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Título: Memórias de um craque
Autor: Fernando Assis Pacheco
Posfácio: Manuel António Pina
Editora: Tinta-da-China
Páginas: 133
Preço: 15,90 €

Cansado do ar científico de tantos especialistas que dissecam a mais recente desmarcação do camisola 9 do Solteiros & Casados F.C.? Perplexo com o cenho franzido dos comentadores da nossa praça, que falam de bola com a assustadora seriedade de quem nunca terá matutado no mistério da conceção ou na hipótese do apocalipse? Desconfortável sempre que algum pregador do novo evangelho da saúde lhe recomenda os benefícios da “prática desportiva”? Com a vaga esperança, ainda assim, de encontrar maneiras de falar sobre desporto que, passando o tormentoso cabo do trocadilho fácil, façam justiça ao seu encanto mágico?

Memórias de um Craque tem boas hipóteses de lhe agradar.

Mas as crónicas que Fernando Assis Pacheco escreveu para o Record em 1972 não são apenas uma brisa feliz para aqueles que gostam de desporto pela amável e simples razão de que cresceram a gostar de desporto. Devido à forma como retratam a infância, à língua vivíssima do cronista e a um humor com alguns momentos de cair da cadeira a rir, elas são um pedaço de literatura digno de nota — e uma lembrança em 2021 de que os jornais talvez devam aspirar a mais nas suas colunas escritas.

Em Memórias de um Craque (numa nova edição, agora pela Tinta-da-China), o desporto não é uma ciência cujos segredos importa conhecer, nem um estilo de vida a ser cultivado. É antes um ângulo de consideração auto-biográfica: Assis Pacheco oferece-nos uma visão do seu passado, recortando da meninice em Coimbra os episódios que serviram à “formação do sportsman”. Como se, nos campos a perder de vista da memória, o autor selecionasse um filtro e o filtro fosse: desporto. Desporto num sentido lato do termo, entenda-se, no qual tanto cabem jogos de futebol como pedradas aos gatos ou partidas a talhantes mal-dispostos. Em trinta textos, Assis Pacheco conta-nos assim peripécias dos seus tempos de “craque”, numa divertida visita à época dourada em que, rodeado dos amigos da Rua Guerra Junqueiro e arredores, era mestre no futebol de rua, e o cume da felicidade consistia em dar boleia ao Bentes da Académica.

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Em contraponto a uma certa tendência nacional para o solene e o embrulhado, a prosa de Assis Pacheco é ágil e foliona. Os verbos parecem mais acelerados do que os do português comum, as frases enchem-se de expressões que se ouvem nos cafés. Não se coíbe também o autor de recorrer a inesperadas brincadeiras de linguagem para dizer o que quer. Por exemplo, para descrever o seu espanto perante a habilidade entre os postes de Cano Mouse, recém-chegado guarda-redes de palmo e meio que não abdicava por nada dos seus óculos escuros, escreve com graça:

“E não é que voa como uma andorinha para a bola, dá-lhe a sapatada do estilo, levanta-se e nem as lentes se mexem? Coisa semelhante (pasmosa coisa) jamais topáramos na junqueiriana secção da cidade. Desatei a fazer pontos de exclamação nas circunvoluções cerebrais: !!!”

Ao jargão popular, à irreverência formal e a um tom de bravata típico de criança juntam-se por vezes referências cultas, num caldo estilístico tão surpreendente quanto bem-conseguido. Como naquela passagem em que, depois de descrita essa peculiar competição que consistia em correr sem tirar as mãos do guarda-chuva e sem tirar o guarda-chuva dos carris, se fala da corrida contra um tal Pampilhosa — que deveria terminar na casa deste último:

“Às cinco e pico, porém, ultrapassada de há muito a curva da Conchada, virei-me para o adversário e perguntei-lhe:

‘Onde é que moras, ó pá?’

‘Moro nos Olivais’, volveu-me tranquilamente

“Não era nada: eram para aí uns três quilómetros! E os carris direitinhos pela encosta fora, sem interrupção, como um tormento digno da mitologia grega…”

Dito isto, o que dá às crónicas de Assis Pacheco uma vibração tão alegre e comovente é a sua capacidade de imergir o leitor na perspetiva da infância: em primeiro lugar, aproximando-se, pelo modo de narrar, do entusiasmo das crianças, que veem novidade fresquinha onde nós só vemos repetição sonâmbula; em segundo lugar, plasmando na escrita uma crença central de qualquer infância feliz, a crença de que as nossas aventuras não são só mais um acontecimento difícil de interpretar neste universo mudo e infinito, mas o próprio centro do bem-ordenado Cosmos. É graças ao tal uso muito vivo da língua e à mestria na arte de engrandecer o pequeno — a cómica identificação de si próprio como “o craque” é exemplo disso mesmo — que Assis Pacheco nos faz entrever de novo esse reino irrecuperável. E daí resulta que, enquanto leitores, vivemos cada episódio com um frisson análogo ao da experiência relatada — mesmo tratando-se apenas de um jogo de matraquilhos ou de mais um truque manhoso para atrair miúdas.

Feitos os elogios, ressalve-se que, como é frequente em textos escritos com a ampulheta jornalística ao lado, as crónicas estão longe de ter todas o mesmo valor. Em alguns textos Assis Pacheco parece afetado por um certo desencanto, e a narração acaba por perder o brilho que tem nos seus melhores momentos. Isso acontece quando o palco deixa de estar todo ocupado pelo jovem “craque” e as travessuras da sua pandilha, passando a ser partilhado também por desabafos de um Assis Pacheco já muito diferente do miúdo que brincava na Rua Guerra Junqueiro. É a altura em que o cronista aumenta as referências ao tempo presente, em que diz estar farto “destas balelas da escrita”, em que admite escrever “com uma trotadora saudade pelos anos que não voltam” — como se um súbito ataque de melancolia o atacasse, desfigurando o ambiente malandro-juvenil dos melhores textos. No seu todo, o conjunto não chega a alcançar aquela grandeza que encontramos nas crónicas futebolísticas de Nélson Rodrigues, reunidas pela Tinta-da-China em Brasil em Campo e que podem também ser lidas numa antologia brasileira de título perfeito: A Pátria em Chuteiras.

Comparações à parte, o que Assis Pacheco nos oferece em Memórias de um Craque é muito bom e muito raro: um engraçadíssimo retorno à infância, no qual se captura com inteligência a aura mágica que o desporto tem para tantas pessoas. Um craque da autobiografia desportiva, portanto.