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Olá, bem-vindos à Vicia e Suado. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o inspector-chefe Miguel Viterbo Dias e duas das maiores especialistas portuguesas em finanças públicas e pessoais, a Inês André Figueiredo e a Mariana Lima Cunha. É esta verdadeira troika que me vai ajudar a explicar uma semana marcada por mais uma coleção de embaraços para a PJ, pelo regresso de um fantasma com 15 anos e pela confirmação de uma suspeita antiga: Pedro Passos Coelho anda por aí, mas não anda sozinho.

Eu não consigo entender como é que se dá posse a governos que não têm apoio parlamentar. Não consigo entender.

É algo que o eleitorado do PS, e eu até diria, peço desculpa por dizer isto, mas sobretudo do PSD, não aceita bem.

Olhar pra um governo que não tem apoio parlamentar, que não fez uma única reunião que se saiba pra poder ter apoio parlamentar, e depois pedir-lhe reformas?

Mas o ponto fundamental é este: isso não dispensa o governo de as propor. Eu peço compreensão aos senhores e às senhoras jornalistas. Por forma a que eu mantenha sempre estas prioridades.

Para discutir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Mariana Lima Cunha, começo por ti, até porque vieste de umas férias verdadeiramente inesquecíveis. Diria, se me permites, que estás com um brilhozinho diferente. Mas é pra falar sobre esta sopa, Sopa ao Lume. Esta semana tivemos a bizarria de termos o Ministério Público a investigar e a fazer buscas à PJ. Temos a confirmação de que a Comissão Parlamentar de Inquérito a Luís Neves vai mesmo avançar. Tudo isto traz mais um grau de dificuldade ao atual ministro da Administração Interna, que passará os próximos dias, e daí o nome desta sopa, dias, meses, a ser queimado em lumbrante. Como é que Luís Neves conseguirá sair politicamente vivo de tudo isto?

Eu isso não sei. Dou graças a Deus por não ser assessora do Luís Neves. Eu gostava só de dizer que eu quero negar a minha apresentação, porque especialista em finanças pessoais não sou, mas gostava muito de ser.

Públicas é?

Públicas até ainda vá, agora pessoais, nada disso. Eu acho que, Miguel, como é habitual, estamos em sintonia, portanto eu no fundo vou quase concordar com os termos usados na tua pergunta. O PSD e o governo já tinham uma grande preocupação de que Luís Neves fosse queimado em lumbrante, muito pelo Chega. O Chega obviamente encarou o caso Luís Neves como um fit perfeito pra sua narrativa e seu argumentário, de que o centrão é um, só me estão a ocorrer palavras do André Ventura, um lamaçal, uma coisa desse gênero, cheio de interesses entrelaçados que ninguém percebe muito bem quais são. E portanto, Luís Neves é um exemplo perfeito para o Chega carregar nessa narrativa e se distinguir do centrão. E se alguma vez nós achamos, quando conhecíamos mal o Chega, tínhamos aquelas conversas sobre qual era o teto do Chega e se a estratégia alguma vez seria moderar, se juntar ao PSD, etc. Acho que fica claro que a estratégia continua a ser distinguir-se o máximo possível das alternativas que já existiam. E portanto, o PSD e o governo já tinham esse medo. E agora, em termos de calendário, é isso mesmo que vai acontecer, no sentido em que nós tivemos finalmente a CPI aprovada, depois de uma série de problemas jurídicos que a Gabranco quis resolver, quis pôr alguma ordem na casa, porque de fato o objeto inicial da comissão de inquérito do Chega dava pra tudo e mais alguma coisa, não era muito definido. Agora, finalmente vai avançar, mas poucos dias depois de avançar, vai ter de parar por causa do começo dos trabalhos orçamentais e, portanto, aí espera-se um congelamento pra aí durante dois meses dos trabalhos da comissão de inquérito.

