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Explicador da Rádio Observador. As empresas de caminhões, nomeadamente o setor das terraplanagens, ameaçam amanhã entupir a autoestrada do Norte, A1 e A42, isto na região de Coimbra, numa ação de protesto para reivindicar mais apoios. Esta marcha lenta desta sexta-feira deverá ter início por volta das 07h30, junto da entrada de Lordelo da A42, seguirá depois rumo à A41, no sentido norte-sul, e depois pela A1, no mesmo sentido até Coimbra Sul, onde termina. E é sobre este protesto e as razões deste protesto que vamos falar. Eu sou o Ricardo Conceição, comigo está a Judite França. E Judite, quem é o nosso convidado?

Miguel Machado Mendes, advogado, representante dos promotores desta iniciativa. Bem-vindo. Vamos começar pelo início. Que protesto é este?

Ora bem, este é um protesto, é um movimento espontâneo, é um movimento informal e apolítico, que reuniu diversas empresas da área da terraplanagem e de escavações e movimentação de terras, como bem referiram, no seguimento do anúncio da semana passada, do governo, que anunciou apoios para o gasóleo profissional, mas apenas para os setores dos transportes, deixando de fora este setor. Portanto, apesar de nós termos amanhã caminhões na rua, estamos a falar de caminhões que transportam terras inertes e por isso não estão abrangidos pelas medidas de apoio do governo publicadas na semana passada.

E podemos ter uma ideia da dimensão do protesto que se prepara, quantas empresas, quantas viaturas?

Isto tem sido uma autêntica surpresa, até para os organizadores e para os promotores. Até este momento confirmado, nós temos 120 empresas que aderiram ao protesto. Até à hora que nós estamos a falar agora, estamos quase a chegar aos 500 caminhões. Sendo que a notícia que nos vai sendo dada é que há, eu vou-lhe chamar réplicas, deste movimento que podem partir de outros pontos do país, nomeadamente de Leiria em direção também a Coimbra, que é aquilo que já temos, pelo menos, por ora, por certo.

Mas serão protestos autónomos?

Com autonomia.

Exato. Diga, por favor.

Porque nós estamos a falar de réplicas, porque ao fim e ao cabo, os cidadãos, os empresários, os industriais, acabaram por se rever naquilo que são as nossas bandeiras, identificam-se com os motivos do protesto e querem aderir. Portanto, é isto que tem feito este movimento crescer de hora a hora.

No entanto, se as viaturas circularem a menos de 40 km/h na autoestrada, estão a cometer uma infração.

Não, é que note, nós não vamos cometer infrações. Já comunicamos o nosso plano à GNR. Os motoristas dos nossos caminhões circularão a marcha lenta, mas ainda assim a uma marcha de cerca de 50 km/h. Nós não pretendemos parar o trânsito, nós não pretendemos barrar ou cortar estradas. O que pretendemos é dar nota daquilo que é o que desespera os industriais e empresas deste setor, porque ao fim e ao cabo, nós estamos a assistir em pouco mais de meio ano a um aumento de 40% do preço do gasóleo e isso é insuportável.

É essa a ordem de grandeza de aumento de custos antes do início da guerra no Médio Oriente?

Em fevereiro, tínhamos o preço do litro do gasóleo a cerca de €1,59. Hoje temos o litro do gasóleo a €2,22. Portanto, esses 60 cêntimos a mais representam um aumento de 40%. Mas nós estamos a falar de um setor de atividade que tem no consumo de gasóleo um consumo intensivo.

Estamos a pensar, para quem não está muito familiarizado com isso, naqueles caminhões grandalhões de transporte de terra, não é?

E mais, mas também podem ser máquinas giratórias ou retroescavadoras ou dumpers. Quer dizer, nós estamos a falar de equipamentos que podem consumir 500 litros ou mais por dia. Se nós tivermos um equipamento que consuma 500 litros por dia, este aumento a mais de 60 cêntimos face a fevereiro representa um custo diário de €300.

O governo já veio hoje dizer, pela voz do ministro da Economia, que não consegue chegar a todos. E até, no fundo, também veio na onda do que disse a ministra do Ambiente e até apelou a que se economize. Nesta altura, acha possível chegar a todos e a todo lado? Por que este setor e não outro?

Nós aquilo que pedimos, ao fim e ao cabo, é tratamento igual. Já tivemos medidas que foram aprovadas para indústrias de consumo intensivo de energia, não agora, noutros anos. Lembro quando foi o início da guerra na Ucrânia com as indústrias de consumo intensivo de gás natural. E aquilo que se pretende, ao fim e ao cabo, para tempos excecionais, são medidas também elas excecionais. De qualquer das maneiras, eu julgo que também me importa dar nota do seguinte. Enquanto aguardava aqui a vossa chamada para entrar, recebemos já o primeiro contacto por parte do gabinete do senhor ministro das Infraestruturas e Habitação, dando nota de que está atento àquilo que são as nossas demandas e que, ao fim e ao cabo, pretende Reunir com este movimento porque está importado com aquilo que são as nossas bandeiras.

E quais são as reivindicações concretas que poderão levar à mesa do ministro?

