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“Vão estar como o aço”. A expressão foi de Sérgio Conceição, na antevisão do jogo desta quinta-feira contra o Vitória de Guimarães. O técnico do FC Porto falava de Sérgio Oliveira e de Corona, dois dos jogadores mais nucleares do plantel dos dragões — porventura os mais nucleares esta época, a par de Pepe e Marchesín. E dava a entender que não existiriam poupanças, que apesar do calendário apertado provocado pela grande campanha na Liga dos Campeões entrariam em campo os onze mais fortes. Mas afinal quem estava “como o aço” era Moussa Marega, que mesmo em jejum e a cumprir o Ramadão marcou o golo que deu a vitória aos dragões (1-0) e deixou a equipa a quatro pontos da liderança.

Quando às 21h o árbitro Tiago Martins apitou para o início do jogo no Estádio do Dragão, Sérgio Conceição já sabia com o que contar dos rivais. Por um lado, o Benfica goleara fora o Portimonense — e os azuis e branco queriam manter os 6 pontos de vantagem para os encarnados. Por outro, o Sporting empatara em casa com o Belenenses-SAD e esta era uma oportunidade de ouro para reduzir a desvantagem para a liderança para apenas quatro pontos. Ou seja: esta poderia ser a terceira vez em poucas semanas que o Porto reduzia a desvantagem para o líder em dois pontos.

“Não nos podemos dar ao luxo de perder mais pontos”. O aviso estava dado pelo treinador aos jogadores: a margem de erro já se esgotara. Embalado pela grande campanha europeia e pela redução da desvantagem nas últimas semanas para o primeiro lugar, o FC Porto tinha motivos para começar a acreditar numa “remontada” semelhante à da temporada passada. Era preciso refrear o entusiasmo mas estava tudo a pensar no mesmo, até porque como Sérgio Conceição disse há uns meses a verdadeira Champions do FC Porto — a grande prioridade da época — continuava a ser a revalidação do título de campeão nacional.

Do outro lado o Vitória de Guimarães também precisava de pontos. A equipa, anteriormente treinada por João Henriques e agora orientada por Bino Maçães, começava o jogo com menos seis pontos do que o Paços de Ferreira, o principal concorrente pelo quinto lugar. E começava o jogo sem surpresas no onze — com uma linha de três atrás, fruto da entrada do jovem André Amaro na equipa já em jornadas anteriores, dois laterais com grande disponibilidade física para percorrer os corredores, Pepelu e André André para o combate a meio-campo e os criativos Edwards e Rochinha no apoio ao ponta-de-lança Estupiñan.

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Do lado do FC Porto, Sérgio Conceição voltava ao plano Tondela — isto é, ao modelo de jogo com apenas dois médios de equilíbrio, em vez dos três utilizados de início nas últimas duas partidas. O sacrificado era Grujic, o regressado ao onze era Marega, que fazia dupla com Taremi na frente. O apoio aos avançados era garantido por Corona, sempre ele, e por Otávio, cujas possibilidades de chegar à Seleção Nacional não foram descartadas nos últimos dias por Fernando Santos. Luis Diaz continuava suplente.

O jogo começou e cedo percebeu-se como seria a toada da partida enquanto o 0-0 se mantivesse. O Vitória de Guimarães recuava quase toda a equipa — só o avançado Estupiñan ficava mais adiantado — e agregava dez elementos junto à sua área e ao seu meio-campo defensivo, permitindo ao FC Porto ter a bola durante largos períodos e procurando apenas espreitar o contra-ataque de quando em quando.

Claramente balanceado para o lado direito — no lado esquerdo, o destro Manafá não se aventurava tanto nas arrancadas atacantes —, o FC Porto tentava furar a muralha defensiva vimaranense com pouco sucesso.

O jogo até arrancou mexido, com três lances de perigo nos primeiros dez minutos. Primeiro, aos 7 minutos, o lateral-esquerdo do Vitória, Mensah — uma das unidades mais perigosas dos vimaranenses, pelas suas arrancadas do lado esquerdo —, cruzou rasteiro e encontrou Marcus Edwards na área mas o extremo inglês acertou mal na bola e fez de um remate uma rosca quando estava na zona de penálti. No minuto seguinte, Nanu arrancou pelo lado direito do FC Porto, driblou dois adversários e rematou à entrada da área, mas também para fora. E no minuto seguinte (9’) voltou a ser o Vitória a criar perigo, com Edwards a driblar Mbemba na área e a cruzar tenso do lado esquerdo para o segundo poste. O lateral Sacko espreitava o desvio mas um corte de Otávio impediu-o de encostar.

