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Título: O Senhor d’Além
Autor: Teresa Veiga
Editora: Tinta-da-China
Páginas: 124

Se rebobinarmos a nossa história de leitores até àquele ponto em que ainda não distinguíamos bem “Antero” de “Homero”, e em que o espírito virgem explorava as páginas desprevenido para o tipo de fenómenos que a actividade poderia desencadear, que impressões vêm à memória? Lembro-me sobretudo do espanto com as passagens que, sem aviso prévio, descreviam um segredo interior meu ou de alguém próximo. Zonas da experiência que não me eram desconhecidas, mas sobre as quais teria dificuldade em articular duas frases com sentido, expostas ali com precisão, com uma beleza viva, estranha e fascinante. Olhando para o tecto, para debaixo da cama, apetecia perguntar, perplexo com a inesperada devassa da alma: “Quem anda aí a espreitar-me?” Era a descoberta do poder revelador das palavras.

No novo romance de Teresa Veiga, O senhor d’Além (Tinta-da-China), construído em torno de um notário que fez fortuna com negócios imobiliários no início da transformação turística do Algarve, não faltam momentos desses, em que as palavras brilham como pequenos sóis de lucidez implacável. Enquanto acompanhamos a história do protagonista Mário Malheiros, na descoberta da Casa das Palmeiras, no caso que o liga a uma mulher misteriosa chamada Célia, no passeio de férias com a sua esposa, ou quando passa a ser observado pelo bibliotecário que é o narrador da segunda parte do livro, não restam dúvidas de que Teresa Veiga tem olho para detectar finos mecanismos da psicologia humana, e mão para as retratar com habilidade de artista.

Frase após frase, é notável o domínio dos pesos e dos ritmos, sem que a escritora precise de alardear virtuosismo para nos oferecer, em doses muito generosas, o prazer da leitura. Por vezes, é apenas um apontamento, o sublinhado certo, o adjectivo exacto, que mantém viva a fulguração do texto, como quando, querendo reforçar por contraste a angústia muda da esposa ciumenta, fala assim das duas beldades de corpos esculturais que se bronzeiam na piscina do hotel: “percebia-se que para elas o mundo era um lugar calmo e pacífico, um território a seus pés que não precisavam de conquistar.” Noutras vezes, apesar de não romper com o registo sóbrio que pauta todo o texto, permite-se um rasgo maior, recorrendo a imagens que deixam a ecoar as suas sugestões trágico-cómicas. Veja-se a passagem em que, pretendendo fixar o momento em que Mário Malheiros perde o norte e o controlo da sua vida, Teresa Veiga decide — com uma ironia que roça a crueldade! — pôr o protagonista de olhar vigilante sobre a estrada e mãos bem seguras no volante:

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Entretido a forjar planos e a ensaiar argumentos, guiava com as duas mãos sobre o volante e os olhos fixos na estrada, e foi assim que avançou com o carro pelo caminho de acesso à Casa das Palmeiras, sem saber que a sua vida já tinha sofrido uma reviravolta completa e que naquele momento a sua vontade pesava tanto como uma palha balanceando ao sabor das ondas.”

Se somarmos a tudo isso um encadeamento hábil do discurso — hábil sobretudo na maneira como, investindo na descrição de sucessivos aspectos da trama, consegue nunca perturbar a fluência global da narração —, temos uma prosa que não está ao alcance de escritores menores. No entanto, como ensina o provérbio, “é no alto da montanha que os ventos são mais fortes”. Ou, neste caso: é no alto de um romance muito bem escrito que sentimos com maior pena as suas limitações. Isto para dizer que, apesar das abundantes manifestações de talento de Teresa Veiga, o livro acaba por não satisfazer as expectativas criadas.

À medida que a leitura avança, vai-se agravando a ideia de que o romance não corporiza nenhuma visão particularmente pujante acerca das coisas, como se a autora se desse por contente com contar muito bem uma história e apresentar uma quantidade considerável de insights inteligentes. Fica-se com a impressão de estar diante de um monumento literário a que certa falta de ambição romanesca cortou os pés (ou será a cabeça?). Cheio de pequenas visões carregadas de interesse, a O senhor d’Além falta, em suma, aquela visão única e profunda na qual se sustenta a glória das grandes obras.

É justo dizer que o texto não se esgota no primeiro plano dos acontecimentos narrados. Parece haver, por exemplo, uma compreensão da mediocridade das formas habituais de desempenho existencial, bem como uma interessante intuição da vida como “fera selvagem” — que aparece amansada ora pela toada soporífera do quotidiano, como se verifica na história da mulher do protagonista, ora por movimentos de fuga às circunstâncias da própria existência, como transparece do resumo que o bibliotecário lisboeta faz dos seus primeiros dias no Algarve:

Foram dias felizes num país de sonho, todo azul e ouro, em que não me recusei nenhum prazer, nenhum pensamento grave me turvou a mente, em que me deixei deslizar simplesmente à superfície da vida como se tivéssemos firmado um pacto de não-agressão para sempre”.

Em todo o caso, essas ideias fortes, que de vez em quando vêm dotar o texto de um maior poder de interpelação, não são aproveitadas em todo o seu potencial dramático. Os acontecimentos não acompanham com substância narrativa os comentários que prometem alargar os horizontes do sentido.

Outro dos factores que limitam o livro está ligado à opção de, na primeira parte, conjugar a narração omnisciente na terceira pessoa com um certo travo irónico. Esclarecimento prévio: é óbvio que há obras de alto gabarito escritas na terceira pessoa e narradas por vozes omniscientes; é também óbvio que a ironia nunca proibiu nenhum texto de se tornar numa obra-prima; e nada impede, por princípio, que a conjugação entre estes elementos funcione. Dito isto, acontece em O senhor d’Além o que muitas vezes acontece com livros escritos dessa maneira: o peso da perspectiva que comanda a narração sufoca um pouco as personagens, tolhe-lhes os movimentos.

Para nosso bem, a mestria estilística de Teresa Veiga impede-a de fazer uso daquele cínico engraçadismo pré-congelado que alguns escritores, ansiosos por mostrar a cada frase o seu dom, não conseguem evitar; e se falamos aqui de um certo ‘travo irónico’, estamos a falar sobretudo de uma maneira de ver a realidade capaz de, com fineza, detectar e zombar de algumas fraquezas humanas — muito longe da exibição histriónica que demasiadas vezes recebe o nome de ironia. Apesar de a prosa de Teresa Veiga ser, desse ponto de vista, elegantemente contida, ainda assim há qualquer coisa no tom do livro que nos faz suspeitar à partida que as personagens não se libertarão da nuvem cinzenta que cobre o mundo do narrador. Por arrasto, ficam menorizadas tanto a capacidade que elas teriam de nos causar surpresa, como a qualidade dos retratos vivos que pretendem ser.

De que forma O senhor d’Além expande a nossa perspectiva? Que ângulo novo, que abismo da experiência, que pérola rara nos descobre esta leitura? Perante perguntas que fazem a triagem entre livros competentes e livros extraordinários, a mais recente obra de Teresa Veiga dá respostas que sabem a pouco. É certo que, sob pena de cair no ridículo, quem escreve sobre literatura não se deve esquecer do aforismo de Lichtenberg: “Quando um livro bate na cabeça e soa a oco, a culpa não é necessariamente do livro.” Essa hipótese, de a culpa ser do leitor e não do livro, está sempre em aberto. Reconhecendo isso, este leitor aqui deve confessar que sentiu a falta de um recheio mais consistente e original. Uma prosa tão bem calibrada prometia mais.