Portanto, lá para março, abril, teremos conclusões possíveis da comissão parlamentar de inquérito.

E se o Chega seguir a estratégia que tem seguido, por exemplo, no caso das gêmeas, ainda vai pedir a prorrogação, eu acho que é muito provável, da comissão de inquérito, até porque se pediu uma análise às ações de Luís Neves durante oito anos, não é exatamente um mandato curto. E portanto, o governo que esperava arrumar este assunto no verão com o fim da catadupa do ministro Luís Neves, no próximo ano vai ter nova dose de pressão sobre o ministro.

Ainda faltam saber as conclusões das várias investigações em curso. Inês André Figueiredo, isto é obviamente o objetivo do Chega, objetivo assumido por André Ventura. Há sondagens que apontam para a questão da corrupção como uma das maiores preocupações dos portugueses. Não está aqui em causa até ver nenhuma acusação ou suspeita de corrupção cometida por Luís Neves, mas aqui corrupção no sentido mais lato do termo. É isto que André Ventura procura associar constantemente o atual governo Por via de Luís Neves, a ideia de que está instalado o tal lamaçal ou pântano, como foi usado noutras latitudes, e que só o Chega conseguirá romper com o estado de coisas?

É verdade que esses argumentos do sistema corrompido, nós contra eles, fizeram sempre parte da argumentação de André Ventura neste caso. E agora que José Pedro Aguiar Branco apresentou um novo argumento em que retirou dois pontos do requerimento do Chega, mas manteve todos os outros, se André Ventura não aceitasse e continuasse a bater o pé, perdia toda a razão. Portanto, acaba aqui por aceitar. E vemos depois de correspondência pra trás e pra frente, que foi aquilo que aconteceu nas últimas semanas, no fundo, acaba por fazer a única coisa que se esperava, que é não só aceitar a CPI nesses termos propostos, mas também prolongar o caso por vários meses, como dizia a Mariana, porque o objetivo sempre foi esse, de cozinhar, cozer, vocês estavam a dizer queimar. O ministro é lumbrando e contrariar essa estratégia que foi seguida pelo governo, que tem sido esperar que passe, que a bolha se esqueça, que as notícias abrandem. Na verdade, isso até tem acontecido, principalmente depois da audição a Luís Neves e da moção de censura.

Entramos aqui num compasso de espera até haver novidades sobre os inquéritos e investigações em curso. Há pelo menos três da Procuradoria Geral da República, esses com crata de urgência, e portanto, até haver novidades sobre o caso Luís Neves, o país politificará em suspenso. Miguel Vitor Dias, não sei se queres dar uma colherada nesta sopa ou se queres antes falar da segunda sopa que tenho pra vocês. Uma sopa fossilizada.

Teremos muita hora de comissão de inquérito pra analisar.

Temos uma sopa fossilizada.

E muita hora de entrevista de André Ventura pelo meio, também de certeza.

Para falar sobre a discussão em torno dos impostos sobre os combustíveis, para falar sobre as medidas adotadas pelo governo, mas para falar também desta circunstância difícil para o Partido Socialista de defender medidas que depois não as aprova no Parlamento. Como é que José Luís Carneiro vai descalçar esta bota? E acho que já é a segunda vez que uso a expressão descalçar esta bota, mas à falta de melhor, é mesmo isso.

