Uma petição pela reposição do espólio do Museu Romântico do Porto, já com mais de 2.000 subscritores, considera a recente reconfiguração do espaço “uma violação patrimonial”, acusando a autarquia de, “com orgulho”, “desfazer” o antigo museu.

Subscrito por 2.024 pessoas até às 12:35 desta quarta-feira, o documento questiona onde está o espólio retirado e exige que o museu “volte a retratar fisicamente e fielmente a realidade doméstica burguesa oitocentista”.

Os peticionários dizem ainda ter sido com “espanto” que assistiram “o orgulho com que a Câmara Municipal do Porto anunciou que desfez o Museu Romântico da Macieirinha”, ao publicitar a sua abertura dizendo que “o espaço despiu-se dos adereços de casa burguesa oitocentista e vestiu-se de contemporaneidade”.

“Como se explica aos decisores autárquicos portuenses que a casa é um todo e que o seu desmembramento intencional constitui clara violação patrimonial?”, lê-se no texto.

Em declarações à Lusa, o presidente da Câmara do Porto, o independente Rui Moreira, e responsável pelo pelouro da Cultura, defendeu que “nada foi destruído” e rejeitou as críticas sobre a ausência de preocupações patrimoniais.

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A Extensão do Romantismo do Museu da Cidade do Porto, antigo Museu Romântico, reabriu portas em 28 de agosto, com o ‘Herbário’ de Júlio Dinis, numa homenagem ao escritor portuense, este ano figura central da Feira do Livro, tendo desde então estado no centro da polémica.

Numa resposta escrita à Lusa, Ana Motta Veiga, autora da petição e investigadora na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, assinala que “o Museu Romântico (no sentido lato do termo e até no nome) desapareceu”, numa critica à reconfiguração do espaço, recentemente renomeado como Extensão do Romantismo do Museu da Cidade do Porto.

“Ficaram apenas as paredes. Foi chocante”, disse, lembrando que, em 2018, foram gastos mais de meio milhão de euros na requalificação do Museu Romântico no âmbito do Norte 2020 e menos de dois anos dessa inauguração fechou para novas obras e reabre com esta alteração “radical”.

Ouvido pela Lusa, Rui Moreira lembrou que quando o executivo tomou posse o Museu Romântico estava em “péssimo estado” tendo sido alvo de uma reabilitação que, sublinhou, “ficará para sempre”.

Já aquando da remodelação, em 2018, acrescentou, houve críticas às alterações preconizadas em termos de museografia, que, recordou, tinham sido explicadas aquando da apresentação do projeto do Museu da Cidade.

“Chamámos à atenção às alterações que iríamos fazer, na forma como iríamos expor a museografia quer no Museu do Romântico, quer nos outros espaços que temos, e que ninguém nos acuse de não termos preocupações patrimoniais, veja-se o caso do Reservatório em que nós colocámos peças que nunca tinham sido exibidas”, disse.

O autarca explicou que a Extensão do Romantismo pretende ser uma interpretação “daquilo que é o romantismo na cidade do Porto, não apenas com a passagem do rei pela cidade”.

“Nós, aquilo que fizemos foi alterar a museografia daquele museu fazendo agora uma exposição temporária que daqui a seis meses rodará, e naturalmente que voltaremos a expor lá de forma organizada alguma das coisas que já lá estiveram”, revelou, sustentando: “O que nós não queremos é um museu estático, nada destruímos”.

Em resposta escrita à Lusa, a autarquia indicou que “todo o espólio do museu foi recolhido para ser restaurado e classificado e para ser, novamente, apresentado na própria Extensão do Romantismo, quer noutros espaços do Museu da Cidade, nomeadamente na Casa Marta Ortigão Sampaio, Casa Guerra Junqueiro e Ateliê António Carneiro (atualmente em fase de arranque da intervenção)”.

Parte das peças em depósito, que nunca foram da propriedade do município porque estavam emprestadas, foram devolvidas aos seus proprietários, esclareceu.

Instalado na Quinta da Macieirinha, a antiga casa de campo abriu como núcleo museológico em 1972 como Museu do Romântico, centrando a sua narrativa no rei do Piemonte e da Sardenha, Carlos Alberto, que, aí exilado, veio a passar os seus últimos dias.

A Lusa tentou ainda obter uma reação do diretor artístico do Museu da Cidade, Nuno Faria, mas até ao momento sem sucesso.

Rui Moreira referiu ainda à Lusa que o Tribunal de Contas deu ‘luz verde’, em 23 de agosto, ao projeto de requalificação do Abrigo dos Pequeninos, nas Fontainhas, que passará a ser uma reserva museológica, num investimento que ronda os 1,2 milhões de euros.

A expectativa, acrescentou, é que dentro de 12 a 18 meses o espaço possa estar funcional, reabrindo como um local para tratamento de reservas, mas também como espaço expositivo.

Em resposta à Lusa, a autarquia acrescentou que perspetiva que as obras possam arrancar ainda no final de setembro.