por Florentino Pérez [presidente do Real Madrid e da Superliga Europeia] e Agnelli. Apresentámos uma proposta interessante para eles, Agnelli disse que não era preciso, que falaríamos sobre isso esta semana. É apenas sobre ganância, egoísmo e narcisismo de alguns. Enquanto advogado criminal, conheci pessoas muito estranhas. No futebol conheci muitas pessoas estranhas e mentirosas. Mas conheci também grandes pessoas, em quem confio. Confio nos clubes alemães e franceses, confio na minha equipa, confio nas pessoas das federações. Só uma pequena parte é levada pela ganância. Há CEO que mudam de clubes como quem muda de camisa, alguns donos não contam os golos dos seus clubes mas só o dinheiro na conta”, apontou o presidente da UEFA.

Em atualização