Esta discussão sobre a resposta ao aumento do custo de vida é um bocadinho como os três grandes de futebol discutirem as arbitragens, que é já todos disseram que não falam de arbitragens e depois ciclicamente vão lá parar porque precisam de falar sobre isso. Nesta matéria, é mais ou menos o mesmo, sendo que eu acho que o PS tem uma narrativa que, tendo essa dificuldade que estavas a colocar na tua questão, que é concordar com as medidas e não votar a favor, tem uma narrativa que faz algum sentido, que é a questão da aplicabilidade desde já. Que é o fato de um projeto de recomendação funcionar porque é apenas para vincar o caminho que o PS entende que deve ser feito, porque a única entidade que o pode fazer é mesmo o governo e não vale a pena estar a apresentar projetos de lei, o que, no caso da chamada coligação negativa, pode até transformar a questão orçamental num problema ainda maior, porque terá aplicação durante um ano completo e não apenas nesta fase em que é necessário dar uma resposta. E por isso essa narrativa da responsabilidade que se vai colar também à questão do orçamento do Estado, pode servir ao Partido Socialista nesta altura, até porque está numa posição mais ou menos confortável, que é a de já não tem que ser o PS a ir ao cofre para libertar dinheiro para ajudar as pessoas. E, portanto, agora pode fazer um bocadinho aquilo que o PSD fez há uns anos. Era na altura Joacine Miranda Sarmento líder parlamentar e defendia, por sinal, coisas como a redução do IVA dos combustíveis. Enfim, já explicou que agora a situação é outra, mas agora fica Miranda Sarmento na posição mais complicada, que é ter que ir ao cofre buscar mais dinheiro e o PS, nesse caso, mais confortável com essa narrativa da responsabilidade que daqui por 15 dias no orçamento, vai também dar jeito a José Luís Carneiro pra justificar, ao que tudo indica, uma viabilização do diploma.

Inês Andrade Figueiredo, André Ventura vai subindo nas sondagens, vai já aparecendo em algumas delas como candidato preferido a primeiro-ministro. O fato de estar nesta circunstância, que pra ele é vantajosa, o Chega não tem por hábito preocupar-se muito com contas públicas ou sequer com contas, no sentido mais geral do termo. O fato de estar nesta circunstância muito favorável, de poder criticar o governo e o Partido Socialista por não ajudarem ou não ajudarem na medida que o Chega entende ser a mais correta os portugueses, isto pode permitir a André Ventura disparar ainda mais nas intenções de voto?

Nós estamos sempre a dizer isto, mas na verdade, quando o André Ventura consegue jogar os dois lados do tabuleiro, está a ganhar votos. A verdade é essa. E chegamos aqui, ou pelo menos é isso que as urnas nos têm mostrado. Chegamos aqui à situação em que o Chega estava a fazer uma oposição muito forte ao governo. Em princípio, não terá nada a dizer sobre o orçamento do Estado porque parece estar aprovado e por isso pode votar contra e continuar a fazer essa oposição. E, por outro lado, pode fazer todo o tipo de propostas, sejam elas plausíveis ou não. Tanto a questão do projeto de lei, que na altura diziam que só entrava em vigor em janeiro e estavam a dizer que ia resolver os problemas dos portugueses agora, claramente que não ia. E depois este bate-boca com José Luís Carneiro, em que o Chega diz: "Mas o projeto do PS não faz nada porque é apenas uma recomendação ao governo", quando já tinha até feito isso no passado. Portanto, estamos aqui numa situação em que, de fato, André Ventura acaba por conseguir tirar louros de todas as jogadas que faz. Vamos tentar

Perceber se é isso que acontece quando tivermos de ir às urnas, mas na verdade, todas as sondagens que têm saído são bastante favoráveis ao Chega.

Mariana Lima Cunha, antes de irmos para a última sopa, um pequeno comentário sobre esta questão. Luís Montenegro arrisca-se a ser a nova Maria Antonieta?

Fiquei espantada que a Mariana veio de férias, mas não estava à espera disto.

O Miguel sempre muito original na formulação das suas perguntas.

Ir ao pão como excedente.

Sim, acho que o PS já ficou escaldado com essa estratégia quando foi para eleições antecipadas e não tinha distribuído o excedente que tinha andado a acumular. E isso claramente prejudicou depois nas eleições que acabaram por conduzir Luís Montenegro ao governo. E sinceramente, eu acho que esta narrativa de Luís Montenegro de falar agora de Sócrates é uma coisa que nós já vimos muitas vezes, mas eu não sei se não é um guião que está a ficar um bocadinho gasto.