Para além da questão do gasóleo, em semana onde são batidos recordes históricos, temos também falta de licenciamentos de vazadouros, que são ao fim ao cabo, terros onde podemos depositar as terras que resultam das escavações.

Mas isso é um problema que não tem a ver com este.

Não, são outros problemas que sente o setor e que estão por resolver e que têm um impacto muito grande na atividade.

Mas agora entendo que o mais urgente seria um subsídio para o gasóleo?

Com certeza, termos ao fim ao cabo, o mesmo desconto no gasóleo profissional que tiveram na semana passada outros setores de atividade.

E seria de quanto?

Na semana passada o que foi publicado foi um desconto de 10 cêntimos, já somaria a outro. Mas neste momento, em tempos de tamanho desespero, convém dizer que todas as migalhas são pão.

E há um aumento já no preço dos serviços que são prestados? Esse aumento já está refletido?

Não, esse é um outro problema, porque nós estamos a falar de um setor que quase que trabalha de subempreitada exclusivamente, ou seja, nós trabalhamos para promotores e grandes empreiteiros gerais. O que é que acontece? Nós temos preços que firmamos para o ano inteiro e com certeza que nós não temos peso no setor para forçar aqueles que são os nossos clientes a refletir o aumento do custo do gasóleo. E isto é que é o drama. Portanto, quando nós temos um aumento de um custo na ordem dos 40% que temos que absorver na totalidade, coloca-se em risco a própria atividade destas empresas.

E é esse o eco que tem tido de muita preocupação por parte dos empresários.

É este o eco que temos tido, sendo que o que nos tem surpreendido é efetivamente os que têm empresas mais pequenas, com poucos veículos, poucos carros, a unir-se a este movimento, porque efetivamente o momento é de desespero.

Disse-nos há pouco que já estão à espera de 500 caminhões. Isso diz respeito a quantas empresas?

Até à hora que nós estamos a falar, confirmados, posso dizer que o número é de 117 empresas.

São empresas todas da região?

Da região, mas temos também da região Sul, sendo que no dia de hoje há empresas que estão a circular de Sul para Norte para poderem iniciar a marcha conosco amanhã. Portanto, aqueles que aderiram desde a primeira hora ao movimento e ao percurso desta marcha, estão a fazer deslocar os seus caminhões de Sul para Norte para poderem iniciar amanhã conosco.

É uma altura particularmente difícil para o transporte rodoviário, mas para muitos setores. Acha que o ministro da Economia vai olhar para este setor com mais privilégio do que para outros?

Nós não queremos privilégios, nós não queremos ser tratados de maneira distinta. O que nós queremos ser tratados é com igualdade com outros setores e com o respeito que merecem todas as áreas de atividade. Entendemos que algumas das nossas bandeiras são bandeiras que são fáceis de poderem ser acolhidas e é isso que se pretende.

As empresas que fazem este tipo de serviço já estão a transpor este aumento de custos para os clientes?

Como eu disse há pouquinho, não, nós não conseguimos fazer isso, porque como os nossos preços estão tabelados para o ano todo, aqueles que são os empreiteiros gerais e nossos clientes, não admitem que nós passemos a fatura do aumento do gasóleo para as nossas contas finais.

Portanto, está tabelado ao ano e não à empreitada.

Não. Nós não conseguimos fazer isso serviço a serviço, mês a mês, e por isso é que este drama é um drama acrescento.

Já houve no passado outras paralisações importantes, nomeadamente de autoestradas, nomeadamente da A1. Teme alguma confusão amanhã que possa acontecer?

Não, nós estamos a falar de industriais e empresas ordeiras, respeitadoras, que não pretendem paralisar, nem fechar, nem impedir o trânsito. Reparem, nós estamos a falar de empresas que são e foram tão solícitas que à primeira hora, quando foi necessário fazer o enrocamento do talude na autoestrada, na A1, estiveram lá de madrugada. Portanto, estas são as mesmas. Nós queremos dizer alto e bom som que o que faremos amanhã é uma marcha lenta. Não se pretende obstruir vias nem impedir trânsito, apenas demonstrar aquilo que é nosso desagrado.

Mas já chamou a atenção do governo ao anunciar esta marcha lenta, ela vai mesmo concretizar-se?

Ela vai concretizar-se. Nós demos a conhecer ao governo aquilo que são, ao fim ao cabo, as nossas bandeiras principais. Por parte do governo, conforme lhe disse há pouquinho, houve imediato contacto para que fôssemos recebidos, o que irá acontecer na próxima semana.

Ok. Falta-me só mais uma pergunta. Há pouco estávamos a falar dos custos desde o início da intervenção militar no Irão. Tem alguma perspectiva de quanto pode aumentar mais?

Não, os custos estão a ser tão indefinidos e incertos que nós não conseguimos prever o que quer que seja. Além do mais, nós temos que somar a tudo a incerteza, daquilo que nós estamos a viver. Mas isto é um cenário que nós não conseguimos controlar.

Miguel Machado Mendes, advogado representante dos promotores desta iniciativa, muito obrigada por ter estado connosco na explicações.

Eu é que agradeço a oportunidade. Muito obrigado.

Até à próxima.

Muito obrigado.