Daí em diante o FC Porto foi tendo cada vez mais tempo a bola e o Vitória foi-se deixando empurrar cada vez mais para as imediações da sua área. Mas nova jogada de perigo só aos 20 minutos, quando Taremi recebe um passe de Pepe e fica isolado e frente a frente com o guarda-redes do Vitória SC. O avançado iraniano, autor de um espectacular pontapé de bicicleta frente ao Chelsea, procurou desviar do guarda-redes mas Bruno Varela fez uma grande defesa e segurou o 0-0.

Até ao intervalo, só um remate de Marega em posição frontal e à entrada da área voltou a agitar o jogo, aos 43 minutos, mas o remate saiu à figura e Bruno Varela agarrou. O FC Porto precisava de fazer mais na segunda parte: precisava de explorar mais o corredor esquerdo no ataque, para que o Vitória de Guimarães não se preocupasse apenas com as zonas interiores e com o seu corredor esquerdo, e precisava de acelerar o ritmo de circulação da bola, para encontrar espaços vazios entre os muitos jogadores de camisola negra vestida.

Na segunda parte tudo mudou — e o FC Porto criou, marcou, desperdiçou, jogou…

Na segunda parte tudo mudou — e as mudanças começaram a perceber-se cedo. O FC Porto regressou dos balneários com os mesmos jogadores mas mais agressivo e mais rápido. As pilhas vieram carregadas: os jogadores pressionavam quando não tinham a bola, mordiam os calcanhares ao adversário e, quando recuperavam a bola, já não entravam na circulação lenta da primeira parte. Agora a ordem era outra: jogar rápido e procurar a baliza sem temporizar demasiado.

Aos 47 minutos, o primeiro indício de um outro perigo: Jesus Corona recebeu a bola do lado direito e, na área mas descaído para a direita, testou o disparo. A bola saiu muito distante da baliza mas o sinal estava dado. E só foi preciso um minuto para o FC Porto se adiantar no marcador: numa disputa de bola, o central do Vitória de Guimarães Mumin, que aparentemente tinha o lance ganho, parou e desconcentrou-se. Marega, atento, ganhou-lhe a frente, correu em direção a Bruno Varela e desviou do guarda-redes inaugurando o marcador.

O que se seguiu atesta bem a mentalidade vencedora e a determinação atual do plantel dos dragões. Mesmo em vantagem no marcador, o FC Porto não começou a gerir a vantagem — ao invés, apercebendo-se da fragilidade psicológica do rival, continuou a procurar a baliza adversária. Aos 56 minutos Otávio aqueceu as luvas de Bruno Varela com um remate potento do lado direito. Aos 59′, Tiago Martins anulava o segundo do FC Porto, e o bis de Marega, por posição irregular.

O FC Porto ainda pediu uma grande penalidade, Bino Maçães fez mexidas no ataque do Vitória de Guimarães trocando os extremos — fazendo entrar André Almeida e Rúben Lameiras para os lugares de Rochinha e Edwards — mas foi Marega que voltou a estar perto de bisar, numa jogada em que contornou o guardião vimaranense. Quando rematou, porém, viu o guardião esticar-se e ainda evitar a viagem da bola rumo à baliza.

Nos últimos minutos, Taremi rematou para defesa de Bruno Varela (69′), Pepelu obrigou Marchesín a esticar-se e defender um livre direto (73′), os treinadores fizeram mais mexidas, o recém-entrado Toni Martínez teve um remate potente mas por cima em contra-ataque (85′) e o FC Porto segurou a vantagem sem sustos de maior, pese embora uma ou outra chegada à área dos dragões conseguida pelo Vitória de Guimarães. Ainda houve tempo para, já nos descontos, Luis Díaz obrigar Bruno Varela a uma grande defesa e Francisco Conceição — que entrara pouco antes — rematar à trave num lance em que o FC Porto ficou a pedir nova grande penalidade por mão na bola.

A vitória deixa os dragões a quatro pontos da liderança, num jogo em que o Vitória de Guimarães tentou prolongar o 0-0 e não se mostrou capaz de reagir ao golo sofrido com o ímpeto que o FC Porto revelou na segunda parte. No final, os jogadores portistas, sorridentes, agregaram-se na tradicional “roda com todos” que já assinalou momentos maus e momentos bons do FC Porto. O espírito voltou a ser de conquista, a confiança na recuperação da liderança voltou a sentir-se. Até porque este FC Porto, com um Marega como o aço e com a determinação revelada pelos seus colegas nesta segunda parte, pode abanar mas não quebra — e já provou ter vidas e resistência suficiente para ultrapassar dificuldades que fariam outros desistir. Eles sentem-se bem com o papel de “patinhos feios”, Moussa Marega provou-o: como sempre, os dragões estão a fazer de supostas fraquezas a sua força motriz.