Foi há 15 anos, como lembrava na introdução.

Foi há 15 anos.

Acho que aqui nenhum de nós tinha iniciado as suas carreiras profissionais.

É verdade. Embora, como parecem anos de cão, parece que já foi há muito mais tempo. Mas nós que frequentamos muito o Parlamento, sabemos que Sócrates é um dos argumentos preferidos para qualquer tipo de medida que se queira tomar mais dispendiosa, como escudo protetor de qualquer governo. Até para António Costa.

Está para finanças públicas como Passos está para os pensionistas.

Exatamente. Agita-se esse papão e de repente toda a gente fica com medo e desiste da ideia. Mas eu digo isto apenas porque o custo de vida é uma questão tão relevante para os portugueses, os preços dos combustíveis e do supermercado são tão relevantes, que não me parece que na balança o medo de Sócrates e a consideração pelas contas públicas ganhe quando no dia a dia as pessoas sentem isso no bolso. Pode ser sempre uma vantagem não haver eleições no horizonte.

Para terminar, uma última sopa, sopa na sombra, para falarmos sobre Mário Centeno. Mariana Lima Cunha, para onde vai e o que quer Mário Centeno?

Eu assumo que Mário Centeno queira muita coisa, porque anda a aparecer, a multiplicar-se em espaços de comentário, num livro, em entrevistas, em declarações algo bombásticas, se calhar não é o termo certo, mas em declarações que fazem notícia.

Bombásticas e Mário Centeno na mesma frase.

Pois, mas que fazem notícia e que têm destaque. O que eu quero dizer é, obviamente, Mário Centeno, que ganhou jeito para ser político muito rapidamente e teve uma evolução nesse sentido muito rápida, sabe quando é que vai dar notícia e sabe quando é que vai provocar essa atenção mediática e está a fazê-lo de uma maneira cada vez mais frequente, incluindo com críticas ao PS. Eu até fiquei algo, não vou dizer espantada, mas primeiro com a abertura de alguma dessas críticas, o assumir de algumas dessas críticas de forma mais clara, e até com uma declaração que ele deu ao Expresso, penso que vai ser uma entrevista mais detalhada depois, em que discorda do caminho propositivo de José Luís Carneiro, que diz que o caminho da oposição devia ser mais de crítica ao governo e menos de alternativa. E aí parece já estar a indicar quase uma alternativa dele, uma proposta de como é que se faz oposição. Acho que ele está a marcar território, agora, tendo em conta dois dados que temos, que é que Centeno ainda não é filiado no PS, logo não pode ser líder, num período acho que de dois anos teriam de passar.

E será difícil voltarem o nome dele até ao Presidente da República para se transformar presidente.

Exato.

Já teve a oportunidade.

E depois, as sondagens que temos são positivas para o PS. Ou seja, neste momento, começar agora a provocar o desgaste de Luís Carneiro, não sei se é a melhor estratégia. Sei lá os timings, eu não os conheço.

Desgastar o José Luís Carneiro. Se Mário Centeno com as suas aparições constantes vai desgastar o José Luís Carneiro.

Vai criando algum ruído que no caso de alguém que está na oposição é sempre desejável que não exista. É como aquela história, voltando outra vez a uma comparação futebolística, mais vale estar à frente do que estar atrás. Mas eu também partilho isto com a Mariana Lima Cunha, que é o nosso gosto pela baixa política. Eu estou curioso é com a parte formal deste processo, como é que Mário Centeno vai entrar no PS e conquistar o PS sem andar a comer sandes de carne na sala do país inteiro.

Exatamente.

E vamos ver se tem esse capital político todo para conquistar o país. Mas isso são outros 500. A primeira parte da Vichy Swastika tem de ficar por aqui. Voltamos dentro de momentos com entrevista a Eduardo Catroga.